Especial

17. Conheça a importância de Prestes Maia para a cidade

Para o bem ou para o mal, muito da cara de São Paulo, até hoje, se deve ao que ele pensou e conseguiu realizar

Por: Roberto Pompeu de Toledo - Atualizado em

Avenidas São Paulo_capa 2188
O eixo de avenidas ligando o norte ao sul da cidade: o fluxo do trânsito distribuído em anéis e radiais (Foto: Cristiano Mascaro)

“Burgomestre” é pouco para Francisco Prestes Maia. Ele foi, sim, o mais perfeito burgomestre que São Paulo já teve, no sentido de que exibia o mais acabado perfil para ocupar a cadeira de prefeito — mas burgomestre é pouco no sentido de que suas preocupações com a cidade nasceram muito antes de virar prefeito e superaram em muito as que ocorrem ao comum dos titulares do cargo. Prestes Maia (Amparo, 1896-São Paulo, 1965) não possuía nem a natureza nem a vocação do político-padrão. Formado engenheiro pela Politécnica, com especialização em arquitetura (na época não existiam as faculdades de arquitetura), seguiu as carreiras paralelas de professor da Poli e funcionário da Secretaria Municipal de Viação e Obras Públicas. Aprofundou-se no estudo do urbanismo. E encontrou na cidade de São Paulo o campo por excelência para direcionar suas pesquisas e aplicar seus conhecimentos. Foi prefeito em dois períodos — de 1938 a 1945, nomeado pelo Estado Novo getulista, e de 1961 a 1965, eleito. Para o bem ou para o mal, muito da cara de São Paulo, até hoje, se deve ao que ele pensou e pôde realizar nesses dois períodos.

+ 25 pessoas, parcerias e coisas que ajudaram a construir a história de São Paulo

Prestes Maia amadureceu ao longo dos anos 1920, em estudos realizados como funcionário da prefeitura, as ideias que iriam desaguar em suas principais intervenções na cidade. Seu legado principal é o sistema de circulação que combina anéis em torno do centro (“anéis de irradiação”) com avenidas que unem as extremidades da urbe (“avenidas radiais”). O primeiro anel, formado de vias novas ou do alargamento de antigas, constitui-se na sequência das avenidas Ipiranga e São Luís, viadutos Nove de Julho, Jacareí e Dona Paulina, praças João Mendes e Clóvis Bevilácqua, contorno do Parque Dom Pedro, Avenida Senador Queirós e daí de volta à Ipiranga. O objetivo era, e continua sendo, desafogar o núcleo central e facilitar a distribuição da circulação. Um segundo anel compreendeu, entre outras, a Avenida Duque de Caxias e a Rua Amaral Gurgel. E um terceiro, imaginado por Prestes Maia mas realizado pelos sucessores, formou-se com as marginais dos rios Tietê e Pinheiros.

As avenidas radiais que, inversamente, cortariam o centro tiveram sua expressão máxima naquilo que Prestes Maia batizou de “Sistema Y” — uma via que se iniciava no norte (Avenida Tiradentes), atravessava o centro (Vale do Anhangabaú) e, no rumo do sul, se bifurcaria nas duas pernas do “Y” (as avenidas Nove de Julho e 23 de Maio). Nas aquarelas com que, bom desenhista, ilustrava seus projetos, Prestes Maia previa cenários grandiosos para as avenidas, viadutos e pontes. A marginal do Tietê de sua imaginação seria complementada por pontes semelhantes às de Paris. Não precisava tanto. Mas lamente-se que, no riscado das marginais, como de resto na maioria das vias projetadas por ele, o cuidado com o bom gosto tenha sido abandonado. As pontes do Tietê não precisavam ser como as que cruzam o Sena, mas também não podiam acabar tão toscas como as que conferem a São Paulo a lamentável marca de cidade onde pontes são feias, e rios são feios.

Na conta do haver e dever, Prestes Maia ostenta como legado mais positivo uma visão abrangente e articulada da cidade como nenhum dos antecessores ou sucessores possuiu. O mais negativo é ter desempenhado um papel preponderante no pecado dos pecados de São Paulo, que é o atraso na construção do metrô. Não que ele fosse contra, mas dava prioridade ao transporte de superfície, e, para evitar concorrência a seu plano de avenidas, rebarbou as primeiras propostas nesse sentido.

Em 1945, terminado, no gabinete então situado na Rua Líbero Badaró, o último expediente de seu primeiro período de prefeito, Prestes Maia recusou-se a subir no carro oficial que até então o servira. “Não, obrigado”, disse ao motorista que lhe abria a porta, segundo conta o arquiteto e historiador da cidade Benedito Lima de Toledo, no livro ‘Prestes Maia e as Origens do Urbanismo Moderno em São Paulo’. Achava que, não sendo mais prefeito, não cabia mais valer-se daquele serviço. Tomou, a pé, o rumo do Viaduto do Chá, foi até a Rua da Consolação e ali apanhou o bonde para casa. Ele não possuía mesmo nem a natureza nem a vocação do político-padrão.

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO