Esporte

Quadras de esportes dão lugar a novas construções

Especulação imobiliária faz sumir em ritmo rápido espaços para a prática de tênis e de futebol society

Por: Amanda Kamanche

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O clube na Vila Leopoldina: dias contados (Foto: Apu Gomes / Folhapress)

Na Master Tênis, em funcionamento desde 1999 na Vila Leopoldina, o silêncio interrompido por uma ou outra raquetada indica que está chegando a hora. A academia de 6.000 metros quadrados deve fechar as portas em julho, abrindo espaço para a construção de um prédio comercial no mesmo terreno. Das suas sete quadras, quatro já estão interditadas. “Fiquei bastante chateado com a notícia e, agora, vou ter de jogar em outro lugar”, lamenta um dos clientes, o estudante Bruno Francisco Lisanti Soares, de 18 anos.

A missão de encontrar um local para disputar partidas será cada vez mais difícil. Nos últimos três meses, sete outros grandes complexos para a prática do jogo na cidade tiveram o mesmo fim. Segundo estimativas de pessoas ligadas ao circuito, mais vinte quadras sofrem idêntica ameaça. Fenômeno semelhante ocorre na área do futebol society, que perdeu mais de sessenta campos na capital desde 2008. 

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O estudante Bruno: "Agora, vou ter de jogar em outro lugar” (Foto: Apu Gomes / Folhapress)

Em ambos os casos, o vilão por trás do desaparecimento dos espaços é o mesmo: a especulação imobiliária. “As construtoras estão comprando os negócios esportivos porque eles ficam em espaços imensos, normalmente em lugares planos e perto de uma vizinhança com alto poder aquisitivo”, afirma o ex-tenista Fernando Meligeni. Antes da disputa dos Jogos PanAmericanos de 2003, na República Dominicana, onde conquistaria a medalha de ouro, o jogador se preparou na Academia Mauro Menezes, uma das melhores da capital naquela época. Ela deixou de existir há três meses, e no terreno está sendo construído hoje um supermercado. Mais emblemático ainda foi o fim das atividades da Meyer Tennis, na Granja Viana. Lá eram realizadas clínicas de treinamento e importantes torneios. Há três anos, os tratores passaram sobre as redes das dez quadras. Uma construtora assumiu a propriedade e ergueu ali um condomínio de 59 casas. Depois disso, Marcelo Meyer, ex-dono do complexo esportivo, resolveu deixar a atividade. Ironicamente, passou a ganhar a vida atuando como empreendedor imobiliário. “Do jeito que a coisa caminha, só vão restar os clubes para as pessoas continuarem empunhando suas raquetes”, acredita Meligeni.

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Campo desativado no Tatuapé: cena cada vez mais comum (Foto: Apu Gomes / Folhapress)

A briga entre os espaços esportivos e os prédios é antiga. Nos anos 70, os campos de futebol de várzea foram as primeiras vítimas dessa batalha. Centros que revelaram talentos como o meia Basílio, do histórico time campeão do Corinthians no Paulista de 1977, acabaram praticamente extintos ao longo das décadas seguintes. A variação society, disputada em quadras de grama sintética, surgiu para preencher uma parte dessa lacuna. Agora, ela também corre riscos sé- rios. “Não há como competir com as construtoras”, diz Paulo Roberto Antunes, presidente da federação paulista da modalidade, comentando a extinção recente de complexos como o Bola Brasil, que ficava na Zona Sul.

Como não há muito a fazer em relação à multiplicação de edifícios na paisagem paulistana, os empresários começam a estudar possíveis alternativas para os sem-quadra. Uma tendência é a migração de algumas academias da capital para a periferia e municípios da Grande São Paulo onde os terrenos ainda são mais baratos. “Praticantes que têm maiores possibilidades financeiras começaram a comprar propriedades no interior para construir os próprios espaços e continuar jogando”, afirma Lenka Durisova, da Faberg Tennis Tour, empresa que agencia pacotes de viagens a torneios do circuito profissional pelo mundo. Alguns empresários do ramo estão partindo para soluções mais radicais. “Uma ideia interessante em estudo no momento é fazer parcerias para construir quadras em cima das garagens de carros”, diz Paulo Roberto Campos, presidente da Federação Paulista de Tênis. Parece um plano mirabolante, é verdade. Mas a situação chegou a um ponto em que só mesmo tendo muita criatividade para fazer com que a bola continue rolando ou quicando por aqui.

Fonte: VEJA SÃO PAULO