Cultura

Símbolo paulistano, Teatro Municipal enfrenta crise

Intrigas, denúncias de corrupção e outros problemas da entidade, cuja administração foi posta sob intervenção da prefeitura

Por: João Batista Jr. e Nataly Costa

Abre - Matéria Teatro Municipal
Símbolo da cidade, o Teatro Municpal está sob investigação: bastidores envolvem corrupção e rede de intrigas (Foto: Clésio)

Desde sua fundação, em 1911, o Teatro Municipal brilha como um solista na Praça Ramos de Azevedo, no centro da capital. Seu figurino é o de um ícone arquitetônico eclético do século XX, que mistura estilos europeus como barroco e art nouveau; sua voz, a de personagens como a cigana Carmen ou o cavaleiro Lohengrin, das óperas de Georges Bizet e Richard Wagner. O enredo glorioso, porém, tem descambado para um dramalhão — não no palco, mas nas coxias.

Não bastassem as brigas e o clima pesado de bastidores (um ato à parte nessa história), o Municipal é cenário de graves denúncias de corrupção, em uma trama que envolve um rombo de 20 milhões de reais na contabilidade do teatro, notas fiscais superfaturadas, contratos de fachada e desvio de dinheiro público. O mais recente capítulo: no último dia 26, a prefeitura pôs a instituição sob intervenção por noventa dias.

John Neschling e Haddad
John Neschling com Fernando Haddad: o maestro procurou o prefeito para denunciar irregularidades no Municipal (Foto: Bruno Poletti/Folhapress)

Sai do poder, portanto, o Instituto Brasileiro de Gestão Cultural (IBGC), organização social comandada por William Nacked, designada pela prefeitura para dar autonomia financeira e administrativa ao teatro e que podia, por exemplo, realizar contratos sem a exigência de licitações. Cabia ao órgão pagar salários, elencar serviços e escolher as apresentações, sempre com a anuência do então diretor-geral da casa, José Luiz Herencia (atribuições que, na fase atual, ficaram a cargo do interventor Paulo Dallari, funcionário da prefeitura).

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Fecha a tríade do comando do prédio, na função de diretor artístico, o maestro John Neschling, responsável pelas encenações, da contratação de bailarinos à regência da Orquestra Sinfônica Municipal. Apesar de estar sendo investigado, não pairam indícios contra ele, ao contrário do que acontece com Nacked e Herencia, os principais nomes nas apurações conduzidas pela Controladoria-Geral do Município e pelo Ministério Público de São Paulo.

As mudanças promovidas pela gestão empossada há três anos resultaram na alta da qualidade da programação. O número de sócios-assinantes (anuidade entre 100 e 640 reais) dobrou de 3 000 para 6 000, e o público cresceu de 61 000 visitantes, em 2012, para 101 000 no ano passado. Em setembro de 2015, porém, algo de estranho começou a acontecer. Atrações importantes anunciadas para este ano, como a ópera Così fan Tutte, de Mozart, e o concerto La Fura dels Baus, foram cancelados sob a alegação de falta de verba.

A relação entre os cabeças da diretoria técnica e artística, até então cordial, azedou. Amigo de Haddad, com bom trânsito na prefeitura, Neschling queixou-se do diretor-geral ao prefeito, que pediu à controladoria-geral uma auditoria nas contas do teatro, em outubro. Em paralelo, o Ministério Público, movido por uma denúncia do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), havia detectado a existência de “movimentações bancárias suspeitas” de José Luiz Herencia. Em poucas semanas, as apurações se cruzaram.

Patricia Melo e Jerencia
Patrícia Melo, mulher de Neschling, e o ex-diretor José Luiz Herencia, hoje investigado, em estreia de 2013: a convivência, antes harmônica, azedou (Foto: Bruno Poletti/Folhapress)

A suspeita dos investigadores é que Herencia use a mãe e a ex-mulher como laranjas. Ele possui procuração para movimentar as contas-correntes de ambas, o que chamou atenção. Nos últimos dois anos, elas adquiriram um apartamento de 6 milhões de reais na Rua Minas Gerais, em Higienópolis (a poucas quadras do apartamento onde vive Neschling), e três terrenos em Ilhabela, no litoral norte. O salário dele, de 19 000 reais, seria incompatível com as aquisições.

