Diálogos

Encontros improváveis: Nany People e Coronel Telhada

O deputado e a atriz transexual falam sobre preconceito, sexualidade e relacionamentos

Por: Ana Carolina Soares e Bárbara Öberg

Nany People e Coronel Telhada
O deputado Coronel Telhada e a atriz transexual Nany People (Foto: Fernando Moraes)

O tubinho preto escondia os joelhos da atriz transexual Nany People até nos momentos em que ela cruzava as pernas. “Escolhi um figurino mais chique e elegante para a ocasião”, explicou ela, que costuma abusar dos decotes e das rendas. O recato serviu para ir à Assembleia Legislativa visitar o gabinete do Coronel Telhada, deputado estadual, evangélico e e xcomandante da Rota. “Sou militar, crente e, como você, sofro preconceito”, afirmou o ex-policial. A conversa teve até troca de confissões.

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Nany pergunta:

Na sua vida militar, você viu relacionamento gay entre soldados?

Já, e, infelizmente, essa informação vem à tona de maneira que procura denegrir a imagem da corporação. Não deveria ser assim. Relacionamentos “homo” e “hétero” são iguais. Os gays podem ser militares. O regulamento prevê apenas que é proibido o ato sexual dentro de instalação militar. O que não pode é um cara fardado desmunhecando, com atitude incompatível com o cargo. Da mesma forma que um policial heterossexual uniformizado não pode ficar bêbado, deitar no chão, agarrar uma menina... Isso pode dar prisão.

O senhor já foi chamado de homofóbico. O que ocorreu?

Já fui chamado de homofóbico, racista, xenófobo, fundamentalista, entre vários outros rótulos. Mas tudo isso por desconhecimento. As pessoas acham que, por eu ser militar e evangélico, sou preconceituoso. Mas não sou. Trabalhei quinze anos em televisão como segurança do apresentador Gugu Liberato e sempre convivi numa boa com maquiadores, produtores... Tenho amigos gays. Como cristão, acredito no ensinamento de Jesus: todo ser humano precisa ser respeitado, não importam a cor, o credo ou a orientação sexual. Um verdadeiro homem de Deus não julga os outros por esses critérios.

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Então o senhor sofre preconceito?

Sofro. Sempre frequentei a Congregação Cristã e, quando era moleque, apanhei na escola por causa da minha religião. Os meninos diziam “crente do rabo quente”. Quando menciono minha fé, de cara já me rotulam de homofóbico. Por eu ser militar, dizem que sou contra a liberdade de expressão, a democracia. Na verdade, só sou contra bandido: pode ser rico, pobre, gay, hétero, não importa. Quem fere o semelhante merece cadeia.

Telhada pergunta:

Posso fazer uma pergunta besta? Com quantos anos você começou a transar?

Com 22 anos. Sempre gostei de homens (risos). Desde criança me senti diferente. Meu pai me batia, dizendo que eu deveria falar “como macho”. Eu não entendia por que ele não gostava de mim. Minha mãe, em compensação, sempre me apoiou e me defendeu. Quando eu tinha 10 anos, ela me colocou num psiquiatra. Foram dez anos no divã, tentando me entender e aceitar minha condição.

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Ainda sofre muito preconceito?

Meu bem, sou a pessoa menos indicada para falar de preconceito. Fiz do meu sonho uma realidade. Há trinta anos, saí da minha cidade, Poços de Caldas (MG), e cheguei a São Paulo com um colchão de espuma no bagageiro do ônibus da Viação Cometa. Foi difícil, até pensei em me matar. Mas consegui realizar meu sonho de viver de arte. Hoje estou maravilhosa, sou respeitada e querida. O teatro me salvou.

Como foi se apresentar no quartel na época do alistamento militar?

Cheguei lá e fiquei reunida com a turma até que um soldado disse: “Quem toma medicamentos vá para a tal salinha”. Fui lá. Achei que iam me dispensar imediatamente. Mas me entrevistaram, quiseram saber sobre o remédio. Contei que tomava desde os 10 anos, que eu tinha um desvio de conduta sexual. Termo horrível, né? Pediram um atestado, meu psiquiatra deu e, dias depois, fiz o juramento à bandeira. Mas gosto de policiais militares, nunca fui maltratada por nenhum. Pelo contrário, já me ajudaram em tentativas de assalto e me acompanharam em ruas desertas, porque eu estava com medo de ser atacada por homofóbicos. Adoro homens de farda (risos).

Fonte: VEJA SÃO PAULO