Ficou assim...

Vila Madalena: reduto baladeiro

Não existe noite vazia no bairro onde a renda média dos domicílios é de cerca de 9 000 reais e metade das famílias não tem filhos

Por: Karla Dunder - Atualizado em

Vila Madalena - Rua Aspicuelta - Mourato Coelho - 2187a
Esquina das ruas Mourato Coelho e Aspicuelta: centro da vida boêmia da Vila Madalena (Foto: Fernando Moraes)

A Vila Madalena tem apenas 2,3 quilômetros quadrados de área e seria normal conseguir cruzá-la de carro de uma ponta à outra em menos de cinco minutos. Mas é difícil executar a tarefa, tamanha a concentração de atrações que existem no caminho: quase 300 bares, restaurantes e lanchonetes e mais de quarenta livrarias e lojas de artesanato. Quem passa acaba parando para pôr as notícias em dia com algum conhecido. Em uma região onde a renda média dos domicílios é de cerca de 9 000 reais e em que 51% das famílias não possuem filhos, as ruas dificilmente ficam desertas.   

Vila Madalena - Madeleine - 2187a
Ambiente do Madeleine: música ao vivo à luz de velas (Foto: Mario Rodrigues)

Boa parte dessa renda é investida em tulipas e caldeiretas bem geladas. Elton Altman, dono dos bares Filial, Genésio e Genial, estima vender mensalmente 36 000 litros de chope. “A Vila Madalena é tradicionalmente frequentada por artistas, geralmente boêmios”, afirma Altman. Seu Jorge e Max de Castro costumam ir ao Filial, na Rua Fidalga. Maria Rita prefere o Genésio, na calçada em frente. Na Rua Wisard, cineastas batem ponto no Empanadas, e o cartunista Paulo Caruso dá canja nos shows de jazz e MPB do Piratininga. 

Melograno - Vila Madalena - 2187a
Melograno: premiado na edição especial 'Comer & Beber' de VEJA SÃO PAULO pela carta de cervejas (Foto: Fernando Moraes)

“Tem tudo de que eu gosto, e bem pertinho: bar, livraria, bar, café, bar, sebo, bar, padaria”, brinca o escritor pernambucano Marcelino Freire. “Ao mesmo tempo, conserva o jeitão de cidadezinha do interior, com barbeiros que atendem em garagens, naquelas cadeiras pretas”, diz o fotógrafo Marcelo Pallotta, que montou estúdio na Rua Aspicuelta. 

SubAstor - Vila Madalena - 2187a
SubAstor: premiado pela carta de coquetéis na edição especial 'Comer & Beber' da VEJA SÃO PAULO (Foto: Fernando Moraes)

O perfil intelectual dos frequentadores do bairro colaborou para o sucesso da Livraria da Vila. Fundada em 1985, a loja da Rua Fradique Coutinho virou rede, com quatro outros estabelecimentos na capital. “É um ponto de encontro de leitores, e transformamos essa identidade numa marca”, diz o empresário Samuel Seibel. Em novembro, autores nacionais e estrangeiros são esperados na livraria para a Balada Literária, que promove palestras e shows durante um fim de semana.

Livraria da Vila - Vila Madalena - Samuel Seibel - 2187a
Samuel Seibel, da Livraria da Vila: há 25 anos no bairro (Foto: Fernando Moraes)

Como todo canto boêmio que se preze, blocos fazem a alegria do carnaval de rua. O cineasta Gustavo Mello, integrante do Cordão Confraria do Pasmado, conta que a agremiação arrastou cerca de 5 000 pessoas em fevereiro. “A proposta é sair pelas ruas e tocar música. Buscamos a diversão e não ficamos restritos ao Sambódromo.” Para quem prefere o samba da avenida, vale conferir os ensaios da escola Pérola Negra, na quadra da Rua Girassol. 

Cordão Confraria do Pasmado - Vila Madalena - 2187a
Folia: o Cordão Confraria do Pasmado reuniu 5 000 pessoas no Carnaval (Foto: Divulgação)

Mas o fervor que atrai o público também traz tráfego para as vias estreitas. “Ônibus fazem curvas em espaços quase impossíveis e carros são estacionados em locais proibidos. Isso sem contar os valets, muitos deles irregulares”, destaca Vângela Velozo, diretora do Centro Cultural Vila Madalena. De olho na Copa do Mundo de 2014, a entidade firmou parceria com a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) para dar treinamento aos manobristas. Em 2008, a prefeitura apresentou um projeto de reurbanização da região, patrocinado pela iniciativa privada, nos moldes do que foi feito na Rua Oscar Freire.

De acordo com estudos da CET, o projeto favorecia a fluidez do trânsito. Associações de moradores foram contra, por entender que o lugar ficaria ainda mais barulhento. “Nos fins de semana, uso protetor auricular ou fujo para a casa da minha namorada”, afirma o jornalista João Guilherme Lacerda. “O agito acaba limitando a vocação imobiliária do bairro”, avalia Reinaldo Gregori, presidente da Cognatis Geomarketing. “São raros os empreendimentos com mais de dois dormitórios, porque as famílias preferem a tranquilidade de outras áreas da cidade.”

Fonte: VEJA SÃO PAULO