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O diretor-geral também recebia, em contas bancárias no nome das duas, depósitos de produtoras culturais que prestavam serviços para o Municipal. “Em alguns casos, eles não se concretizaram, pois o CNPJ era de uma empresa- fantasma”, aponta o controlador Roberto Porto. Formado em filosofia pela USP, Herencia foi indicado ao cargo por Juca Ferreira, então secretário e atual ministro da Cultura. Ele foi seu assessor especial durante parte da administração do ex-presidente Lula. Também passou pela Secretaria Estadual da Cultura sob a gestão do então secretário Andrea Matarazzo.

Entre seus conhecidos, Herencia adora falar que também é artista — cita a publicação do livro de poemas Água Furtada, lançado em 2011, que vendeu 100 exemplares pela Azougue Editorial. Em novembro, ao tomar conhecimento do avanço da apuração contra ele, demitiu-se — e saiu levando o disco rígido do computador que usava no Municipal, contendo todas as suas informações de trabalho.

O item foi recuperado pela Justiça, que também sequestrou seus imóveis e bloqueou suas contas. Procurado, Herencia não quis comentar nenhuma das acusações: “Eu me limito a dizer que estou prestando depoimentos”. Na última semana, ele teve dois encontros no Ministério Público.

Misael Santos
O cantor lírico Misael Santos, preterido em audição: denúncia ao MP por achar que o critério de seleção não seria exclusivamente artístico (Foto: Divulgação)

O outro capítulo das acusações é relacionado ao IBGC, a organização social que geria o teatro — e que, para isso, recebeu 106 milhões de reais da prefeitura só em 2015. “Havia uma total promiscuidade entre as contas do órgão e do Instituto Brasil Leitor (IBL), que também é dirigido pelo William Nacked”, diz o controlador-geral Roberto Porto. “Temos provas de que foram feitos empréstimos entre as organizações. A sede era a mesma e alguns empregados, compartilhados.” Em resumo, a desconfiança é que o dinheiro do teatro acabava no IBL.

Desde o último dia 26, com a intervenção, Nacked está afastado da administração. “O modelo de gestão por O.S. (organização social) veio para ficar. O legado vai ser deixado. Sobre corrupção não vou conversar. São acidentes de percurso. Se houve problemas de governança, a gente põe em dúvida o presidencialismo?”, declara.

Sobre John Neschling, há outros questionamentos. Chama a atenção do promotor Arthur Pinto de Lemos Júnior o fato de o maestro passar muitas temporadas no exterior, com trabalhos de regência para outras orquestras, sem se licenciar do cargo (e do salário mensal de 150 000 reais). “Meu contrato com o IBGC não exige tempo de permanência nem exclusividade. Cumpro meus compromissos, e ainda levo o nome do teatro para fora do país”, diz Neschling.

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O órgão também quer saber como se deu o pagamento, por parte do IBGC, de 300 000 euros (cerca de 1 milhão de reais) a uma produtora de Mônaco escolhida por Neschling para realizar o espetáculo Alma Brasileira, que retrataria a obra do compositor Villa-Lobos e, até hoje, não saiu do papel. “O convênio não foi adiante pelas mais diversas explicações. A responsabilidade é inteira do senhor Nacked”, responde Neschling. Para a promotoria, o maestro também pode ser responsabilizado. “Há muita subjetividade em uma contratação artística, são valores difíceis de avaliar e sabemos que alguns gestores se aproveitam disso para superfaturar”, diz Lemos Júnior.

Jamil Maluf
O maestro Jamil Maluf, demitido em 2014: saída não teve maiores explicações e causou revolta entre os músicos (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

Além disso, ronda o maestro uma bélica rede de intrigas pessoais, fruto de seu temperamento peculiar e intempestivo. Em novembro de 2014, o cantor lírico Misael Santos soltou o gogó para os promotores. Relatou a demissão de quinze músicos e um suposto favorecimento na contratação dos novos escolhidos. “Todos já tinham sido funcionários dele na Companhia Brasileira de Ópera”, aponta Santos, que chegou a tentar uma vaga no time, sem sucesso.

Neschling confirma que muitos contratados eram seus ex-funcionários. “Mas não houve favorecimento, as audições são gravadas e seguem padrão internacional. Trabalho com gente boa, seja onde for”, refuta. Nos bastidores, músicos se referem a Neschling como “grosseiro” e “arrogante”. Todos são proibidos de falar com a imprensa. “A tirania dele garante o nosso silêncio, temos medo da demissão”, diz um deles, sob anonimato.

