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'Ferro-fãs' prestigiam o trabalho da CPTM e do Metrô

Paulistanos bitolados por trens trocam experiências na web, vão ao porto esperar chegada de novas composições e não perdem uma visita guiada

Por: Marcelo Moura - Atualizado em

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Rommell, Queiroz, Silva, Ferreira e Lopes na Linha 4 do metrô: eles andam de trem durante o dia e falam sobre ele à noite, na internet (Foto: Fernando Moraes)

“Até gosto de ouvir música, mas prefiro sintonizar a frequência de comunicação dos trens da CPTM”, conta o metroviário Gustavo Silva, moderador de duas comunidades sobre trens no Orkut. “Eu convidava os amigos do colégio para brincar de metrô, mas eles não se empolgavam muito”, lembra o estudante de técnica em informática Rodrigo Lopes, membro de três grupos virtuais. “A internet me fez perceber que sou normal.” Ou que, pelo menos, ele não está sozinho. O Orkut tem 178 comunidades dedicadas à CPTM e 89 ao Metrô de São Paulo — a maior delas com 8 296 inscritos. Outro site popular entre a turma é o SkyscraperCity (ou SSC), fórum internacional sobre cidades que acolheu os brasileiros apaixonados por esses meios de transporte — ou, como se autointitulam, os ferro-fãs. Aliás, dar atenção aos termos exatos é importante para fazer bonito nas páginas de discussão. Dizer que viajou num vagão, por exemplo, é motivo de riso para os entendidos. “Passageiros andam em carros, vagão é lugar para levar carga”, ensina o programador de sistemas Tiago Dias da Costa, moderador do SSC.

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Troca de trilhos do Metrô, madrugada a dentro (Foto: Raphael Comitre)

A maioria dos inscritos nas comunidades apenas assiste às conversas, sem participar. Entre os espectadores estão as próprias administradoras do transporte de passageiros sobre trilhos de São Paulo: Metrô, CPTM e ViaQuatro (da Linha 4 do metrô). O presidente da CPTM, Sérgio Avelleda, é considerado uma celebridade entre os ferro-fãs. Líderes de comunidades têm o número de seu telefone celular. E ele atende as ligações mesmo quando está de férias em outro país, como ocorreu na semana passada. “Eles sabem de várias coisas antes de mim, têm um olhar crítico distribuído por todo o sistema e me ajudam a tomar decisões com agilidade”, diz Avelleda. “O painel eletrônico da Estação Guaianazes, que mostra quanto tempo falta para o próximo trem, só está lá por sugestão deles.” Além da linha direta informal com o presidente, a CPTM tem um funcionário dedicado a acompanhar discussões na internet.

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Sala de operações da CPTM, no Brás (Foto: Raphael Comitre)

“O Avelleda escuta a gente”, conta Haiser Ferreira, estudante de gestão pública e criador da comunidade CPTM — Você Também Anda! no Orkut. “A gente quer ser levado a sério”, afirma o comprador de uma empresa de eventos Alberto Rommell, membro do SSC. Diversão pura foi a caçada aos modernos trens da Linha 4, importados da Coreia do Sul. Alguém descobriu qual navio faria o transporte, outro integrante achou um site que mostra os roteiros dos cargueiros pelo mundo e, ao cruzarem informações, os ferro-fãs souberam quando viria a encomenda. O primo de um membro da comunidade trabalha no Porto de Santos e confirmou a chegada. Eles então montaram guarda na subida da Rodovia dos Imigrantes só para fotografar as carretas que traziam as composições e depois postar as imagens na internet.

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Oficina de manutenção do Metrô, em foto tirada por internauta durante visita guiada (Foto: Raphael Comitre)

“Vamos trocando ideias naturalmente, o tempo inteiro”, conta Narciso de Queiroz, ex-ferroviário e nascido, há 43 anos, num hospital da extinta Ferrovia Paulista S/A (Fepasa). “Muitas vezes passamos às empresas informações importantes, como a presença irregular de ambulantes nos trens ou problemas mecânicos.” Para retribuir a ajuda, CPTM e Metrô organizam, geralmente duas vezes ao mês, visitas guiadas a centrais de controle, oficinas e túneis.

Em operação há menos de dois meses, a ViaQuatro promete criar em breve seu programa de visitas. A excursão é de graça, basta inscrever-se no site das empresas ou acompanhar as caravanas das comunidades da internet. Dependendo do roteiro, também é necessário ser maior de idade. Rodrigo Lopes fez 18 anos no mês passado e, finalmente, pôde assistir a uma operação de troca de trilhos. De todas as visitas, essa é a mais completa — e a que exige maior dedicação do fã. “Começou às 21 horas de uma quinta-feira e terminou às 4 da sexta, quando os trens voltaram a rodar”, diz Lopes. “O horário é puxado, mas umas vinte pessoas compareceram.”

Fonte: VEJA SÃO PAULO