Entrevista

Ugo Giorgetti: “Eu odeio São Paulo”

Considerado o mais paulistano dos cineastas, ele recusa o rótulo e diz que a cidade nunca esteve tão “cheia de idiotas”

Por: Bruno Machado - Atualizado em

Ugo Giorgetti
Ugo Giorgetti: "Outros cineastas retrataram a cidade muito melhor do que eu" (Foto: Mario Rodrigues)

Em atividade desde 1966, quando começou sua carreira na publicidade, o diretor de cinema Ugo Giorgetti usou São Paulo como tema de seus documentários e cenário de suas ficções, a exemplo do mais recente Cara ou Coroa (2010). A partir de terça (15), o cineasta ganha uma homenagem do Sesc Santana, que durante o mês, exibe três de suas fitas, Sábado (1994), Boleiros (1998) e O Príncipe (2012)  em uma mostra que leva o seu nome.

A seguir, Giorgetti fala sobre o fato de ser homenageado, seu novo projeto e sua relação com a cidade.

VEJA SÃO PAULO — O que o senhor acha de ser homenageado pelo Sesc Santana?

Ugo Giorgetti — Não sabia dessa. Vai ver estão me homenageando lá por ser o bairro onde nasci. Não vejo problemas quanto à exibição dos filmes, mas sou contra homenagens. Dá azar. Há um episódio em que Carlos Drummond de Andrade ligou a Manuel Bandeira para alertá-lo contra uma homenagem que lhe faziam. Não passou muito tempo e Bandeira morreu.

VEJA SÃO PAULO — Fale um pouco sobre seu novo filme, Uma Noite Em Sampa.

Ugo Giorgetti — Trata-se de uma história sobre personagens que moravam em São Paulo, mas por diversos motivos, mudam-se para o interior. Certo dia, eles se reúnem na capital, mas tudo dá errado. Penso em filmá-lo em uma única locação como uma peça. Toda a ação se passará em frente a um teatro. No momento, estamos procurando o elenco e pesquisando lugares para filmar.

VEJA SÃO PAULO — O que o senhor acha de ser considerado o mais paulistano dos cineastas?

Ugo Giorgetti — Essa afirmação não faz sentido. Meus filmes são sobre personagens, e não sobre a cidade. Isso seria uma redução do meu trabalho. Sou um cineasta brasileiro. Muitos outros diretores retrataram a cidade muito mais e melhor do que eu, como Walter Hugo Khouri, Carlos Reichenbach e Luís Sérgio Person. Não gosto desse rótulo pois ele reduz o meu trabalho a uma reportagem.

VEJA SÃO PAULO — O que você mais gosta na cidade?

Ugo Giorgetti — Eu não gosto de São Paulo. Peço que isso seja escrito com todas as letras: eu odeio São Paulo.  Acho uma cidade detestável, arquitetonicamente horrorosa, sem civilidade. Pessoas indiferentes àquelas que dormem na rua não é coisa de um lugar civilizado. Antigamente, São Paulo era aprazível, e não havia tantos problemas de segurança e tanta feiura. Sobretudo,  São Paulo não era tão cheia de idiotas como hoje.

VEJA SÃO PAULO — Mas em seu filme mais recente, Cara ou Coroa, o senhor fez um retrato afetivo da cidade...

Ugo Giorgetti — Na verdade, fiz um retrato afetivo da juventude paulistana dos anos 1970, como era bom ser jovem naquela época. Não há revolução ou golpe de Estado que se sobreponha à juventude.

Fonte: VEJA SÃO PAULO