Solidariedade

Edmilson do Nascimento: um novo tipo de câmbio

O empreendedor social alavancou o microcrédito e diminuiu a inadimplência no Campo Limpo

Por: Maria Paola de Salvo - Atualizado em

Edmilson do Nascimento - 2301
O empreendedor social Edmilson do Nascimento (à esq.) e o açougueiro Silvestre Rodrigues de Oliveira (Foto: Antonio Milena)

Quem entra no açougue do Silvestre, no Jardim Maria Sampaio, distrito de Campo Limpo, Zona Sul, logo depara com um cartaz intrigante no balcão de carnes: “Aceita-se sampaio”. A mesma informação pode ser lida em outros 25 estabelecimentos comerciais da vizinhança, como perfumarias, depósitos de construção e barracas de temperos. O aviso serve para lembrar que se está numa região da cidade em que 1 sampaio vale o mesmo que 1 real. Trata-se de uma “moeda social”, com cédulas “oficiais”, numeradas e dotadas de marcas de segurança para evitar falsificação. O projeto do Banco Comunitário União Sampaio, como a iniciativa acabou batizada, surgiu em 2009, com a ajuda do Núcleo de Economia Solidária da USP e um capital inicial de 2.000 reais, concedido pelo governo federal por uma linha de incentivo ao microcrédito. Desde o início, a entidade concedeu 249 empréstimos a clientes de baixa renda, que não têm como obter crédito pelas instituições financeiras tradicionais. Os créditos mais altos giram na faixa de 1.000 reais, com juros que variam de 1,5% a 2,5%. A inspiração veio da bem-sucedida experiência do Banco Palmas, que foi o primeiro a criar, em 2000, uma moeda fictícia na periferia de Fortaleza, no Ceará, para evitar que as pessoas consumissem produtos fora da região.

O principal “executivo” do União Sampaio é Edmilson do Nascimento, de 42 anos, que acumula as funções de gerente, analista de crédito e caixa. Ele divide com outros dois colegas as tarefas da casa bancária, que funciona numa pequena sala da União Popular de Mulheres, uma associação local. O interessado preenche uma ficha socioeconômica com informações sociais, como quantos filhos ele mantém na escola. Para descobrir se a pessoa é boa pagadora, entra em ação um Serviço de Proteção ao Crédito nada convencional. Quem atesta a idoneidade do cliente é o vizinho ou o comerciante do qual ele costuma comprar no bairro. Se tudo for aprovado, a pessoa sai de lá com notas de sampaio no bolso para gastar nos estabelecimentos do bairro e aquecer o comércio local. “Temos uma taxa de inadimplência de apenas 4%, uma das mais baixas da praça”, afirma Nascimento. Comerciantes como o açougueiro Silvestre Rodrigues de Oliveira, há 33 anos na região, colhem os frutos da iniciativa. “O movimento aumentou 20% por causa do sampaio e me encorajou a fazer empréstimos para reformar a loja”, conta. Com a nova câmara fria instalada, Oliveira poderá estocar mais carne, vender em escala e baratear o preço do produto. “É bom para mim e para o cliente também”, diz ele, que já chegou a vender 150 sampaios em carnes para um grande churrasco.

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■ Banco Comunitário União Sampaio

Rua Zacarias Mazel, 128, Jardim Maria Sampaio, Campo Limpo, telefone 5841-4392, http://bancocomunitariosampaio, blogspot.com.br

Fonte: VEJA SÃO PAULO