Especial

19. Julio de Mesquita Filho e Chateaubriand: capitães da imprensa

Ambos legaram a São Paulo contribuições que foram além do setor de comunicações

Por: Roberto Pompeu de Toledo - Atualizado em

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O Masp: São Paulo era onde estava o dinheiro, e Chateaubriand gostava de seu aconchego (Foto: Cristiano Mascaro)

Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo e Julio de Mesquita Filho nasceram no mesmo ano de 1892 e morreram na mesma época, o primeiro em 1968 e o segundo em 1969. A quase perfeita coincidência fez com que vivenciassem, e muitas vezes protagonizassem, as mesmas campanhas políticas, as mesmas revoluções, os mesmos avanços e os mesmos recuos da história brasileira do período, assim como os efeitos de duas guerras mundiais. Fora isso, e o fato de terem sido ambos grandes capitães da imprensa, tudo o mais os separava.

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Mesquita Filho, paulista da cepa, nascido entre os barões do café, comandante de ‘O Estado de S. Paulo’ desde a morte do pai, em 1927, até a sua própria morte, era austero e íntegro, guiado por princípios e balizado pelas convicções. Chateaubriand, paraibano de Umbuzeiro, criador de um império de comunicações que em seu auge somou 36 jornais, dezoito revistas, 36 emissoras de rádio e dezoito de TV, era um aventureiro capaz de inacreditáveis audácias. Entregava-se ao deboche com a mesma volúpia com que perseguia as mulheres, negociava os princípios segundo as conveniências do momento e, quando não acionava a pistola, tinha na chantagem a arma preferida contra os que se interpunham em seu caminho. Jamais se viu o senhorial Julio de Mesquita Filho, o doutor Julinho, sem terno e gravata. Chateaubriand uma vez fez-se fotografar nu, nu em pelo, frontalmente nu, durante visita a uma aldeia indígena, e exigiu que a foto fosse publicada em ‘O Cruzeiro’, sua principal revista. Tanto Julio de Mesquita Filho quanto Chateaubriand legaram a São Paulo contribuições que foram além do setor de comunicações. Mesquita foi o animador nº 1 da campanha que conduziu à criação da Universidade de São Paulo (USP), em 1934. Chateaubriand criou o Museu de Arte de São Paulo (Masp), em 1947.

Mesquita Filho herdou do pai um jornal fundado em 1875 como arauto da campanha republicana, então em efervescência entre os fazendeiros paulistas, e fez dele uma instituição. ‘O Estado de S. Paulo’, sisudo na aparência como um lorde inglês, e, em suas páginas mais nobres, escrito num português castiço como o de Camilo Castelo Branco, consolidou-se como o órgão por excelência dos valores conservadores da elite paulista, com ênfase na defesa da economia liberal e dos bons costumes na política. Nunca um jornal brasileiro teve editoriais tão influentes. Das conversas que Mesquita conduzia na redação com os intelectuais que ou ali trabalhavam ou a frequentavam nasceu a campanha para a instituição de uma universidade cujo núcleo fosse a faculdade de filosofia, ciências e letras. A presença do cunhado de Mesquita, Armando de Salles Oliveira, no governo do estado possibilitou a instauração da USP.

Quando Chateaubriand, já proprietário de ‘O Jornal’, no Rio de Janeiro, quis estender seus tentáculos a São Paulo, teve o cuidado de visitar Julio de Mesquita, o pai, em sua fazenda de Louveira, no interior do estado, para sondar o ambiente. Não vislumbrando objeção, sentiu-se livre para estrear na cidade com o ‘Diário da Noite’, em 1925. Quatro anos depois veio o ‘Diário de S. Paulo’. Em 1937, a Rádio Tupi. E em 1950, quando lhe deu na telha criar uma emissora de televisão, foi em São Paulo que instalou a TV Tupi, canal 3, a pioneira da América Latina. São Paulo era onde estava o dinheiro, e Chateaubriand gostava de seu aconchego. Em seus empreendimentos, por artimanhas de mágico, entrava sempre mais capital dos outros do que dele próprio. É lendária a maneira como formou o acervo do Masp, pedindo a um empresário aqui e forçando outro lá a comprar-lhe os quadros.

Chateaubriand passou os últimos anos da vida entrevado e falando em grunhidos, vitimado por um derrame. Mas ainda escrevia, e datava os artigos da Casa Amarela, a residência que construíra na Rua Polônia, no Jardim Europa. Ao morrer, foi levado para o velório no saguão dos Diários Associados, na Rua Sete de Abril. Segundo conta o biógrafo Fernando Morais em seu completo e saboroso ‘Chatô’, Pietro Maria Bardi, lugar-tenente de Chateaubriand no Masp, decorou o local com três quadros: um nu de Renoir (‘A Banhista e o Cão Grifon’), o ‘Retrato do Cardeal Cristoforo Madruzzo’, de Ticiano, e o retrato do inquisidor Juan Antonio Llorente, de Goya. Os quadros, segundo Bardi, resumiam as três coisas que o falecido mais amara na vida: o poder, a arte e a mulher pelada.

Fonte: VEJA SÃO PAULO