Patrimônio

No ano de seu centenário, Teatro Municipal volta à cena de cara nova

O mais importante teatro da cidade tem poltronas vermelhas, restaurante decorado pelos irmãos Campana e palco remodelado

Por: Mariana Barros - Atualizado em

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A duas semanas de sua reabertura, o Teatro Municipal vive nos bastidores emoções comparáveis às de algumas óperas encenadas ali. As arquitetas responsáveis pela obra de restauração e reforma, que buscou modernizar a estrutura interna e recuperar o visual original, levam as mãos à cabeça cada vez que notam uma lâmpada queimada, um pedaço de fita-crepe esquecido no topo de um vitral ou um respingo no assoalho novo.

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Não é para menos. Após três anos de um incessante vaivém de mais de 100 operários e investimento de 26,2 milhões de reais, um dos maiores patrimônios e orgulhos da cidade se prepara para a sua première a um público sempre apaixonado, marcada para 12 de junho, o Dia dos Namorados, com a apresentação da Orquestra Sinfônica Municipal, do Coral Lírico e do Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo. A tensão antes da estreia, entretanto, não diminui a alegria de ver o antigo edifício projetado pelo escritório de Ramos de Azevedo de volta à cena e, no ano em que comemora o seu centenário, cheio de vitalidade.

protagonistas - Teatro Municipal - 2219
A diretora Beatriz Amaral, o secretário de Cultura, Carlos Augusto Calil, e as arquitetas Lilian Jaha e Rafaela Bernardes: quarteto responsável pela obra (Foto: Mario Rodrigues)

“Celebraremos passado e futuro”, diz a historiadora Marcia Camargos, autora do livro Theatro Municipal 100 Anos — Palco e Plateia da Sociedade Paulistana, que tem previsão de lançamento para o segundo semestre. Segundo ela, nenhuma das duas reformas anteriores (1952 a 1955 e 1985 a 1988) se baseou em estudos tão aprofundados, que incluíram levantamento iconográfico e de documentos nos arquivos municipais. Vinte profissionais especializados em diversos materiais, como argamassa, granito e vitrais, passaram oito meses debruçados em pesquisas. Descobriu-se, por exemplo, que o verde que nos últimos trinta anos cobriu as poltronas, cortinas e carpetes da casa não fazia parte da configuração original da plateia. “Queríamos chegar à aparência mais antiga possível”, conta a arquiteta Rafaela Bernardes, do Departamento de Patrimônio Histórico da prefeitura. “Raspamos a parede da plateia até acharmos a primeira camada de tinta, da década de 50.” Era avermelhada. Decidiu-se então forrar as poltronas novamente de vermelho, recuperando a composição que vigorou até 1985.

Poltronas Teatro Municipal - 2219
Poltronas viajantes: os assentos da plateia foram reformados por uma empresa de Curitiba, responsável por substituir o estofado e recuperar a estrutura de madeira. Antes de seguirem viagem, porém, eles tiveram de ser identificados um por um, garantia de que voltariam exatamente ao mesmo lugar. Isso porque, dependendo da fileira e da localização, apresentam uma curvatura diferente. Um único lugar trocado poderia comprometer a harmonia do espaço. (Foto: Fernando Moraes)

Para ganharem a nova roupagem, as poltronas, depois de descoladas e desparafusadas, receberam a identificação exata de sua localização. Como as filas desenham uma leve curva, cada lugar tem uma arqueadura distinta. Embaladas, foram enviadas a uma empresa de Curitiba, onde tiveram a estrutura de madeira restaurada e o tecido verde trocado pelo vermelho. A remessa voltou a São Paulo no último dia 11. Nem tudo, porém, era só alegria. Boa parte da intervenção foi marcada por estresse e preocupação com prazos e custos.

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Truque: colunas próximas à porta principal ganham imitação de mármore com técnica que utiliza esponjas, penas e cobertura de cera (Foto: Mario Rodrigues)

Literalmente no centro dos problemas estava o palco do teatro. “Se não fosse o palco, teríamos terminado um ano atrás”, calcula o secretário municipal da Cultura, Carlos Augusto Calil. Duas licitações para compra de equipamentos foram canceladas, inflando em mais 7,4 milhões de reais a previsão inicial de gastos, de 18,8 milhões de reais. Quase um terço do dinheiro da obra foi investido nesta reconstrução técnica e acústica. A capacidade das varas de apoio que sustentam os cenários passou de 150 quilos para 900 quilos, permitindo a montagem de dois espetáculos ao mesmo tempo, a utilização de cenários mais pesados e a troca deles mais rápido que anteriormente.

Houve aumento da altura da área visível ao público e renovação do espaço da orquestra, proporcionando maior conforto aos músicos em sua performance. Medidas simples, como o alargamento da entrada do fosso para 1,20 metro e a eliminação de alguns degraus, acabaram com os malabarismos aos quais eles haviam se acostumado. O palco será o último item a ficar pronto, às vésperas de abrir suas cortinas, e demandará dois meses de treinamento técnico até sua utilização completa.

