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VEJA SÃO PAULO lista 13 delícias do Pari

Um roteiro com diferentes culinárias que levaram outros temperos ao bairro doce de São Paulo

Por: Miguel Icassatti - Atualizado em

VEJA SÃO PAULO lista 13 delícias do Pari
Camarão na moranga: sob encomenda no Galinhada do Bahia (Foto: Alexandre Schneider)

Ainda hoje, há quem chegue ao bairro do Pari guiado pela memória do cheiro doce que escapava das chaminés das fábricas de biscoitos e guloseimas instaladas ali décadas atrás. Mas indústrias como a Tostines, a Neuza e a Bela Vista, que transformaram os 2,9 quilômetros quadrados bem próximos do centro geográfico da cidade no "bairro doce" de São Paulo, estão dando lugar ao comércio de utilidades domésticas. São centenas de lojas que, numa caminhada menos atenta pelas ruas planas da região, chegam a esconder os restaurantes e estabelecimentos especializados em diferentes culinárias. Da cozinha desses endereços saem, entre outros, aromas de receitas árabes, portuguesas e andinas que vêm transformando o Pari num incipiente pólo gastronômico na capital.

São lugares, é bom dizer, de ambiente simples, às vezes com decoração bem antiquada. Mas que têm, tanto no salão como na cozinha, a presença dos donos, quase sempre dividindo as tarefas com a esposa e os filhos. A pluralidade de sabores se deve, muito, ao encontro das diversas gerações de imigrantes que passaram a viver ali desde os fins do século XVI, caso de portugueses, italianos, libaneses, coreanos e, mais recentemente, bolivianos. "Essa mistura de povos vem mudando a fisionomia da região", diz o frei Agostinho Piccolo, vigário paroquial e diretor do Colégio Santo Antônio do Pari.

O Pari é um dos mais antigos bairros paulistanos. No século XVIII, catorze casas abrigavam 72 moradores, em geral pescadores que usavam uma armadilha indígena, o "pari", para fisgar os peixes dos rios Tamanduateí e Tietê. Dados do censo demográfico de 2000 dão conta de 14.824 habitantes. Separado da Vila Guilherme pelo Rio Tietê e vizinho do Brás, do Belém e da Luz, o distrito tem como principais pontos de referência a igreja de Santo Antônio do Pari, que todo dia 13 de junho recebe milhares de forasteiros em busca da bênção do santo casamenteiro, e o Estádio do Canindé, sede da Portuguesa de Desportos, clube no qual se encontra uma das treze pequenas jóias gastronômicas apresentadas nesta reportagem.

Com a bênção de Alá

Em 2000, a loja de confecções aberta nos anos 80 na Rua Miller, no Brás, já não era um bom negócio para a família de Mohamad e Hanie Moussa. O talento inato para o comércio fez com que o casal de libaneses mudasse de ramo ao comprar um pequeno ponto na rua paralela, a Barão de Ladário, e abrir ali o Restaurante do Líbano. "Passamos a servir as mesmas receitas que minha mãe fazia em nossa casa", conta o filho Hassan Moussa, que administra o salão. "Ficávamos felizes nos dias em que atendíamos a três ou quatro mesas."

Dois anos atrás, o restaurante mudou do número 907 para o 831 da mesma via, em instalações maiores e mais modernas, e trocou o nome para Casa Líbano. Nas paredes há belas fotos de cidades libanesas, em preto-e-branco. Logo na entrada fica o café e, no fundo, está instalada a mercearia da qual se pode levar produtos importados do Oriente Médio, como frutas secas e narguilés, além do açougue islâmico. Nele estão à venda cortes obtidos segundo preceitos muçulmanos: uma vez por semana, Mohamad Moussa vai ao frigorífico que fornece a carne, em São José dos Campos, e abate um boi. Munido de uma bússola, ele direciona a cabeça do animal para a cidade sagrada de Meca, na Arábia Saudita, faz uma oração e degola a rês.

Essa carne fresca é a matéria-prima de itens como o quibe, a esfiha e a cafta servida na bandeja com batata e molho vermelho e acompanhada de arroz com aletria. Uma boa forma de experimentar um pouco de cada sugestão do cardápio é escolher um dos combinados frios (23 reais, para duas pessoas), como o que inclui quibe cru, homus, babaganuche, coalhada seca e tabule. Entre as bebidas, há sucos de romã, damasco, tamarindo e amora com água-de-rosas (4,30 reais cada um). Não vende bebidas alcoólicas.

Casa Líbano. Rua Barão de Ladário, 831, Pari, tel: 3313-0289.

Esfihas tamanho G

Um cliente desavisado que pedir uma esfiha a Tadeu Dantas, garçom que desde 1977 atende sozinho aos 36 lugares do salão do Rei das Esfihas, vai pensar que ele errou o pedido ao deixar algo parecido com uma pizza brotinho sobre a mesa. Na verdade, os descomunais 15 centímetros de diâmetro da massa são justamente a medida que faz a fama das esfihas ali preparadas. Com um jeitão de botequim, nas noites de sábado o Rei das Esfihas chega a ter espera de até uma hora por um lugar. Encarregadas de dar conta dos pedidos, doze pessoas espremem-se na cozinha, à vista do cliente, para preparar a massa, enrolá-la, recheá-la com carne (1,10 real) ou outros ingredientes e mandá-la ao forno. "Nos dias corridos até eu entro na dança", conta o gerente José Cícero Torres, que trabalha há 22 anos no local, sete deles como esfiheiro. No início deste ano, as esfihas tamanho G passaram a fazer parte também do cardápio da Barakiah, lanchonete com ambiente mais amplo e fachada envidraçada que os mesmos donos do Rei das Esfihas inauguraram numa esquina a cerca de 200 metros da casa original.

Barakiah. Rua Coronel Moraes, 396, Pari, tel: 6096-2938.

Rei das Esfihas. Rua Doutor Ornelas, 58, Pari, tel: 3313-0022.

4 000

esfihas de carne, mussarela, calabresa, provolone, escarola, presunto, palmito e calabresa com catupiry são vendidas aos sábados no Rei das Esfihas

Doces árabes com gostinho do norte de Minas

"Cuidar de doces é como cuidar de plantas: quanto mais atenção eles recebem, mais bonitos ficam", costuma dizer Manuel Ferreira, dono da doceria Recanto do Líbano. O sobrenome desse mineiro de Varzelândia, cidade que fica às margens do Rio São Francisco, no norte do Estado, causa estranheza. Mas sua relação com quitutes árabes é antiga. Vem de 1970, ano em que desembarcou em São Paulo para trabalhar como faxineiro em uma confeitaria. Esperto, observava os cozinheiros preparando os doces, até que teve a chance de modelar os primeiros mamoul (com nozes, tâmaras ou pistaches) e baklawas (folhados). Em 1989, deixou de ser empregado e abriu a própria fábrica. Atualmente, sob a supervisão direta de Ferreira, cinco funcionários preparam 2.000 doces por dia, que são vendidos no pequeno e simplório salão ou despachados para clientes como o Empório Tio Ali, no Mercado Municipal, e os restaurantes Congonhas Grill, do Aeroporto de Congonhas, e Esfiha Imigrantes, na Saúde. Os preços variam de 45 a 70 centavos (doces pequenos) e de 85 centavos a 1,60 real (os grandes), conforme a disponibilidade de ingredientes importados. Os pistaches e as tâmaras, por exemplo, vêm do Irã.

Recanto do Líbano. Rua Santa Rita, 1003, Pari, tel: 6692-3505.

3,50 reais é o preço do pacote de três unidades do pão sírio temperado com zátar, à venda na doceria Recanto do Líbano

Cores e sotaques

Durante a semana, a Rua das Olarias é uma das rotas pelas quais os motoristas dirigem para fora do bairro, em direção à Avenida Cruzeiro do Sul. Das 11h às 19h do domingo, no entanto, ela recebe uma feira livre, ponto de encontro de milhares de bolivianos que vivem na cidade. Até alguns anos atrás, eles se reuniam na Praça Padre Bento, em frente à igreja de Santo Antônio do Pari. Agora, circulam por um trecho de cerca de 200 metros da rua, até a praça Kantuta. Em cerca de oitenta barracas, é possível comprar artesanato e gorros coloridos, além de comer frango churrasqueado (4 reais o pedaço de coxa), saltenhas apimentadas, anticucho (coração de boi grelhado) e outras receitas típicas. Para beber, há suco de amendoim batido, refresco de pêssego e o refrigerante peruano Inca-Cola, de cor amarelada. Pães (cinco por 1 real), diversos tipos de batata e de milho, caixinhas de chá de folha de coca e quinoa, um cereal andino rico em proteína, são outros produtos à venda nas tendas.

Feira da Bolívia. Rua das Olarias, esquina com Praça Kantuta. Domingo, das 11h às 19h.

80 barracas na feira boliviana vendem de artesanato a saltenhas apimentadas

Todos os dias, 50 quilos de bacalhau

É comum ver três gerações de uma mesma família dividindo algumas das enormes porções de bacalhau, o principal produto servido na Casa Santos. Qualquer que seja a receita e o modo de preparo do peixe – ao forno, à portuguesa, à gomes de sá... – os preços são os mesmos: 59 reais (para uma pessoa, mas duas podem dividir perfeitamente), 129 reais (para três) e 195 reais (para cinco). Nessa casa simples e de ar aconchegante, a procura pelo bacalhau é tanta que os fornecedores entregam de 300 a 350 quilos por semana. "Num sábado dos bons, chegamos a vender entre 600 e 700 bolinhos de bacalhau", conta Sônia Osório, uma das donas. No extenso cardápio cabe ainda outro exagero, cuidadosamente servido pelo garçom Edílson Magalhães, o Caçula, funcionário da Casa Santos desde 1970: o filé à parmigiana com arroz, capaz de satisfazer a quatro pessoas (48,90 reais).

Casa Santos. Rua Conselheiro Dantas, 92, Pari, tel: 3228-5971.

Fonte: VEJA SÃO PAULO