Era assim...

Tatuapé: para lá e para cá do bonde

Nos anos 20, bairro era dividido pelos trilhos: de um lado ficavam as chácaras; do outro, as fábricas

Por: Fábio Sanchez - Atualizado em

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Operários no eixo ferroviário centro-Penha, em 1916: rumo à industrialização (Foto: Guilherme Gaensly/Instituto Moreira Salles)

A linha de bonde que atravessou o Tatuapé ao meio, por volta de 1875, também dividiu o bairro em passado e futuro. Ao norte dos trilhos surgiriam, nas décadas seguintes, chaminés de fábrica e vilas operárias, no movimento de industrialização que mudou a cara de São Paulo. Ao sul da ferrovia ficaram as antigas chácaras, resquício da época em que toda aquela área, nas várzeas do Rio Tietê e do Córrego Tatuapé, era dedicada ao plantio de uvas.

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Padaria Lisboa, no Tatuapé, em 1952 (Foto: Revista Alô Tatuapé)

Difícil pensar em um vinho feito no Tatuapé, mas essa foi a principal atividade econômica da região por três séculos. A primeira vinícola paulista foi inaugurada ali pelo explorador Brás Cubas, em 1560. Em 1876, o presidente da província de São Paulo, João da Silva Carrão, convidou dom Pedro II a visitar sua casa, no Sítio do Capão Grande do Tatuapé, e provar um tinto tatuapeense. Livros de história registram que o imperador foi, bebeu e gostou. Carrão hoje é lembrado por batizar o distrito vizinho. A viticultura teve sua última fase no começo do século XX, com a chegada de imigrantes italianos como Benedecto Marengo e seu filho, Francisco. A família Marengo foi a primeira a produzir uvas niágara no Brasil e acabou batizando logradouros do bairro, como as ruas Francisco Marengo e Emília Marengo (mulher de Francisco). Mas, quando os italianos chegaram para trabalhar em pequenas lavouras, a linha do bonde já cruzava o cenário, sinalizando a chegada de um novo tempo.

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Praça Silvio Romero, em 1955 (Foto: Gazeta do Tatuapé)

O eixo ferroviário centro-Penha serviu para guiar a industrialização na Zona Leste da capital. A partir da década de 20, chaminés de fábricas como a química Duperial e a tecelagem Tatuapé tornaram-se parte do bairro. As vilas operárias concentraram um público de assalariados na região. Não era uma área nobre da cidade, mas contava com modernidades como luz elétrica e serviços de saúde. Para atender a massa de consumidores surgiram instalações comerciais, que conheceram seu primeiro apogeu na Avenida Celso Garcia dos anos 60 e 70. A avenida chegou a ter cinco cinemas e foi um centro comercial, com grandes lojas e galerias. Hoje está degradada, com casarões que viraram cortiços. A retirada da unidade da Febem do bairro não foi suficiente para modernizá-la.

A nova explosão residencial e comercial ignora a Celso Garcia e espalha-se por outras vias. Ocupa os galpões industriais que começaram a se esvaziar nas décadas de 80 e 90 e áreas quase virgens, como a da fazenda comprada em 1911 pela educadora Anália Franco — o Jardim Anália Franco. A Rua Tuiuti, que cruza a Celso Garcia, é exemplo de como o comércio de rua perdeu espaço, mas não se rende. Há um segredo interiorano para manter os clientes enquanto os shopping centers pipocam no entorno. “A gente conhece toda a família e recebe as pessoas como se estivesse em casa. O cliente volta sempre”, diz Camal Chaim, com a autoridade de quem dirige uma loja de roupas masculinas que funciona há 59 anos no número 1164 da Tuiuti. A estratégia requer tempo, mas o tiro é certeiro. “Comecei como cliente com o pai do Camal, e o filho também é muito simpático”, conta Nelson Palhari, 82 anos, que fez sua primeira compra no lugar em 1960. A memória do bairro está bem preservada pelos senhores aposentados que passam o dia jogando damas, baralho e dominó nas praças Silvio Romero e Nossa Senhora do Bom Parto. “Quando a gente suava para convencer a mãe a nos deixar ir à matinê ou às quermesses da Bom Parto, andar pelo Tatuapé era muito romântico”, diz Maria da Glória Gonçalves, há 74 anos no bairro. “Os jovens ainda passeiam para se divertir nos mesmos lugares, mas agora existe mais comércio.”

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Casa do Regente Feijó, em 1910 (Foto: Gazeta do Tatuapé)

Com 83 anos de vida no Tatuapé, Antonio da Silva Fernando diverte-se na Silvio Romero desde a juventude. Em 1943, ajudou a criar o Record Futebol Clube, sediado no local onde hoje está o Magazine Luiza. No lugar da Padaria Lisboa ficava... a Padaria Lisboa. Fundada há 97 anos na esquina da Praça Silvio Romero com a Rua Isidro Tinoco, mudou pouco na aparência e na freguesia. Todo mundo se conhece. “Aqui é uma cidade do interior. É impossível andar na rua ou no shopping sem cumprimentar uma dezena de amigos”, afirma Flávio Roveri Martins, neto do fundador da padaria e dono de uma importadora aberta no prédio vizinho.

 

Quem foi Anália Franco?

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Anália Franco Bastos, professora fluminense radicada no Tatuapé (Foto: Revista Alô Tatuapé)

Nascida em Resende (RJ), Anália Franco Bastos (1856-1919) mudou-se aos 8 anos para São Paulo, onde se formou professora. Fundou mais de 100 instituições educacionais na capital e no interior. Em 1911, comprou a Fazenda Paraíso e estabeleceu ali uma escola-fazenda: ex-prostitutas trabalhavam na lavoura, e o lucro da venda dos alimentos bancava o estudo de crianças órfãs. O terreno foi vendido aos poucos em lotes menores, e a área ficou conhecida como Jardim Anália Franco. A sede da fazenda ainda está conservada, no câmpus Tatuapé da Universidade Cruzeiro do Sul. Anália Franco morreu de gripe espanhola, aos 62 anos.

Fonte: VEJA SÃO PAULO