Especial

21. Emílio Ribas e Zerbini: personagens marcantes na medicina

São Paulo construiu a medicina mais avançada do Brasil no período entre os dois profissionais

Por: Roberto Pompeu de Toledo - Atualizado em

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Faculdade de Medicina da USP: elo fundamental para a formação do maior centro médico do país (Foto: Cristiano Mascaro)

Medicina de ponta, no Brasil de 1901, era matar mosquito. Em 1968, era transplante de coração. Entre uma proeza e outra, um ano e outro, ou, no caso de balizar o período entre dois personagens símbolos, entre Emílio Ribas e Euryclides Jesus Zerbini, São Paulo construiu a medicina mais avançada do Brasil. A Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, fundada por Arnaldo Vieira de Carvalho em 1912, e incorporada à USP em 1934, tornou-se o centro formador dos profissionais mais reputados do país. O complexo do Hospital das Clínicas, inaugurado junto à Faculdade de Medicina da USP em 1944, já nasceu com as ambições de maior instituição brasileira de atendimento público e treinamento de profissionais. Alguns dos hospitais privados de São Paulo são considerados de categoria internacional.

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Emílio Ribas (Pindamonhangaba, 1862-São Paulo, 1925) foi o mais heroico dos médicos num tempo em que o bom médico era um herói. Ele exerceu o cargo de chefe do Serviço Sanitário do estado entre 1898 e 1913. Nesse período, a questão no Brasil era a saúde pública, e seu inimigo principal, a febre amarela. Nos últimos anos do século XIX e primeiros do XX, a doença abateu-se com fúria sobre o estado de São Paulo. Em 1896, 800 pessoas morreram da doença no município de São Simão, que contava 4 000 habitantes. Campinas foi tão fortemente atingida que grande parte da elite dos fazendeiros do café decidiu transferir para São Paulo sua residência urbana, acabando de vez com a veleidade dos campineiros de fazer de sua cidade, centro da produção cafeeira, a capital do estado. Santos, igualmente contaminada, tinha seu porto evitado pelos navios estrangeiros.

O que causava a doença — o mosquito, transportando o sangue de um ser humano contaminado para outro, ou os “miasmas”, como defendia outra importante corrente de cientistas? Emílio Ribas era partidário da tese do mosquito. Partidário da tese oposta, Arthur Mendonça escreveu na imprensa: “O mosquito traz nas suas asas o ridículo para a classe médica”. Espremido entre a polêmica que não cessava e a febre que continuava em sua marcha devastadora, Ribas optou pela medida extrema: deixar-se picar por um mosquito contaminado. Ele, o colega cientista Adolfo Lutz e outros quatro voluntários fizeram-se de repasto para mosquitos trazidos em frascos das regiões do interior mais atingidas pela peste. Ribas e Lutz desenvolveram formas moderadas da doença. Dois dos voluntários a desenvolveram de forma aguda, embora tenham se salvado no final. Estava provado que a doença era transmitida pelo mosquito. Pelo estado de São Paulo afora, uma política de saneamento nos criadouros do mosquito acabou por extinguir a epidemia. O exemplo paulista serviu de inspiração para que Oswaldo Cruz realizasse idêntica campanha no Rio de Janeiro.

Euryclides Jesus Zerbini (1912- 1993) partilha com Emílio Ribas a origem no Vale do Paraíba — era de Guaratinguetá. Formado na USP e especializado em cirurgia torácica nos Estados Unidos, foi o quinto médico do mundo a realizar uma operação de transplante cardíaco, apenas seis meses depois de o sul-africano Christiaan Barnard ter feito a primeira. Seu primeiro paciente, João Ferreira da Cunha, conhecido pelo apelido de João Boiadeiro, sobreviveu apenas 28 dias. Era um tempo em que ainda não haviam sido desenvolvidos os medicamentos contra a rejeição do órgão implantado. Mas fora galgado um novo patamar para a medicina de São Paulo. Professor da USP, Zerbini criou ali o Centro de Ensino de Cirurgia Cardíaca, embrião do Instituto do Coração, o Incor de fama nacional.

A fama trazida a São Paulo por proezas como a de Zerbini tornou-a um centro procurado por pacientes de todo o Brasil e mesmo do exterior. Em 2009, 900 000 não residentes na cidade trataram-se em hospitais paulistanos. Destes, 50 000 vieram do exterior — de países da América Latina e da África, principalmente, mas também dos Estados Unidos e da Europa, onde tratamentos similares seriam muito mais caros. A porta de entrada do Hospital Sírio-Libanês é uma imagem familiar nos telejornais. É dali que falam à imprensa pacientes como o vice-presidente José Alencar, a ex-ministra Dilma Rousseff e o presidente paraguaio Fernando Lugo.

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO