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Verticalização das favelas: conheça o "Copan" de Paraisópolis

Conjunto de sete prédios de seis andares na Zona Sul é símbolo do fenômeno 

Por: Sérgio Quintella

Paraisópolis
O “condomínio”: a primeira torre surgiu por ali em 2014 (Foto: Anderson Chaurais/Luiz Guarnieri)

 As favelas da capital estão em franca expansão há pelo menos seis anos. Dados da prefeitura mostram que, nesse período, o número de moradias aumentou 7% (passou de 1 565 para 1 677). A quantidade de famílias vivendo nesses locais, que era de 389 000 em 2011, subiu para 468 000 em 2016, um salto de 20%. Nesse ritmo, começou a faltar espaço nas principais aglomerações, o que acabou também sendo resolvido de maneira informal.

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Se não há mais terreno para construir ao lado, o jeito é pôr um barraco em cima do outro. Por isso, nos últimos tempos, surgiram predinhos de quatro ou mais andares em vários desses lugares, incluindo Paraisópolis, na Zona Sul, que é, segundo a gestão municipal, a favela campeã da cidade em número de domicílios (17 200). Localizada na vizinhança do bairro do Morumbi, entre as avenidas Giovanni Gronchi e Hebe Camargo, ela ostenta várias edificações em toda a sua área. Uma, no entanto, chama ainda mais atenção. Trata-se de um conjunto de sete prédios de seis andares, que forma uma espécie de “Copan” do pedaço.

O primeiro bloco surgiu em 2014. Desde então, o negócio não para de crescer. Hoje, há no endereço um total de 84 apartamentos. Existe uma entrada comum, mas cada torre é independente. Os pisos são ligados por escadarias improvisadas, e as unidades, ocupadas por cerca de 300 moradores, têm entre 20 e 80 metros quadrados de área. O vendedor autônomo Ricardo Pereira, de 28 anos, possui uma das maiores. Há quatro meses, pagou 10 000 reais pela laje de um dos edifícios e construiu em cima dela dois pavimentos, transformando o local em um dúplex, com direito a porcelanato no chão, teto com forro de gesso rebaixado e cozinha americana com janelões. A obra ainda não está finalizada. Faltam a área de lazer e a “varanda gourmet”. “No andar de cima ficarão a lavanderia e o espaço para festas, com churrasqueira”, explica Pereira. Ele gastou, até agora, 50 000 reais com a construção.

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Ricardo Pereira: dúplex construído em cima da laje (Foto: Leo Martins)

Cada prédio que forma o complexo tem um ou vários proprietários, que preferem não ser identificados para não ter de pagar impostos nem receber nenhum outro tipo de cobrança. Um deles, além de ser dono de 24 unidades de um dos edifícios do “Copan”, possui ainda cinquenta imóveis na favela, que lhe rendem 53 000 reais por mês. Segundo o empresário, que falou com a reportagem de VEJA SÃO PAULO com a condição de não ser identificado, uma casa de dois quartos, sala, cozinha e banheiro custa, em Paraisópolis, cerca de 50 000 reais.

O valor dos aluguéis varia de 500 a 1 200 reais, cobrados com carnê. “Todo mundo paga direitinho. Ninguém quer ter o nome sujo no bairro”, diz ele. Nenhuma das edificações, evidentemente, dispõe de projetos assinados por engenheiros ou aprovação dos órgãos da prefeitura. É tudo feito no “olhômetro”, com puxadinhos executados por pedreiros da região. A ligação de luz e água também é clandestina. Nos postes e em cada cantinho dos pavimentos é possível ver emaranhados de fios expostos, fruto das emendas para obter energia de maneira ilegal.

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Ligações clandestinas no "Copan" (Foto: Leo Martins)

A convite de VEJA SÃO PAULO, o engenheiro Joni Incheglu, diretor da Associação das Pequenas e Médias Empresas da Construção Civil, visitou o lugar para analisar a construção. “Não há risco de desabamento a curto prazo”, disse, depois da inspeção. “Mas, futuramente, as estruturas ficarão comprometidas, pois não foram feitos estudos de solo e as fundações são insuficientes.” Apesar disso, não existem registros recentes de desabamento ali. O problema mais grave registrado em Paraisópolis neste ano ocorreu longe da área do “Copan”. Em maio, um curto-circuito na vizinhança de um ferro-velho virou um grande incêndio, deixando cercade 200 famílias desabrigadas.

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O edifício em frente (Foto: Leo Martins)

Os moradores de condomínios de alto padrão localizados nos arredores já sofreram bastante com bandidos que usavam a favela como base de operações, mas a situação melhorou de dois anos para cá. Contribuíram para isso o aumento no policiamento e a mudança da mão de direção do chamado Ladeirão do Morumbi. Desde então, o número de roubos naquela via caiu 26%. Hoje, o problema que incomoda mais a região são os pancadões de funk, que ocorrem em Paraisópolis pelo menos três vezes por semana. Além de causar arruaça, eles servem como ponto de consumo e venda de drogas.

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Em volta do “Copan”, começam a surgir imóveis semelhantes. Em 2012, o ex-motoboy Paulo Figueiredo, 37, adquiriu o primeiro terreno nas imediações por 40 000 reais e, nele, construiu um edifício de cinco pavimentos e seis apartamentos com sacada mais um salão no térreo. Ele aluga cada unidade por 700 reais mensais — o salão está locado para uma igreja, por 3 000 reais. Para realizar a obra, que durou três anos, Figueiredo contou com a ajuda de dois pedreiros. “Eu desenhei e os meninos executaram”, relata. Se depender de pessoas como ele, a verticalização de Paraisópolis vai continuar em ritmo acelerado.

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O empreendedor Paulo Figueiredo: dono de prédios, casas e terrenos (Foto: Leo Martins)

O raio X do complexo

Números e curiosidades sobre o conjunto residencial improvisado

84 é a quantidade de apartamentos construídos no endereço

300 é o total de residentes. A maior parte das famílias já vivia dentro da favela

500 é o valor, em reais, do aluguel mais barato, pago com boleto mensal

80 é o tamanho, em metros quadrados, da maior unidade. A menor possui 20.

Fonte: VEJA SÃO PAULO