Especial

3. Fernão Dias Pais construiu a igreja e o mosteiro dos beneditinos de SP

Restos do bandeirante e de sua mulher, Maria Garcia, estão enterrados junto ao altar

Por: Roberto Pompeu de Toledo - Atualizado em

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Efígie de Fernão Dias na Igreja de São Bento: entre os “potentados em arcos”, ele foi dos maiores (Foto: Cristiano Mascaro)

Uma placa circular, no chão da nave central da Igreja de São Bento, já junto ao altar, indica o local em que estão enterrados os restos de Fernão Dias Pais e de sua mulher, Maria Garcia. Na parte de fora da igreja, uma das esculturas que enfeitam o bonito prédio representa a figura do bandeirante. A placa, depois de declinar as datas de nascimento e morte do homenageado (1608-1681) e a da morte da esposa (1691), acrescenta: “Grandes benfeitores desta abadia / Para este jazigo lhes trasladou os restos mortais / A gratidão beneditina”. Fernão Dias construiu à sua custa a igreja e o mosteiro dos beneditinos de São Paulo — não o prédio atual, que é do início do século XX, mas uma das construções que o antecederam, no mesmo local. Também dotou os religiosos de “terras e peças suficientes para sua lustrosa sustentação”, como diz um documento antigo, sendo que “peças”, no caso, significa “escravos”, e escravos, na época, eram os índios capturados para o serviço dos grandes, e mesmo os não tão grandes, proprietários.

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Fernão Dias era dos maiores. “Potentados em arcos” é como o pioneiro historiador paulista Pedro Taques, escrevendo no século XVIII, chamou os maiores bandeirantes do século anterior. A expressão indica que tinham grande quantidade de índios a seu serviço — tanto para a guerra, em que os “arcos” entravam em ação, quanto para as tarefas agrícolas ou domésticas. Fernão Dias possuía vastas terras, na vila de Santana de Parnaíba e em São Paulo. Era um dos líderes na produção de trigo que por essa época vicejou no planalto paulista.

A reputação dos bandeirantes tem oscilado ao longo do tempo. Ora são tratados como heróis que empurraram as fronteiras brasileiras para o sul e para o oeste, além de descobridores de riquezas, ora são execrados como escravizadores e exterminadores de índios. Fernão Dias foi tudo isso. Escravizou e exterminou índios, enquanto expandia os limites da colônia portuguesa, em incursões pelo que são hoje o Rio Grande do Sul e o oeste do Paraná. Em outra aventura, a mais célebre, que encetou no comando de uma das maiores bandeiras da história, compreendendo outros quarenta bandeirantes e um exército de várias centenas de índios, tomou o rumo do norte e durante sete anos vagueou pelos sertões do que são hoje os estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Já tinha 66 anos quando iniciou a empreitada e morreu em seu curso, vítima da peste que grassava na região do Rio das Velhas. Achava, ao morrer, que tinha descoberto uma mina de esmeraldas. Enganava-se. Mas havia perpetrado uma proeza maior ainda: devassou os caminhos que levariam, logo em seguida, à descoberta do ouro das Gerais.

A era das bandeiras consolida o tipo de sociedade que, com origem em João Ramalho, povoa São Paulo e determina seus usos e costumes durante o período colonial. Uns poucos portugueses, filhos ou netos de portugueses (caso de Fernão Dias), suas mulheres, frequentemente índias, e os filhos, frequentemente mamelucos, terão nos índios os braços para o trabalho. Não há dúvida de que impera a dominação dos primeiros sobre os últimos, mas há também uma recíproca em que os índios ditarão aos dominadores com que se alimentar, de que caminhos se servir, como andar pelos sertões, como guerrear, de que utensílios se valer e de que estratagemas lançar mão na caça e na pesca. A cultura dos índios penetrará a do branco, mesmo porque quem sabia já havia séculos como sobreviver em ambiente tão diverso do europeu era o índio, e forjará uma sociedade que tem tanto, ou mais, de índio quanto de europeu. A herança indígena marca presença forte na toponímia de São Paulo e arredores: Pirituba, Itaquera, Mooca, Tatuapé, Ibirapuera, Aricanduva, Tietê, além de Mogi, Embu, Barueri, Carapicuíba. A cultura indígena impôs-se mesmo na língua falada: até o século XVIII, era mais usado o tupi, em São Paulo, do que o português. São Paulo era bilíngue como, até hoje, é o Paraguai.

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO