Solidariedade

Sérgio Vaz: o Cine Paradiso da periferia

O poeta mineiro que leva pessoas pela primeira vez ao cinema

Por: Maria Paola de Salvo - Atualizado em

Sérgio Vaz - 2301
O poeta Sérgio Vaz: exibições de 'Marighella' e 'Utopia e Bárbarie' (Foto: Antonio Milena)

Sob o calor intenso da noite do último dia 10, cerca de 100 pessoas se reuniam debaixo de um céu estrelado em torno de uma tela. O único barulho vinha dos sacos de pipoca distribuídos antes do início da projeção. De vez em quando, o clima era interrompido por latidos e ruídos de motores de moto, que traziam os espectadores de volta à realidade. Por detrás das árvores de sucupira e cássia-rosa, avista-se o Cemitério São Luís, onde estão enterrados muitos jovens assassinados por rixas do tráfico de drogas e em confrontos com a polícia. A plateia está no Jardim São Luís, localizado numa das áreas mais violentas da Zona Sul, para mais uma sessão gratuita do Cinema na Laje. Além de documentários e curtas produzidos por moradores, são projetados filmes que em geral abordam temas brasileiros. Desde a primeira exibição, já entraram em cartaz fitas como 5x Favela — Agora por Nós Mesmos (2010), Utopia e Bárbarie (2009) e Marighella (2012), o campeão de audiência até o momento.

Após as sessões, há debates com diretores, como o documentarista Fernando Grostein Andrade, de Quebrando o Tabu (2011). Criado em 2009 pelo poeta mineiro Sérgio Vaz, de 48 anos, que foi morador do bairro, o encontro acontece sempre às segundas, a cada quinze dias. Uma cooperativa local, a Cooperifa, comprou a aparelhagem de som, a tela e o projetor. A inspiração veio do filme Cinema Paradiso (1988), de Giuseppe Tornatore, que narra a história de uma pobre e minúscula cidade da Sicília cuja vida gira em torno da sua única sala de exibição. Na versão paulistana, os efeitos também são visíveis. “Muitos pisaram num cinema pela primeira vez aqui”, conta Vaz. Em quase quatro anos, o projeto reuniu cerca de 13.000 pessoas. Cresceu tanto que em 2011 abrigou a primeira mostra do Cinema na Laje. “No ano que vem, vamos colocar até tapete vermelho”, promete o responsável pelo evento.

+ Os dez paulistanos que fazem a diferença

■ Cinema na Laje

Rua Bartolomeu dos Santos, 797, Jardim São Luís, telefone 5891-7403, www.colecionadordepedras1.blogspot.com.br

Fonte: VEJA SÃO PAULO