Música

Silva: 'As pessoas têm muito medo de ser pop'

Atração do Lollapalooza, cantor, compositor e multi-instrumentista capixaba fala sobre as referências de seu segundo disco, Vista Pro Mar

Por: Mayra Maldjian - Atualizado em

Silva cantor compositor capixaba
O artista capixaba: pop nacional bem feitinho (Foto: Divulgação)

O burburinho em torno de Lúcio Silva Souza, o Silva, começou nas vésperas da primeira edição do festival de música eletrônica Sónar, em 2012. Na época, o cantor e compositor capixaba só havia lançado um EP homônimo com cinco faixas. Foi o suficiente para elevá-lo ao patamar de revelação e inserí-lo nas listas de talentos a se prestar atenção. Naquele mesmo ano, veio o disco de estreia, Claridão. A obra, considerada uma das melhores da temporada, é o encontro do Silva erudito (ele toca violino e piano) com o Silva eletrônico (fissurado por teclados e sintetizadores). A voz suave se equilibra entre a melancolia e a alegria.

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A ideia de um segundo disco começou a rodear sua mente tão logo finalizou o primeiro. Pensava em algo “ensolarado”, “mais para cima”, “bom de ouvir ao lado da piscina”. E foi durante suas férias de verão, em 2013, acompanhado do irmão Lucas, que veio o estalo. Ou melhor, o título. Mergulhado na piscina infinita do hotel The Perry, em Miami, pensou em Vista Pro Mar. Com os olhos explorando o horizonte, eles bolaram mil planos. O resultado começou a ser visto um ano depois, em fevereiro. Ele lançou quatro singles, um por semana, na internet: Janeiro, É Preciso Dizer, Universo e Okinawa, essa última com participação da cantora Fernanda Takai. Na segunda-feira passada, dia 17, soltou o CD inteiro no YouTube e no iTunes. Mais seguro e sem medo de explorar as sonoridades que lhe apetecem, Silva está pronto para assumir um papel relevante no cenário pop brasileiro. Em entrevista à VEJASAOPAULO.COM por telefone, ele compara os seus dois trabalhos e conta o que encontrou durante suas pesquisas musicais (leia abaixo).  

Os paulistanos terão a primeira chance de assistir ao novo show de Silva no Lollapalooza. Ele abre o palco Onix, às 13h10, no sábado (5). A formação de palco, antes composta por ele e pelo baterista Hugo Coutinho, amigo de infância, ganhou agora o baixista Giuliano de Landa e o guitarrista Rodolfo Simor. “Senti a necessidade de crescer a banda”, justifica o músico. “Vamos ver se dá certo!”.

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Veja São Paulo - Como foi ouvir  Claridão depois de Vista Pro Mar? Silva – Sabe aquela história de enjoar do disco? Acontece. Você fica um tempão tocando as mesmas músicas, o repertório dá uma cansada. Ouvindo de novo, eu entendo o momento em que eu estava naquela época, mas tem algumas coisas exageradas, que eu não repetiria.

O que tem de exagerado em Claridão?  Quando eu fiz Claridão, eu estava muito imerso num tipo de música eletrônica mais experimental, mais densa, até meio dark. É claro, meu disco não é dark, mas tem uns respingos. Com o tempo, quando fui levar as músicas para o palco, fiquei enjoado dessa vibe introspectiva demais, e já comecei a pensar em algo mais para cima. Na medida do possível, é claro, porque eu também não sou um cara carnavalesco.

Com essa vontade de fazer um disco mais “ensolarado”, você passou, então, a dar mais atenção a outros tipos de som?  Isso, tem tudo a ver. Eu sempre fui fã de pop. Não qualquer pop. Eu gosto de artistas que flertam com o pop. Um disco que eu achei incrível quando saiu, no ano passado, foi o Body Music, do [duo eletrônico inglês]  AlunaGeorge. Eu acho a produção muito boa, tem timbres bons e melodias bem pop. Também tem Chvrches e Haim, umas bandas mais leves. Eu passei a pegar outros sons que são bem diferentes de mim.  Comecei a ouvir mais hip-hop, como o Drake, por exemplo, mais como um desafio mesmo, para ser mais criativo.

A temática da paisagem paradisíaca não se tornou uma limitação?  Na verdade eu tracei um limite, e fiquei trabalhando dentro desse conceito, para o trabalho todo ficar coerente. É muito interessante partir de um tema, saber mais ou menos o caminho que você quer.

Para quais outros artistas essa imersão te levou?  Eu comecei a me voltar muito para as coisas do João Donato. Um amigo me falou para baixar o disco Quem É Quem [1973]. Eu baixei, mas não ouvi. Um dia viajando eu resolvi escutar. Fiquei apaixonado. Ele tem essa coisa de Brasil anos 70, mas é muito diferente [da produção da época]. Ao mesmo tempo em que é sofisticado é meio hippie, despretensioso. Ele me influenciou bastante.

O que você acha da comparação com Guilherme Arantes? Ele também é uma referência?  No começo eu achava estranho, porque não foi algo pensado, mas depois até achei parecido. Eu sou super fã do Guilherme. A gente se conheceu no ano passado, durante o Prêmio Multishow [Silva levou o de nova canção por Amor Pra Depois]. Nos encontramos nos bastidores e ele veio brincar comigo: “Pô, cara, fiquei sabendo que você não gosta de mim”. Fiquei todo vermelho e na hora comecei a falar dos discos e músicas dele que eu gostava. Foi muito divertido. Tem uma galera que diz gostar da fase psicodélica do Guilherme Arantes, na época em que ele tinha a banda Moto Perpétuo. Mas eu não gosto dessa fase cult, não, eu gosto da fase pop, bem de novela mesmo. Adoro aquelas melodias bem grudentas, cheias de teclado. Eu sinto falta disso na música brasileira. As pessoas têm muito medo de ser pop aqui. Todo mundo quer música cult, que fala difícil, que se faz difícil. Nos anos 80, o Brasil tinha muito essa ligação com o pop, e se conectava com músicos do mundo todo. É o que eu tento fazer com meu trabalho. Com o português é mais complicado, é um desafio.

Por que você pensou na Fernanda Takai para cantar na faixa Okinawa?  Eu sempre gostei muito da sonoridade do Pato Fu e a Fernanda é uma artista muito conectada em tudo. Ela tem essa ligação com a cultura japonesa, por ser descendente, que eu também admiro. E eu precisava de uma cantora de voz pequena, para casar com a minha. Não dava para ter um vozeirão tipo o da Alcione. Ficamos atrás dela um tempo, fiz o convite e ela topou.

Você ainda é um músico de quarto?  Eu produzo no meu quarto até hoje, sim. Às vezes é difícil, fica tudo bagunçado, é roupa em cima de teclado. Mas eu já acostumei. É legal quando você acorda querendo criar algo e já está tudo ali. Bem nerd isso. Eu tenho um teclado muito grande, que já nem tiro de lá, as drum machines, computador com monitor, um microfone montado com plaquinhas de som para quando eu quiser gravar. As outras coisas eu deixo em outro quartinho. Lá tem violino, xilofone, violoncelo, guitarra. Eu moro com meus pais ainda. Eles são super zen, nossa relação é bem boa. Minha mãe é professora de música da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo). Ela me apoia muito, gosta de ouvir minhas coisas antes de todo mundo. Tem que aproveitar, né?

Fonte: VEJA SÃO PAULO