Teatro

Ione de Medeiros: "Na criação ou na vida, você está dentro do labirinto"

Diretora da companhia mineira Oficcina Multimédia fala sobre a peça "As Últimas Flores do Jardim das Cerejeiras"

Por: Bruno Cesar Dias - Atualizado em

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Ione de Medeiros, 70 anos, é diretora da companhia mineira Oficcina Multimédia e traz a São Paulo o espetáculo "As Últimas Flores do Jardim das Cerejeiras". A montagem mistura um texto de Tchekhov, o mito grego do Minotauro, teatro de máscaras e referências à cultura japonesa – tudo dentro de um labirinto.

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Feito de paredes de algodão e filó de 14 por 16 metros, o artifício é suporte para a projeção de vídeos e anteparo entre público e atores. As atuações, sem falas, são apenas mais um elemento narrativo, assim como as gravações de prédios em ruínas em fusão com fotos dos Romanov, a última família imperial derrubada pela Revolução Russa, em 1917.

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A estética agressiva, entretanto, é amenizada pelo fato de a plateia poder passear pelos cenários e histórias. “A ideia é fazer o público perder as referências”, explica Ione. “No caso do labirinto, as pessoas entram num espaço com estímulos nos 360 graus. Elas têm de descobrir o que ver, onde parar”.

Ione de Medeiros As últimas flores
A diretora Ione de Medeiros: cruzamento de linguagens é a marca da Oficcina Multimédia, companhia que dirige desde 1983 (Foto: Marcia Gouthier)

A peça fica em cartaz no Teatro Coletivo de quinta (23) a domingo (26), em seis apresentações. Leia entrevista com a diretora e confira aqui a galeria de imagens:

VEJA SÃO PAULO – Como se dá a mistura de universos aparentemente tão distantes?

Ione de Medeiros – Faz parte da proposta do grupo usar diversos mecanismos e textos para a construção da nossa própria linguagem. Nosso Minotauro é aristocrático e convive bem com personagens representativos da religiosidade ortodoxa russa. Ao mesmo tempo, as projeções mostram prédios em desmoronamento, em implosão. Tudo está amarrado na inspiração de Tchekhov, que mostra na peça um universo em dissolução. Tomamos o labirinto para marcar a situação de impasse inspirado no texto e dentro desse espaço está o Minotauro, um símbolo da morte.

VEJA SÃO PAULO – A morte então é a única saída para as situações de impasse?

Ione de Medeiros – Na peça preservamos a presença da Ariadne em forma de boneco, uma figura efêmera, quase um fantasma. Ela vence o Minotauro, justamente por ser uma figura feminina frágil, mas ao mesmo tempo muito forte e que consegue vencer. Mas gente não diz qual é a saída. Durante a criação do espetáculo, muitos artistas questionaram a necessidade dessa saída, pois acreditam que o importante é o impasse. Na criação como na vida, você está dentro do labirinto: há milhões de saídas, mas qual é a melhor? É preciso passar pelo impasse, de escolha e elaboração da linguagem para achar o caminho. Isso requer tempo, angústia, morte, perda.

VEJA SÃO PAULO – Colocar o público dentro do labirinto é propor essas sensações?

Ione de Medeiros – A ideia é fazer o público perder as referências. Quando se entra no teatro convencional, o formato conduz o espectador, com suas cadeiras simétricas e o palco à frente. Você sabe onde a ação se dará. Em montagens alternativas, o formato muda, mas há elementos de condução, seja por meio de um ator ou de um som. No caso do labirinto, as pessoas entram num espaço com estímulos nos 360 graus. O público pode até perder uma cena se não tiver essa habilidade de percepção e de procurar a ação, tanto nas projeções como na encenação, muitas vezes simultâneas. Ele tem de descobrir o que ver, onde parar.

VEJA SÃO PAULO – Mas não há intervenção dos atores?

Ione de Medeiros – Em momento nenhum há intervenção dos atores. Toda a representação busca uma virtualidade. A encenação se dá por fora do labirinto, atrás das telas de filó, ou acima, nas plataformas, mas sempre à distância. Os atores não olham para a plateia. E toda a peça trabalha uma encenação sem palavras, o que exige muito do ator: passar a agressividade do Minotauro ou mostrar o nascimento das gueixas, símbolo da sofisticação e requinte, como as próprias cerejeiras.

Fonte: VEJA SÃO PAULO