Naufrágio

Destroços de embarcação do século XVII são encontrados em Ilhabela

Água da chuva desenterrou carcaça de 15 metros de comprimento na paradisíaca Praia de Castelhanos

Por: Juliana Borges

Ilhabela - 2220
O casco do navio na Praia de Castelhanos: testes nos Estados Unidos para comprovar sua idade (Foto: Vanessa de Paula / PMI)
O mistério começou na Páscoa, quando a força das águas da chuva que assolou durante o feriado a cidade de Ilhabela, no Litoral Norte, desenterrou na areia uma carcaça de madeira de 15 metros de comprimento. Desde então, o negócio vinha intrigando os moradores e frequentadores da paradisíaca Praia de Castelhanos, o local do achado. Nos últimos dias, uma equipe de especialistas acredita ter desvendado o enigma. Chefiado por Cintia Bendazzoli, responsável pelo Instituto Histórico, Geográfico e Arqueológico de Ilhabela, o time reuniu fortes indícios de que a peça pertenceu a uma nau do século XVII. “É muito raro encontrar vestígios desse tipo de embarcação no país”, afirma Cintia, que enviou um pedaço de 90 gramas do material a um laboratório em Miami, nos Estados Unidos, a fim de precisar a data de sua fabricação por testes de carbono. O resultado fica pronto em agosto. Os profissionais envolvidos no caso acham que a prova vai confirmar suas suspeitas. A idade estimada da peça baseia-se em algumas evidências. Primeiro, ela é feita de pinho-de-riga. Madeira típica da Europa e da América do Norte, foi muito utilizada nos estaleiros na era das navegações. Reforça a suspeita o fato de o destroço ter uma camada dupla de grossas toras dispostas na vertical e na horizontal, presas umas às outras por cavilhas, pregos feitos de madeira que podem chegar a até 50 centímetros de comprimento. “Todas essas tecnologias são típicas dos séculos XVI e XVII”, diz Cintia. De acordo com ela, o navio provavelmente entrou no rio próximo a Castelhanos para sofrer reparos e acabou abandonado. Dificilmente essa parte do mistério será esclarecida algum dia. Jonne Roriz/AE
Ilhabela sítios arqueológicos - 2220
Sítios arqueológicos: prato cheio para os mergulhadores (Foto: Jonne Roriz/AE)
Sítios arqueológicos: prato cheio para os mergulhadores O caso deve enriquecer a farta história de naufrágios antigos da ilha paulista. Há pelo menos 23 navios submersos catalogados por ali. Várias lendas cercam esses acidentes. Muitos dizem que a região estava na rota de traficantes de escravos e de corsários ingleses, incluindo o célebre pirata Thomas Cavendish, que teria sido morto no local num motim, após uma discussão sobre o destino de um tesouro roubado — versão nunca comprovada oficialmente. Mitologias à parte, os comerciantes dali aproveitam a fama para transformar essas histórias num atrativo turístico. Algumas empresas, por exemplo, promovem visitas às riquezas submersas. “Vários dos naufrágios foram próximo da costa, o que facilita a atividade”, afirma Ricardo Prata, dono da Colonial Diver, que cobra dos interessados uma taxa de 230 reais (inclui dois cilindros de oxigênio). Em razão dos saques realizados ao longo das últimas décadas por pessoas que visitaram os sítios arqueológicos, uma parte preciosa desse patrimônio já se perdeu. Há também por lá um museu particular com um modesto acervo de objetos retirados do fundo do mar, como cristais, porcelanas e talheres. Acidentes famosos Os principais navios que jazem no fundo do mar da cidade 
Mapa de Ilhabela - 2220
(Foto: Veja São Paulo)
  1. Dart (1884) O cargueiro movido a vapor e velas viajava de Santos para o Rio de Janeiro quando, durante uma tempestade, ficou preso entre as pedras. Houve tempo de salvar todos os 55 tripulantes e cinco passageiros, com exceção de um oficial, que foi atirado ao mar no momento do choque. 2. Velásquez (1908) Esse cargueiro de casco de aço fazia a rota entre Buenos Aires e Nova York. Em sua última viagem, transportava passageiros e 2.000 sacas de café. Saiu de Santos com escala prevista no porto do Rio de Janeiro, mas acabou colidindo com rochas e afundando a 2 milhas da Ponta da Sela. 3. Hathor (1909) Carregado de café, o vapor inglês tentava contornar a Ponta do Boi durante uma tempestade e acabou encalhado numa laje. Um pesqueiro que passava pelo local ajudou a conseguir socorro para os 22 tripulantes. 4. Príncipe de Astúrias (1916) A luxuosa embarcação espanhola, depois de atravessar o Atlântico, rumava para Santos com 578 pessoas a bordo quando bateu violentamente na Ponta da Pirabura durante uma madrugada. Em menos de meia hora o navio estava completamente submerso e 445 pessoas, mortas. 5. Concar (1959) O cargueiro espanhol inaugurava uma nova linha entre Málaga (Espanha) e Assunção (Paraguai) quando perdeu o rumo, encalhou nas pedras e depois virou. Ficou entalado na laje durante um mês. Partiu-se em três pedaços e foi ao fundo durante uma tempestade.

Fonte: VEJA SÃO PAULO