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Contestar pode sair caro. Mario Zaccaro, ex-maestro do Coral Lírico, queixou-se do tratamento recebido durante os ensaios da ópera La Bohème e foi mandado embora. “Sou fã do trabalho dele, mas o clima era de terror.” Funcionário da casa desde 1980, Jamil Maluf foi desligado em 2014. “Eu me senti desrespeitado ao extremo porque não houve explicação”, lembra. “Cheguei a ser diretor artístico e não ganhei um centavo a mais por isso, além da minha remuneração de 10 000 reais como regente da Orquestra Experimental de Repertório.”

Capa Teatro Municipal 2468
Bastidores quentes no endereço (Foto: Veja São Paulo)

Contratado para ser diretor cênico da montagem de Otello em 2015, o italiano Giancarlo Del Monaco saiu brigado — e disparou para todos os lados. “Todo o teatro treme de medo diante de Neschling e Herencia. Aquilo não é um teatro, é uma prisão. A pessoa ainda mais temida é a mulher de Neschling (a escritora Patrícia Melo). É ela quem comanda o teatro”, afirmou Del Monaco em entrevista à Folha de S.Paulo.

Patrícia, que não tem nenhuma ligação formal com a instituição, é presença constante por ali, motivo pelo qual ganhou o apelido de “papagaio de pirata”. O cantor Misael Santos, que não trabalha no Municipal, mas foi convidado para assistir, em agosto do ano passado, a um ensaio da ópera Manon Lescaut, relata ingerência de Patrícia: “Eu a vi opinando sobre iluminação, cenário e implicando com todos no ambiente”. 

Nos dias de estreia, artistas reclamam que ela se maquiava antes mesmo daqueles que entrariam em cena. É verdade, maestro? “Se minha mulher se maquia no meu camarim no dia da minha estreia, usando o próprio material, e se ela é amiga da maquiadora que passou para vê-la, é problema dela.” Inimigos também reclamam da presença constante de Schlomo, o yorkshire do casal, e relatam os mimos mais pitorescos ao cão, que o dono refuta: “Jamais um funcionário do teatro levou meu cachorro para passear”.

Misael Santos
O cantor lírico Misael Santos, preterido em audição: denúncia ao MP por achar que o critério de seleção não seria exclusivamente artístico (Foto: Divulgação)

Fora dali, Patrícia e Neschling têm a simpatia do primeiro-casal da cidade. Dona de um sítio em São Francisco Xavier, ela hospedou, com o marido, em um fim de semana de julho do ano passado, o prefeito Fernando Haddad e a esposa, Ana Estela. Antes das denúncias, sua relação com o agora ex-amigo Herencia também era boa. Ainda no início da gestão, ele chamou o então diretor-geral ao palco e, diante dos músicos, disse que era um homem de sua “total confiança”.

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Na ocasião, contou que teria como objetivo contratar os artistas com carteira assinada, de acordo com o que a lei pedia. Isso foi feito — 246 integrantes da Orquestra Sinfônica Municipal, do Coro Lírico, do Coral Paulistano e do Quarteto de Cordas hoje trabalham de acordo com as regras da CLT. Ainda faltam os 32 funcionários do Balé da Cidade.

opera la boheme
A ópera 'La Bohème': uma das peças mantidas na programação, que sofreu baixas (Foto: Heloísa Ballarini)

Além do cancelamento de parte da programação do teatro, os problemas na gestão puderam ser percebidos pelo público no dia a dia. O ar-condicionado do local passou três meses quebrado — quem ia assistir a uma ópera precisava se contentar com janelas abertas e o barulho dos carros lá fora. A prefeitura explicou que a fiação, que está nas galerias subterrâneas do teatro, foi roubada.

Apesar da reforma de 28,3 milhões finalizada em 2011, a estrutura elétrica não foi totalmente modernizada. Os frequentadores mais prevenidos levavam leques, que trabalhavam em velocidade máxima. No último domingo, 28, o maestro Neschling chegou a passar mal de calor durante uma apresentação. No dia seguinte, o equipamento foi reparado. Afinal, mais quente do que a encenação que se passa nos bastidores do teatro, impossível.

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  • Italianos

    Picchi

    Rua Oscar Freire, 533, Jardim Paulista

    Tel: (11) 3065 5560

    VejaSP
    1 avaliação

    Não faltam pratos caros e refinados no cardápio do Picchi, um dos melhores representantes da culinária italiana na cidade. O grelhado do pescador, que traz delícias como um camarão grande, custa R$ 105,00. Dá para provar uma saborosa amostra dessa receita no caprichado menu executivo (R$ 53,00), diferente a cada dia. Às sextas, o chef Pier Paolo Picchi prepara, de tempos em tempos, um risoto de frutos do mar. Em meio ao arroz, cozido com perfeição, há lula, polvo, mexilhão e peixe do dia. Ligue antes para conferir se a opção está disponível.

