Turismo

Verdades e mitos sobre a Rússia

O strogonoff tem uma descendente viva de mesmo sobrenome, diz jornalista

Por: Livia Deodato - Atualizado em

Rússia
“Em Moscou não há perigo. Andava tranquilamente a pé, de metrô, à noite, sozinha", diz Vivian Oswald (Foto: Divulgação)

Há pouco mais de dois anos, a exigência do visto para se visitar a Rússia – e vice-versa – foi abolida. Desde então, a distância entre o maior país da ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e o Brasil parece ter se tornado menor. “Tenho notado a presença de muito mais russos quando vou ao Rio de Janeiro. Amigos meus de lá já estão chegando por aqui ou se programando para vir passear”, diz a jornalista Vivian Oswald. Ela viveu durante dois anos no país, de 2007 a 2009, onde trabalhou como correspondente para o jornal O Globo, a TV Globo News e as rádios CBN e France Internationale. No fim do ano passado, a Vivian voltou a Moscou a fim de visitar o país na data em que se completou 20 anos do fim da URSS. As experiências que teve por lá foram reunidas no livro Com Vista para o Kremlin – A Vida na Rússia pós-soviética (Ed. Globo, 368 págs., R$ 27,90). Aqui ela desfaz alguns mitos que perduram do lado de cá e revela um pouco mais sobre o verdadeiro espírito russo (sim, eles são durões).

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A comida é ruim

MITO

“A comida é maravilhosa como, por exemplo, o típico caviar vermelho. Você ainda tem blini, que são panquecas servidas com smetana, um molho entre o sour cream e o mascarpone. Existem também pratos incríveis remanescentes da culinária soviética, como o hatchapuri, da Georgia, uma massa tipo de pizza, mais molinha, recheada com queijo, espinafre e ovos. É delicioso! Tem também uma sopa russa de beterraba, chamada borsch, que mais uma vez pode levar smetana. E, claro, o tradicional strogonoff, que lá não leva creme de leite: é só carne com um caldo. Tive o privilégio de conversar com a última descendente russa da família Strogonov que, na verdade, é brasileira: Hélène Ludinghausen, filha da princesa Xênia Shcherbatoff-Strogonov e do barão André de Ludinghausen, uma das famílias mais ricas da Rússia durante muitos séculos. Hèléne foi criada no Rio de Janeiro, onde viveu dos cinco aos quinze anos. Hoje mora em Paris e dirigiu a Yves Saint Laurent durante 33 anos. A origem do strogonoff, que tem mais de 300 anos, é controversa, mas Hélène garante que o prato surgiu em um concurso de gastronomia em que participaram ‘chefs’ de várias famílias, em São Petersburgo, no século 18. O vencedor teria sido um de seus ancestrais com a receita que ela guarda a sete chaves até hoje. Para beber, experimente a vodca Imperia pura, bem gelada. Eles ainda não estão acostumados com o vinho, então não é muito comum por lá. As águas minerais do Cáucaso são muito melhores do que qualquer Perrier ou Pellegrino.”

A Rússia é um lugar perigoso

MITO

Vivian Oswald na Rússia
A jornalista na Rússia, em 2011, quando se completou 20 anos do fim da URSS (Foto: Arquivo pessoal)

“Em Moscou não há perigo. Andava tranquilamente a pé, de metrô, à noite, sozinha. Em alguns lugares, como restaurantes, pode haver um ‘facecontrol’: negros ou que se pareçam com caucasianos, com olhos puxados, chamam a atenção de policiais e podem criar algum atrito, caso o envolvido esteja sem documentação. Mas não há nenhuma morte por causa disso. Não se ouve histórias de assaltos ou qualquer tipo de violência.”

Poucas pessoas falam inglêsVERDADE“Nos pontos turísticos é mais fácil encontrar pessoas que arranhem o inglês. Mas, de um modo geral, não se encontra tanta gente falando um outro idioma que não seja o russo. Isso não chega a ser um grande problema: não é difícil memorizar o alfabeto cirílico. Você vai conseguir identificar os desenhos recorrentes. Quando cheguei por lá não sabia quase nada de russo. Então, usava a mímica: fazia o número dois com os dedos para sinalizar a quantidade de passes de metrô que gostaria.”

Há muito trânsito em Moscou

VERDADE

“O trânsito é caótico, muito mais do que o de São Paulo. Já cheguei a ficar quatro horas em um trajeto que seria de 40 minutos. A recomendação quando se vai viajar é sair com uma antecedência de, no mínimo, cinco horas. O aeroporto é bem afastado e o congestionamento pode ser imenso, fazendo com que você chegue uma hora antes de o avião decolar. Já perdi pauta por estar de carro e, desde então, só usei metrô para me locomover pela cidade. A rede é grande e capaz de te levar para qualquer lugar.”

Os russos são durões

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“Eles são durões, ríspidos. Mas, no geral, estão dispostos a ajudar. Como jornalista, tive uma certa dificuldade em criar laços com fontes, porque não gostam de dar informação e não sabem se vender bem. Mas como cidadã, quando consegui quebrar a barreira inicial, ganhei os melhores amigos de toda a vida.”

Há resquícios da extinta URSS por toda parte

VERDADE

Rússia
Segundo jornalista, ainda há resquícios da extinta URSS por toda parte (Foto: Divulgação)

“Em qualquer lugar, você vai encontrar a foice e do martelo, símbolos que representam o comunismo. Há mais de oitenta estátuas do Lenin só em Moscou. Os mais velhos só se vestem com roupas escuras. Os hábitos do passado ainda persistem, como, por exemplo, acharem inconcebível ter de pagar para estacionar o carro dentro de um shopping: preferem deixá-lo do lado de fora para não ter de pagar. Há burocracia para pequenos detalhes – a mania do carimbo ainda persiste e a minha vida se tornou mais fácil quando eu mandei fazer um carimbo só para mim. É possível encontrar traços da arquitetura soviética por todos os lados: ela se diferencia pelos blocos pesados, como as construções do Niemeyer em Brasília. Um bom exemplo são as sete torres stalinistas espalhadas pela cidade.”

Fonte: VEJA SÃO PAULO