crise hídrica

Esquenta mercado de produtos para a economia de água

Estiagem facilita a venda e a procura por dispositivos que minimizam o desperdício de água e abre espaço para novas tecnologias sustentáveis

Por: Silas Colombo

Poupa água
André dos Santos: dispositivo que permite programar limites de consumo (Foto: Fernando Moraes)

O arquiteto André dos Santos Silva se prepara para pôr no mercado uma invenção que pode ser bastante útil em tempos de crise hídrica. Trata-se de um dispositivo eletrônico batizado de Poupa-água. Instalado no encanamento principal, ele permite programar um limite de consumo diário para a casa. Se os moradores esbanjarem além da conta, a engenhoca bloqueará automaticamente o registro geral, interrompendo o fornecimento.

A invenção foi patenteada e o primeiro lote de 100 peças para a venda ficou pronto. Deve ser comercializado ao custo de 500 reais a unidade. Morador da Vila Mazzei, na Zona Norte, o arquiteto começou a desenvolver a ideia quando um vazamento em seu sobrado resultou em uma conta de 5 000 reais no mês. “Pensei em criar algo para evitar outras surpresas desagradáveis”, conta.

jean evac
Bernard, da Evac: descarga a vácuo (Foto: Fernando Moraes)

Ele é um exemplo de como a pior estiagem dos últimos 84 anos está movimentando o mercado de artigos anti desperdício de água. Os equipamentos podem ajudar no esforço que muitos paulistanos já vêm fazendo desde o início da crise para poupar o recurso natural. Quase 70% dos clientes da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) reduziram em mais de 20% o consumo nos últimos três meses. Existe margem, no entanto, para mais economia. Cada morador da capital ainda gasta uma média de 200 litros de água potável por dia, contra os 110 litros recomendados pela Organização das Nações Unidas (ONU) como suficientes para manter um estilo de vida confortável.

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Outro inventor paulistano prestes a comercializar um artigo sob medida para o momento crítico é Milton Akio Sakurai. A inspiração veio de suas lembranças do período em que morou no Japão. Nos prédios mais antigos e com muitos apartamentos do país asiático, o sistema de aquecimento central é bastante regulado, de forma a evitar o consumo exagerado de energia. Assim, os banhos duram de cinco a dez minutos.

Para resolver esse tipo de dilema, ele desenvolveu o Eco-banho. Nos primeiros minutos em que o chuveiro está ligado, o dispositivo guarda uma parte da água em um recipiente e a mantém aquecida. Depois, a pessoa pode desligar o registro e continuar o banho com o líquido estocado. Segundo cálculos do inventor, isso pode reduzir o consumo de água em até cinco vezes durante o banho. Sakurai aguarda o processo de registro de patente para iniciar as vendas do artigo.

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Dutra, da Draco: aumento de quase 30% nas vendas (Foto: Fernando Moraes)

Enquanto criadores como ele investem em inovações, os equipamentos disponíveis nas lojas também registram aumento de procura na metrópole. Um exemplo disso é a Evac, especializada em descargas a vácuo, quase sete vezes mais econômicas que as comuns. Ela fechou 35% mais negócios em 2014. “É um crescimento muito atípico e com certeza foi influenciado pela crise hídrica”, afirma Jean-Pierre Bernard, o diretor-geral da companhia. Um vaso equipado com o sistema custa cerca de 3 000 reais.

No Shopping Frei Caneca, os 196 banheiros contam com a tecnologia desde o ano passado. Com isso, o centro de compras economiza 2 milhões de litros por mês — o mesmo que 200 caminhões-pipa —, além de ter um alívio no orçamento de 500 000 reais por ano.

Outra empresa da área, a Draco, contabilizou movimento acima do normal. “Nos últimos quinze anos os clientes nos procuravam para economizar dinheiro. Agora a preocupação, finalmente, é com a água”, afirma o engenheiro Ricardo Dutra, um dos diretores da companhia. A empresa viu as vendas dos redutores de vazão de torneiras, chuveiros e privadas crescerem quase 30% neste ano. Segundo o executivo, só com a instalação das peças nas torneiras, que custam entre 20 e 30 reais cada uma, é possível diminuir a conta em 10%. A preocupação com a seca, pelo menos do ponto de vista dos negócios, ajudou na adoção de práticas mais sustentáveis. “Ficou mais fácil convencer o consumidor da necessidade de economizar”, comemora Dutra.

Fonte: VEJA SÃO PAULO