    Preços checados em setembro/outubro de 2016.

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  • Bares variados

    Cão Véio

    Rua João Moura, 871, Pinheiros

    Tel: (11) 4371 7433

    VejaSP
    16 avaliações

    Além de jurado no reality show culinário MasterChef Brasil, o chef Henrique Fogaça tem participação em uma série de estabelecimentos. É o caso deste pequeno bar, embalado por trilha sonora roqueira sempre em volume agradável. Nas geladeiras, há cervejas como a clássica red ale London Pride (R$ 33,00, 500 mililitros). A seleção de petiscos inclui a apetitosa costela suína marinada na cachaça com mel e lambuzada por molho de pimenta e maracujá (R$ 42,00). No almoço, há opções como o pargo ao molho de limão (R$ 36,00). O menu completo, com entrada e sobremesa, custa R$ 43,00.

    Preços checados em setembro/outubro de 2016.

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  • Hamburguerias

    Holy Burger

    Rua Doutor Cesário Mota Júnior, 527, Consolação

    Tel: (11) 4329 9475

    VejaSP
    14 avaliações

    A minúscula lanchonete não raro está lotada e há filas na entrada mesmo em dias de semana. Entre os bons sandubas, o mr. chris P. reúne um disco de 160 gramas de carne, gorgonzola, molho barbecue feito com cerveja preta e crispy de cebola por R$ 25,00. Mais basicão, o cheese burger (R$ 19,00) leva queijo prato, molho de tomate e maionese. Cortadas em palitos finos,as fritas (R$ 5,00) chegam sequinhas e crocantes. Na sobremesa, não pule o pudim de leite condensado com cumaru (R$14,00).

    Preços checados em setembro/outubro de 2016.

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  • Sem grande investimento em cenário ou figurino, O Menino que Não Sabia Chorar brilha devido a uma poderosa trama, inspirada numa história real. Luiza Pannunzio fez uma série de ilustrações sobre seu filho Bento, que, devido à fenda palatina, nasceu sem o canal lacrimal formado. A mesma delicadeza impressa nas imagens foi transportada ao palco por Paula Autran. Vivido por Denis Antunes, o garotinho Bento sai em busca de suas lágrimas ao lado da irmã Clarice (Camila dos Anjos, também substituída por Gabriela Fortanell). Divertidos personagens coadjuvantes, todos interpretados por Geraldo Rodrigues, colorem a trama, acompanhada de sons ao vivo de uquelele, sanfona e guitarra. Dirigido por Fabio Brandi Torres, o trio acerta o tom na emoção sem parecer piegas. Recomendado a partir de 5 anos. Estreou em 4/10/2015. Até 1º/5/2016.
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  • Gênero de sucesso entre o fim dos anos 1960 e o começo de 1980, a pornochanchada misturava comédia popular e erotismo. Despolitizada demais para a esquerda e promíscua além da conta para a direita, divertia o público aparentemente sem causar polêmicas. Por trás dos panos, porém, a categoria contrariava os valores da ditadura militar. Na exposição Prazeres Proibidos, Fernanda Pessoa escolheu quinze filmes para mostrar os cortes feitos pela divisão de censura. Numa instalação bonita e precisa, gavetas de arquivos antigos iluminadas destacam documentos da época, com frases como “Retirar a cena em que Ferrão batuca nas nádegas de Neusa” ou “Cortar cena de homossexual agarrando-se no pseudo-­pré-histórico”. Numa pesquisa apurada, Fernanda encontrou os filmes na íntegra e separou as cenas censuradas para serem exibidas em outra sala da mostra. Depois de visitar a exposição, resta esperar pelo filme que a artista também vai lançar sobre o assunto: Histórias que o Nosso Cinema (Não) Contava, com estreia prometida para este ano.
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  • Comédia / Musical