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Iluminação: lustre de cristal brilha no alto do hall de entrada (Foto: Mario Rodrigues)

O teatro deve iniciar uma fase mais “pop”. Além de estar preparado para receber produções grandiosas, terá maior interação com a cidade. O café do térreo será transformado em um restaurante, projetado pelos designers Fernando e Humberto Campana. Espelhos de bronze, latão e madeira darão a tônica do ambiente, composto de um balcão, quinze mesas e cinco luminárias confeccionados pela dupla. Produtos licenciados poderão ser encontrados em breve na loja do teatro, a ser montada na ala esquerda. As visitas monitoradas prometem ser retomadas, e os espectadores contarão com o conforto e a segurança de um serviço de valet nas noites de apresentação — há estudos para transformar um dos prédios da vizinhança na garagem do teatro.

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O salão nobre: são sete conjuntos de vitrais renovados (Foto: Mario Rodrigues)

O desafio mais complexo, porém, não foi resgatar o brilho das paredes centenárias. A situação administrativa do Municipal é tão dramática quanto as cenas vividas por Violeta em La Traviata. Com a existência de três regimes trabalhistas ao mesmo tempo (artistas, funcionários públicos, concursados, os sem concurso e os que atuam com contratos temporários, como freelancers), existem enormes distorções salariais e de benefícios, como FGTS e aposentadoria, entre seus 700 funcionários. Há casos de músicos que ganhavam cerca de 6.000 reais (salário médio) e se aposentaram com o salário-base de 800 reais. Outros permanecem em caráter temporário há quinze anos, oficialmente sem direito a férias ou 13º salário por todo esse período.

+ Uma visita guiada ao recém-restaurado Teatro Municipal

A proposta encaminhada ao prefeito Gilberto Kassab no início deste mês e com previsão de ser sancionada até a semana que vem é a transformação do Teatro Municipal em uma Organização Social (OS) de direito público. Ou seja, ele continuará subordinado à pasta da Cultura, mas terá mais autonomia. Poderá, por exemplo, escolher o tecido de um figurino sem ter de fazer licitação para isso. “Com o tempo, não haverá mais músicos nem bailarinos funcionários públicos”, diz Calil. Os artistas que compõem os quadros da casa poderão optar por permanecer vinculados à prefeitura ou ser contratados pela OS, seguindo nova escala salarial, plano de carreira e registro na carteira de trabalho. A Sociedade de Cultura Artística e a Santa Marcelina Cultura estão entre as favoritas para assumir a empreitada. Outra possibilidade é criar uma organização especialmente para esse fim.

A mudança incluirá todos os corpos artísticos do teatro: duas orquestras, dois corais, duas escolas, um quarteto e o balé. Atualmente, cada um desses grupos ensaia em locais improvisados espalhados pela cidade. Isso também deve mudar a partir do ano que vem, com a entrega da tão prometida Praça das Artes, um anexo no quarteirão vizinho, com salas de ensaio e de apresentação para abarcar todo mundo.

Em meio a tanto corre corre, a programação, que costuma ser divulgada com antecedência de pelo menos um ano, só está saindo agora. Os preços dos ingressos de atrações estrangeiras, como “The Infernal Comedy”, com o ator americano John Malkovich e orquestra, seguem indefinidos. As apresentações dos artistas da casa custarão entre 5 e 70 reais, visando atrair um público maior.

+ Confira um infográfico com detalhes sobre o teatro

Com a bilheteria concorrida e o edifício revigorado, o Teatro Municipal será importante para a revitalização do centro. Outras medidas, porém, como melhorar a iluminação e a segurança, ainda precisam ser tomadas para que os paulistanos desfrutem sem medo — e a qualquer hora — os encantos da nossa casa de ópera, de dança e de concerto, que agora mais do que nunca merece sair aplaudida de pé.

Reserve seu lugar

Confira as principais atrações da temporada deste ano

12 de junho: Concerto de reabertura — Orquestra Sinfônica Municipal, Coral Lírico, Quarteto de Cordas e solistas

7 a 10 de julho: Balé da Cidade

15 e 16 de julho: Companhia de Dança Philippe Genty

18 de agosto: Orquestra Filarmônica de Minas Gerais

23 a 25, 27 e 28 de agosto: Balé Kirov com a Orquestra Sinfônica Municipal

14 a 18 de setembro: Rigoletto, de Giuseppe Verdi, com direção de Felipe Hirsch

21 a 24 de setembro: Balé de Leipzig

14 e 16 de outubro: Orquestra Sinfônica Municipal e o violoncelista Antonio Meneses

17 a 20 de outubro: Festival Flamenco

21 e 23 de outubro: Orquestra Sinfônica Municipal e o regente Leo Brouwer

27 a 29 de outubro: Osesp

4 a 6 de novembro: The Infernal Comedy, com o ator americano John Malkovich

Fonte: VEJA SÃO PAULO