Especial

11. Francisco Matarazzo: o príncipe dos industriais paulistas

A história de seus inícios, mil vezes recontada, tem sabor de lenda

Por: Roberto Pompeu de Toledo - Atualizado em

Conjunto da Água Branca
Chaminés remanescentes do conjunto da Água Branca: obra do maior dos industriais (Foto: Cristiano Mascaro)

Na casa em que Francisco Matarazzo nasceu, em Castellabate, no Golfo de Salerno, região da Campania, uma placa celebra o notável filho da terra. “Com genial e incessante trabalho”, afirma, “criava colossais indústrias, portadoras de civilização à terra que o hospedava, asilo para os imigrados italianos, e glória, para ele e para a pátria.” Sobre a placa, um alto-relevo em que figuras de operários se sobrepõem a chaminés de fábrica exalta o labor industrial. Francisco Matarazzo (1854-1937), feito conde pelo rei da Itália, como registra a mesma placa, foi, como Garibaldi, um herói de dois mundos.

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A história de seus inícios, mil vezes recontada, tem sabor de lenda. Quando ele chegou ao Brasil, em 1881, aos 27 anos, a lancha que trazia para o porto o carregamento de banha de porco com que pretendia iniciar seus negócios no país naufragou. Com isso, foi reduzido a zero. Mas Matarazzo insistiu na banha de porco, produto fundamental para a conservação dos elementos. Estabeleceu-se em Sorocaba, com uma loja em que vendia a banha importada. Cresceu. Passou a fabricar ele próprio a banha, e para tanto comprou todos os porcos da região. Em 1890, mudou-se para São Paulo. Veio o moinho de trigo, veio a Tecelagem Mariângela. Ele não se contentava em fabricar a farinha de trigo. Fabricava também a sacaria para embalá-la. E, como tanto o negócio da farinha de trigo como o da tecelagem exigiam matérias-primas importadas da Argentina, comprou navios para, ele próprio, fazer o transporte. O sistema de verticalização levou-o a extremos que iam de fabricar caixotes a produzir energia.

Os primórdios da industrialização paulista têm como protagonistas os próprios membros da elite cafeeira. A primeira fábrica da cidade foi a de tecidos de algodão do major Diogo Antônio de Barros, inaugurada em 1873, nos fundos da chácara da família na Rua da Constituição, hoje Florêncio de Abreu. Mas foram os estrangeiros que conferiram escala e maior qualidade à produção industrial, os Siciliano, os Crespi, os Pinotti Gamba, os Scarpa, os Calfat, os Jafet. E, sobretudo, Francisco Matarazzo, tão reconhecido como o príncipe dos industriais paulistas que, mesmo tendo horror a fazer discursos, foi eleito o primeiro presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), em 1928. Não podia ser de outra forma. Era um imperativo decorrente do direito natural, como o dos monarcas.

Na industrialização de São Paulo, os estrangeiros desempenharam triplo papel — o de industriais, o de operários e o de consumidores. Nas fábricas de Matarazzo, na virada do século, nove entre dez operários eram italianos. Ele tinha especial preferência pelos conterrâneos de Castellabate, onde promovia campanhas de recrutamento. Nas fábricas de outros industriais, os estrangeiros também predominavam. E, à medida que na cidade engrossava a massa de operários, artesãos e comerciantes estrangeiros, formava-se também o mercado para os produtos da nascente indústria nacional. Como eram mais rústicos e mais baratos que os similares estrangeiros, tinham o desprezo da elite, que continuava a preferir os importados.

Em 1920, Matarazzo instala na Água Branca, junto à linha da estrada de ferro, um parque industrial onde produz de perfumes a pregos, de adubos e inseticidas a velas. Seu império chegou a contar com duas centenas de fábricas. A ele se deve grande parte da fama de “maior centro industrial da América Latina” que São Paulo passou a ostentar com tal orgulho que a frase aparecia estampada nos bondes. Para si próprio, Matarazzo construiu dois monumentos. Um foi a casa na Avenida Paulista, erguida num terreno de 12 000 metros quadrados. O outro foi o mausoléu da família no Cemitério da Consolação. A casa foi demolida nos anos 1990. O mausoléu, embora pedindo urgente restauro, ainda pode ser visto, com sua altura equivalente à de um prédio de três andares, até de fora do cemitério, por quem passa pela Rua Mato Grosso, quase esquina da Coronel José Eusébio. É obra do escultor Luigi Brizzolara, o mesmo que retratou os majestosos Fernão Dias e Raposo Tavares do saguão do Museu do Ipiranga e o Anhanguera da calçada da Avenida Paulista, em frente ao Parque Siqueira Campos. Não deve ser considerado um acaso que ao desbravador da indústria tenha cabido o mesmo escultor dos bandeirantes.

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO