Cidade

Os problemas que persistem na metrópole

A capital mudou muito nas últimas décadas, mas as dores de cabeça que mais atormentam o paulistano continuam as mesmas: trânsito, poluição, seca...

Por: Nataly Costa

Cantareira - Seca
Reservatório da Cantareira: a pior crise da história (Foto: Mario Rodrigues)

"Ainda não choveu o suficiente. Mesmo com tantos apelos e campanhas públicas, os paulistanos não economizaram o que deviam. Como se não bastasse, fez calor e o consumo deágua aumentou 13%." Essas frases poderiam perfeitamente ter sido escritas no verão de 2014, mas estão no primeiro parágrafo de uma reportagem publicada em VEJA SÃO PAULO no dia 9 de novembro de 1994, quando a capital enfrentava um racionamento.

A exemplo da seca, outros problemas, como trânsito, poluição, insegurança, enchentes e degradação do centro, dificultam a vida por aqui há pelo menos três décadas e, por causa disso, são assuntos recorrentes na revista desde a sua criação.

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Apesar dos esforços para resolver essas questões, os governantes não conseguiram ultrapassar o campo das boas intenções (quando houve isso). As soluções, infelizmente, parecemfazer parte de um horizonte distante. Só nos resta torcer para que não demorem outros trinta anos.

A fonte que sempre seca

A inusitada foto de um poço artesiano sendo cavado na esquina da Avenida Paulista com a Rua Haddock Lobo, um dos pontos mais nobres da capital, ilustrava a reportagem“Vivendo com a seca”, publicada em janeiro de 1986 nas páginas internas da revista. O tema chegaria à capa dois anos depois, sob o título “A cidade sem água”, mostrandoque o problema se aprofundara.

À época já se alertava para a má administração dos recursos hídricos: falta de planejamento e desperdício eram apontados como causadores do colapso dos reservatórios. O planejamento e o investimento necessários nessa área nunca foram feitos para prevenir outros problemas.

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No fim de 2003, em uma emergência, o paulistano bebeu água do volume morto do Cantareira pela primeira vez. Uma década depois, em meio a uma das secas mais severas da história do estado, encontramo-nos novamente no “tanque reserva” (na semana passada, o nível do principal sistema de abastecimento da capital estava em 16%, contando duas cotas extras).

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Ruas afogadas

Em dezembro de 1988, o então prefeito Jânio Quadros inaugurou o Túnel Papa João Paulo II, mais conhecido como Anhangabaú, entre as avenidas Prestes Maia e 23 de Maio, nocentro. Quatro meses depois, a obra novinha em folha ilustrava uma reportagem de VEJA SÃO PAULO. O título: “Tempo ruim: por que a cidade para quando chove forte”.

A imagem mostrava um homem esgueirando-se pelas paredes enquanto fugia do lixo que boiava pela via subterrânea. Enchentes são recorrentes em São Paulo desde o começo do século passado — os primeiros registros remontam a meados dos anos 30. A urbanização acelerada só agravou o problema.

Um emblema desse drama foi vivido entre o fim de 2009 e o início de 2010, quando moradores do Jardim Pantanal, na Zona Leste, ficaram quase dois meses debaixo d’água (tema da reportagem de capa da revista, na foto abaixo). Nas últimas três décadas, prefeitura e governo do estado construíram 25 piscinões na região metropolitana. Nem todos surtiram o efeito desejado.

No geral, os vizinhos a essas áreas reclamam de falta de manutenção e acúmulo de entulho. Para o próximo verão, o jeito é esperar que não se alcance aquele que é o recorde histórico de pontos de alagamento na cidade, 420, contabilizados em 19 de março de 1991. Curiosidade: naquele dia, a previsão do tempo apontava uma manhã de sol.

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O flagelo do crack no cartão-postal

A região do antigo Terminal Rodoviário da Luz, no centro, já era considerada degradada, com venda de drogas e prostituição, desde o início da década de 90. Uma das primeirasvezes que VEJA SÃO PAULO mencionou a substância que faria a má fama do lugar foi em 1996 — na coluna Terraço Paulistano, contava-se a história de duas policiais que combatiam “o tráfico de crack”.