    Estúpido Cupido
    VejaSP
    Sem avaliação
    Da novela global homônima, exibida entre 1976 e 1977, o autor Flávio Marinho pinçou a protagonista Tetê, na televisão e no palco vivida pela atriz Françoise Forton, e parte da trilha sonora, a exemplo de Biquíni Amarelo e da música-título, que se une a outros hits da época para amarrar a história de Estúpido Cupido. A montagem, porém, está ambientada nos tempos atuais. Atriz famosa, Tetê é convencida por sua amiga (Clarisse Derzié Luz) a ir a uma festa cuja temática são os anos 60 para reencontrar os colegas do colégio. O elenco, com onze atores no total, é bastante irregular. Saem-se melhor, na atuação e ao soltar a voz, a própria Françoise, que leva com segurança e doçura sua personagem, Sheila Matos e Renato Rabelo, que vivem a rival e o ex-marido da protagonista. Em sua primeira experiência com musicais, Luciano Szafr é a parte mais frágil do grupo. Ele interpreta uma antiga paixão de Tetê que, em algum momento, revela o desejo de ser nada mais nada menos do que galã de novela. Ou seja: sua atuação titubeante acaba virando uma grande piada. Ainda que a montagem esteja longe de ter uma trama bem amarrada e envolvente, ela garante uma diversão levinha. A plateia, sobretudo quem já atravessou a fronteira dos 50 anos, aplaude feliz. Estreou em 27/2/2016. Até 20/3/2016.
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  • O drama escrito pelo escocês Davey Anderson adentra o universo das relações familiares em uma narrativa sempre atual. Há um pai ausente, uma mãe que trabalha além da conta para garantir o sustento da casa e dois filhos: a jovem às voltas com as descobertas da sua idade e o irmão mais novo, que, vítima da síndrome de Asperger, tem dificuldade de interagir com o mundo. Muitos desdobramentos poderiam vir a partir daí, mas o texto não decola. Ainda assim, é um prazer acompanhar o desempenho do elenco formado por Andrea Tedesco, Anna Cecilia Junqueira, Paula Arruda, Pedro Guilherme e Ricardo Corrêa. Com a ajuda de poucos elementos cênicos, os atores protagonizam um agradável jogo teatral e deixam claro que estão prontos para muito mais. Estreou em 27/1/2016. Até 28/3/2016.
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  • Luz baixa improvisada, aquele flerte inocente rolando e muita música romântica na caixa. Se o clima de bailinho de garagem aguçou sua nostalgia, certamente você já sussurou o refrão de Say You, Say Me ou de Easy. Fazia tempo que não lembrava da voz de Lionel Richie? Pois é. Até o ano passado, o cantor andava meio esquecido. Bastou uma aparição, em junho, com bons resultados de público e crítica no festival Glastonbury, na Escócia, para ele sair das trilhas de elevador e entrar novamente nas paradas. A enxurrada de memes envolvendo a música Hello, de Adele, homônima de seu sucesso de 1983, também ajudou na onda de popularidade e culminou em tributo no Grammy Awards deste ano e em turnê pela América Latina. Richie chega aqui com um repertório só de hits, alternando produções- solo com as faixas de sua ex-banda, Commodores. Penny Lover, You Are, We Are The World e, sim, Hello não devem faltar. Dia 9/3/2016.
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  • A cantora está em dívida com o público paulistano. No último Lolla, já com os portões abertos, mandou o recado de que não viria. Ela promete redimir-se com a apresentação de faixas de seus três álbuns, The Family Jewels (2010), Electra Heart (2012) e o mais recente, Froot (2015). Dia 11/3/2016.
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  • Aviso aos marinheiros de primeira viagem. Antes de entrar numa sessão de Zoolander 2, seria bom 1) ver o original, de 2001, e 2) ter referências do mundo da moda. Sem essas informações, o espectador pode boiar em muitas (e nas melhores) piadas. O roteiro, porém, dá uma pincelada em quem foi Derek Zoolander (Ben Stiller), o consagrado modelo que, após a morte da mulher e a perda da guarda do filho, virou um eremita nas montanhas. Seu amigo (e agora inimigo) das passarelas, Hansel (Owen Wilson), assumiu a poligamia e mora no deserto. Ambos vão sair da aposentadoria ao ser convidados para um desfile em Roma. Também terão de participar de uma missão investigativa, liderada por Valentina Valencia (Penélope Cruz), sobre a morte de celebridades — Justin Bieber é o primeiro a ser eliminado na hilariante sequência de abertura. Além da retumbante presença de Will Ferrell (o mais jocoso dos vilões), há participações divertidíssimas de Sting, Milla Jovovich e Billy Zane, e aparições-relâmpago de uma porção de famosos (Katy Perry e John Malkovich, entre outros). Zoolander 2 não rendeu o esperado nas bilheterias americanas. É compreensível. A nova geração talvez desconheça o personagem Zoolander e o humor de Ben Stiller (protagonista, diretor e um dos roteiristas). Embora tenha lá sua pegada escrachada, o filme é refinado e restrito demais para agradar grandes públicos. Estreou em 3/3/2016.
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  • Na Nova Inglaterra, em meados de 1630, uma família sai de uma comunidade e se instala numa fazenda de milho, longe de tudo e de todos, tendo ao redor uma floresta que amedronta. A primogênita, Thomasin (Anya Taylor-Joy), é a primeira a sofrer um baque quando, tomando conta de seu irmão recém-nascido, o bebê desaparece num piscar de olhos. As árvores agitam-se na mata espessa. A partir daí, os fatos que vão rondar o pai dela (Ralph Ineson), a mãe (Kate Dickie), o irmão adolescente (Harvey Scrimshaw) e os gêmeos passam do sobrenatural ao terror psicológico. A Bruxa revela o talento do diretor Robert Eggers. Em seu primeiro longa-metragem, o realizador consegue segurar a atenção da plateia sem que, para isso, use truques como sustos fáceis e sanguinolência excessiva. A tensão crescente e, sobretudo, o clima denso do horror implícito fazem a diferença no gênero. Estreou em 3/3/2016.
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  • O cineasta Hector Babenco diz que seu décimo longa-metragem é uma história ocorrida com ele, porém não autobiográfica. Mas Meu Amigo Hindu tem, é claro, muito do diretor de Pixote e O Beijo da Mulher Aranha. Com a mesma profissão de Babenco, o protagonista chama-se Diego (papel do americano Willem Dafoe) e, alertado por seu médico (Reynaldo Gianecchini), possui um câncer em estágio terminal. Um transplante de medula óssea, realizado nos Estados Unidos, seria a única possibilidade de sobrevivência. Acompanhado da mulher (Maria Fernanda Cândido), Diego embarca para uma jornada de tratamento intenso. O amigo hindu do título é um garoto que faz sessões de quimioterapia ao seu lado. Há delírios com uma velha nua cadavérica e Selton Mello surge na forma da morte. Nesta primeira (e melhor) parte, o diretor transmite as dores, físicas e emocionais, pelas quais passou durante o período da doença. A segunda metade, na recuperação em São Paulo, há certa pressa na narrativa — o casamento se desfaz e surge um novo amor na figura de Bárbara Paz. Babenco expõe-se como poucos, deixando vir à tona, por meio de Diego, da sua verve irônica ao seu egocentrismo, passando pelo drama familiar vivido com o irmão (Guilherme Weber) e o caso de impotência sexual. As referências ao cinema também estão lá: do jogo de xadrez de O Sétimo Selo à derradeira sequência homenageando Cantando na Chuva. Estreou em 3/3/2016.
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  • Comédia dramática

