Especial

16. Light e Mappin: símbolos da modernidade

Empresa canadense foi a responsável por trazer o bonde elétrico à cidade. Loja de departamentos foi uma ideia importada da Europa

Por: Roberto Pompeu de Toledo - Atualizado em

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O prédio que abrigou o Mappin e o poste do tempo em que a Light fornecia a luz: sinais de progresso (Foto: Cristiano Mascaro)

O metrô e o shopping center, dois vitais componentes do organismo da metrópole de hoje, tiveram seus correspondentes, um século atrás, no bonde elétrico e na loja de departamentos. Foram ambos símbolos da modernidade a que São Paulo aspirava. O bonde elétrico foi trazido à cidade pela Light and Power, a companhia canadense que também abriu usinas, projetou o sistema de represas, distribuiu energia, e tal influência exerceu, e tantos tentáculos espalhou, sobre a cidade e o estado, que foi apelidada de “polvo canadense”. A inauguração da primeira linha de bonde deu-se em 1900, e assim foi descrita pelo professor, jurista e cronista da cidade Jorge Americano (1891- 1969), recorrendo a suas memórias de infância:

“Trilhos, postes e fios estavam assentados na Alameda Barão de Limeira. Nos últimos dias, recompuseram o leito da rua. Alguns bondes de lastro removiam a terra daqui para ali.

+ 25 pessoas, parcerias e coisas que ajudaram a construir a história de São Paulo

Naquela manhã de sol, veio gente das ruas vizinhas e muita gente de longe.

Inaugurava-se a primeira linha, entre o Largo de São Bento e o fim da Barão de Limeira (Chácara do Carvalho). Linha da ‘Barra Funda’. Carros abertos, de nove bancos, com limpa-trilhos na frente.

O limpa-trilhos era uma rede metálica flexível, remotamente semelhante ao limpa-trilhos das locomotivas a vapor.

No topo da coberta, adiante e atrás, duas pequenas bandeiras brasileiras.

Na direção do bonde, o conselheiro Antônio Prado, prefeito da cidade. Ao lado, como instrutor, um motorneiro de boa figura, alto, alourado, com bordados de cor de ouro novo nas mangas do uniforme cinzento e boné. Concluí de mim para mim que era o presidente da companhia.

Vinham dentro ‘pessoas graúdas’, gente do governo, senadores, deputados.

(Eu tinha escrito ‘pessoas gradas’, a datilógrafa corrigiu para ‘pessoas graúdas’, e achei que ficava melhor assim.)

Nalgumas esquinas tocavam bandas de música e noutras soltavam foguetes”.

As primeiras lojas de departamentos de São Paulo foram a Casa Alemã e o Mappin. Era uma grande novidade, importada da Europa: lojas com diversas especialidades, distribuídas racionalmente em distintas seções. O Mappin começou em 1913, como filial de loja inglesa do mesmo nome, e terminou na década de 90, em mãos de brasileiros. Nesse período, foi de fino estabelecimento, que além de loja era um ponto de encontro e de lazer, e abrigava em suas instalações um lendário salão de chá, a comércio popular. O jornalista Frederico Branco (1927-2001) assim descreveu o chá da tarde no Mappin, no prédio da Praça Ramos de Azevedo, bem em frente ao Teatro Municipal:

“As mesas eram disputadas e ocupadas por senhoras que voltavam das compras das casas de modas da Barão de Itapetininga, Marconi e Arouche, devidamente enchapeladas, coloridas pelas saias verdes das estudantes da Álvares Penteado, animadas pelas normalistas da República, adornadas pelas alunas da Escola de Baile da Prefeitura, respeitabilizadas por distintas professoras comemorando aniversários de formatura, agitadas por crianças. O chá completo não enchia apenas os olhos, pois era servido com infindável acompanhamento de torradas, pãezinhos, bolos, geleias, doces, salgadinhos e sorvetes. O mesmo trio — piano, violoncelo e violino — que durante a hora do almoço se limitara a produzir suave música de fundo tocava mais alto para fazer-se ouvir, atendendo aos pedidos que choviam — valsas, marchinhas, temas de filmes em exibição na cidade —, intercalados com solicitados e insistentes ‘Parabéns a Você’. As crianças ganhavam balões coloridos, ninguém tinha pressa alguma, e o vozerio era de um aviário em ebulição, tantas eram as que falavam e tão poucas as que ouviam.

(...)

Na cidade que ia deixando de ser uma grande aldeia para converter-se numa espécie de acampamento maior aberto ao mundo, o britânico chá na Mappin Stores se convertera, depois de adaptado e macunaimicamente tropicalizado, no ritual de sons, cores, riso fácil e lambisqueira à mão que chegou a ser durante muitos anos uma das mais autênticas celebrações kitsch da classe média paulistana. Um tanto cafona, inegavelmente. Mas muito nosso”.

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO