Cinema

"Singularidades de uma Rapariga Loura", uma pequena joia lisboeta

Diretor português Manoel de Oliveira adapta com bom-senso um conto de Eça de Queiroz

Por: Miguel Barbieri Jr.

Singularidades de uma Rapariga Loura - 2217
Luísa e Macário: o primeiro flerte do casal de 'Singularidades de uma Rapariga Loura' (Foto: Divulgação)

Escalado para acompanhar a exibição de seu mais recente trabalho, "O Estranho Caso de Angélica", na abertura da última Mostra Internacional de Cinema, em outubro de 2010, Manoel de Oliveira declinou do convite. Contrariado, por imposição médica. Aos 102 anos de idade, o mais antigo cineasta em atividade no mundo não para. Oliveira começou a filmar na década de 30 e hoje contabiliza mais de cinquenta trabalhos, entre ficções e documentários, sejam longas ou curtas-metragens. Algumas produções são penosas de ver, a exemplo de “A Carta” (1999) e “Palavra e Utopia” (2000). Mas há joias como “Viagem ao Princípio do Mundo” (1997) e “Um Filme Falado” (2003). Rodado em 2009, Singularidades de uma Rapariga Loura encaixa-se, felizmente, no segundo grupo.

O cinema de Oliveira tem um tempo próprio, sem pressa, assim como a pacata cidade de Lisboa, palco dessa adaptação do conto de Eça de Queiroz. Escrita no fim do século XIX, a história, aparentemente, foi transposta para o presente. Isso porque o diretor usa elementos antigos (e até antiquados) para desestabilizar a época em que ela se passa, deixando-a indefinida. Seu foco recai sobre a paixão avassaladora de Macário (papel de Ricardo Trêpa, neto do realizador) por uma desconhecida. O rapaz, que vive com o tio Francisco (Diogo Dória) e trabalha como contador na loja de roupas dele, fica obcecado pela beleza e graça da jovem vizinha Luísa (Catarina Wallenstein). Sem pensar duas vezes, Macário decide pedir a loira em casamento. Francisco, seu possessivo parente-patrão, é radicalmente contra e, por isso, expulsa o sobrinho de casa.

Não dá para adiantar mais nada da trama. Oliveira respeitou a duração de um conto e, assim, fez um conciso filme de uma hora. Além do habitual ritmo lento, ele dá uma cadência particular à narrativa, introduzindo até a apresentação de uma harpista. Celulares são substituídos por cartas, baladas aqui se transformam em saraus e, no compasso dos bondes lisboetas, desvelam-se as surpresas e frustrações de um amor conturbado.

AVALIAÇÃO ✪✪✪

Fonte: VEJA SÃO PAULO