Dois anos mais tarde, o termo que batizaria o local surgiu em uma reportagem sobre o sucesso da Pinacoteca, mesmo “cravada em uma área problemática, num bairro deteriorado,com uma vizinhança eclética — a rua das noivas, a cracolândia, o Q.G. da Rota”. A partir de então, o assunto tornou-se recorrente na revista.

Cracolândia
A região da Cracolândia: o termo é frequente na revista desde 1988 (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

Em 2005, estudou-se a construção de uma faculdade por ali para atrair um novo público. Anunciado três anos depois, o projeto de reurbanização Nova Luz ainda não saiu do papel. A investida da Polícia Militar em 2012, além de espalhar os usuários para outros pontos, não acabou com o chamado “fluxo”.

Recentemente, o Programa Recomeço, do governo estadual, apostou na internação dos usuários; o De Braços Abertos, da prefeitura, na ressocialização por meio de trabalho remunerado. Até agora, nenhuma solução foi definitiva.

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Além de expor o drama dos usuários, a Cracolândia afasta o cidadão de nossa região mais bela. Em 2001, VEJA SÃO PAULO sentenciava: “Sejam quais forem as medidas anunciadas,a imagem do coração da cidade só melhorará quando o paulistano puder voltar a circular sem medo por suas ruas”.

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Insegurança e medo

Ao longo de trinta anos, VEJA SÃO PAULO publicou pelo menos sessenta reportagens de capa cujo tema central era a criminalidade — desde entrevistas exclusivas com suspeitos deassassinato até perfis dos distritos mais perigosos.

Isso representa uma média de uma matéria a cada seis meses. Quase 70% das reportagens saíram nas décadas de 80 e 90, quando a criminalidade apresentava índices assustadores no estado — em 1999, foram 35 homicídios para cada 100 000 habitantes, cinco vezes a média mundial.

Blitz
Blitz na Zona Norte: queda nos índices (Foto: Alex Silva)

Com ações como o reforço do policiamento, os números caíram, sobretudo na capital: a redução dos assassinatos foi de 79% entre 2001 e 2011. Apesar da melhora, especialistas dizem que ainda não é o caso de comemorar.

“Os roubos e os demais crimes contra o patrimônio continuam em alta”, diz o pesquisador André Zanetic, do Núcleo de Estudos da Violência da USP.

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Continuamos na lama

Não foram poucos os esforços para tentar reduzir a poluição na capital em todas as suas vertentes — atmosférica, hídrica, visual ou sonora. Nem a implementação da inspeção veicular entre 2008 e 2013 e os 2,4 bilhões de dólares desembolsados pelo governo do estado nos últimos 22 anos para limpar os rios Tietê e Pinheiros conseguiram dar um jeito no nosso ar e nas nossas águas.

Poluição - Rio Pinheiros
O Rio Pinheiros: no mínimo mais vinte anos de lixo (Foto: Luiz Claudio Barbosa/Futura Press)

“Se os investimentos e as obras não forem interrompidos, é perfeitamente possível despoluir nossos rios nos próximos vinte anos”, acredita Malu Ribeiro, da entidade ambiental S.O.S. Mata Atlântica. Na guerra contra a sujeira, a única iniciativa mais efetiva até o momento foi a Lei Cidade Limpa, de 2007, que acabou definitivamente com o festival de outdoors, propagandas e letreiros na paisagem.

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Marcha lenta

Talvez não exista dor crônica mais latente na vida do paulistano do que o excesso de congestionamentos. Quando VEJA SÃO PAULO entrou em circulação, a cidade contava com 1,6 milhão de veículos, o que nos fazia andar a uma velocidade média de 27 quilômetros por hora no horário de pico da tarde (das 17 às 20 horas).

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Trânsito - Avenida dos Bandeirantes - 1988
Avenida dos Bandeirantes em 1988: desde então, a lentidão aumentou 70% (Foto: Nani Gois)

Desde então, 590 veículos, em média, entraram em circulação por dia na capital, o que resultou em um recorde: entre automóveis, caminhões e motocicletas, quintuplicamos nossa frota em comparação a três décadas atrás e chegamos a 8 milhões de placas registradas em São Paulo no primeiro semestre de 2015.

Não é de espantar que medidas como o rodízio municipal, implantado em 2007, tenham perdido seu efeito. E que agora os carros circulem a uma lentidão de 6,9 quilômetros por hora, 70% maior que há trinta anos.

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Fonte: VEJA SÃO PAULO