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Praça Roosevelt terá reformas e sinalização para skatistas

A Prefeitura adota novas regras para o uso do skate no endereço após tumulto com guarda-civil

Por: Nathalia Zaccaro - Atualizado em

Roosevelt
Praticante manobra sobre banco: a praça recebe por dia cerca de 500 adeptos do esporte (Foto: Thiago Bernardes/Estadão Conteúdo)

Inaugurada em 1970, a Praça Roosevelt ocupa um terreno de 25 mil metros quadrados entre as ruas Augusta e da Consolação, com pouca área verde e grandes espaços livres cimentados. O que prometia ser um ambiente de lazer no centro se tornou ponto de encontro de travestis, marginais e moradores de rua nos anos 90, época em que sofreu pichações, infiltrações e rachaduras.

A situação só melhorou na década seguinte, quando a praça passou a concentrar teatros e bares, consolidando-se como reduto de artistas, sobretudo alternativos. “Tivemos de lidar com traficantes de drogas que dominavam a área e lutar para que as pessoas vencessem o medo de circular por ali”, lembra o diretor teatral Rodolfo García Vázquez, que fundou a casa de espetáculos Os Satyros em dezembro de 2000.

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Com a retomada, ganhou força um projeto de revitalização do local, realizado com orçamento de 55 milhões de reais e entregue à população em setembro. A reforma incluiu a troca da iluminação e da pavimentação, o plantio de 260 árvores e a instalação de postos da Guarda Civil Metropolitana (GCM) e da Polícia Militar. O que não estava previsto é que o piso ultraliso de concreto, aliado a bancos de madeira, corrimãos e rampas, iria transformar o lugar em parque de diversões dos skatistas da cidade. Muitos deles, aproveitando-se da falta de fiscalização e das regras frouxas para a utilização do espaço, passaram a agir como seus donos, andando em alta velocidade e realizando por ali manobras radicais capazes de pôr em risco os pedestres.

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William Matheus: no vídeo em que aparece sendo agredido por um guarda-civil à paisana (Foto: Reprodução)

Após a reinauguração, a presença diária de cerca de 500 praticantes tirou o sono das 2 mil pessoas que residem em volta da praça. “Eles passavam a madrugada fazendo barulho e não nos deixavam dormir”, afirma Jader Nicolau Júnior, presidente da Ação Local Roosevelt, associação de moradores e trabalhadores da região. Em reuniões com a subprefeitura da Sé e integrantes da Confederação Brasileira de Skate, ficou decidido que as pranchinhas de madeira só seriam permitidas no (generoso) intervalo entre 8 e 22 horas.

Mesmo com a norma, o convívio continuou turbulento.“Após tantos anos de abandono, é natural que todos disputem espaço na praça”, diz o subprefeito Marcos Barreto, que precisou contornar o mais recente barraco. O que aumentou a polêmica foi um vídeo divulgado no dia 6 (e que já soma mais de 2,5 milhões de visualizações no YouTube): as cenas mostram um agente à paisana da Guarda Civil Metropolitana imobilizando comum golpe o skatista William Matheus, de 20 anos. Mas o vídeo não conta toda a história.

A confusão teria começado depois que outro praticante realizou uma manobra sobre um banco, o que danifica o assento. Até spray de pimenta acabou sendo utilizado para dispersar o tumulto que se formou. A Secretaria Municipal de Segurança Urbana, responsável pela GCM, divulgou uma nota esclarecendo que o guarda foi afastado do cargo e será investigado pela corregedoria. Ele poderá sofrer suspensão preventiva de até 120 dias ou mesmo exoneração da corporação. O bafafá serviu de pretexto para reavivar a discussão sobre o uso da Roosevelt. “Minha mulher foi atropelada por um skatista no fim do ano passado e teve de mudar a rota que fazia para ir à igreja”, conta um comerciante das redondezas.

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O skatista agredido: William Matheus voltou à praça três dias após o ocorrido (Foto: Thiago Bernardes/Folhapress)

Por outro lado, os praticantes da atividade defendem a ideia de que também têm direito a se divertir. “Já usamos aquela região desde os anos 80, e não é justo sermos excluídos agora que ela foi revitalizada”, diz o vice-presidente da Confederação Brasileira de Skate, Edson Scander. Na quarta (9), uma reunião decidiu o óbvio: delimitar um trecho para os skatistas e garantir a harmonia na praça. “Vamos criar um perímetro exclusivo para skates e realizar pequenas reformas para evitar que outros pontos sejam deteriorados”, promete Barreto.

No Parque da Independência, no Ipiranga, a prática quase chegou a ser proibida em 2010 após acidentes com pedestres. Em outubro daquele ano, passou a ter horários próprios nos fins de semana: das 5 às 13 horas e das 17 às 20 horas. No Parque do Ibirapuera, é restrita a três zonas desde dezembro de 2011. Ainda assim, aos domingos é permitida apenas antes das 12 horas e após as 18. No Parque Villa-Lobos, as normas existem desde 2004, e os skates podem circular na ciclovia e na Ilha Musical (próxima ao playground). Durante a semana, a atividade é liberada também na Esplanada, área de concreto liso perto da entrada principal.

Saiba as mudanças que serão implementadas no local:

Área exclusiva — A parte mais baixa, próxima à Rua da Consolação, será cercada e destinada só aos skates; nem mesmo bicicletas e patins serão permitidos;

Sinalização — Placas indicarão o espaço restrito aos praticantes;

Novos bancos — Modelos de concreto — mais resistentes que os de madeira, já danificados pelo uso dos skatistas — serão instalados na área dedicada à atividade;

Corrimãos reforçados — Os apoios das escadas desse setor serão chumbados no chão, para evitar que se desprendam e causem acidentes durante as manobras.

Fonte: VEJA SÃO PAULO