    Fique Comigo
    VejaSP
    Sem avaliação
    São seis protagonistas em encantadoras histórias sobre a solidão e a (inesperada) amizade. As tramas da comédia dramática Fique Comigo ocorrem com moradores de um prédio decadente na periferia de uma cidade francesa. Um deles é Sterkowitz (Gustave Kervern), sujeito tímido e de poucas palavras que, após sofrer uma lesão nas pernas, fica obrigado a andar em cadeira de rodas. Há também Jeanne Meyer (Isabelle Huppert), atriz veterana tentando voltar aos holofotes. No mesmo edifício mora Hamida (Tassadit Mandi), imigrante argelina cujo único filho está preso. Tipos solitários como eles vão, contudo, encontrar um parceiro — cada um à sua maneira. Enquanto Sterkowitz se engraça com uma enfermeira (Valeria Bruni Tedeschi), Jeanne vislumbra uma relação maternal com seu jovem vizinho (Jules Benchetrit) — e vice-versa. No mais fantástico dos três enredos, Hamida vai hospedar um astronauta americano (Michael Pitt) que caiu, literalmente, do espaço. Diretor e roteirista, Samuel Benchetrit não se acomoda no lugar-comum e salpica seu longa-metragem de situações absurdas e humor nonsense. A melancolia ronda ainda personagens críveis envolvidos em tocantes relacionamentos solidários. Estreou em 3/3/2016.
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  • É apenas rock’n roll

    Atualizado em: 10.Ago.2016

Fonte: VEJA SÃO PAULO