Polícia

Delírio e fuga na Zona Sul de São Paulo

Frequentador de clube de tiro e do coral de A Hebraica, o administrador Michel Goldfarb Costa causa pânico na cidade ao se sentir perseguido

Por: Claudia Jordão e Mauricio Xavier

Michel Goldfarb Costa - 2252
Costa se entregou após ficar dois dias escondido em tubulações de esgoto: ele disparou mais de vinte tiros, baleou duas pessoas, roubou quatro veículos e causou diversos acidentes (Foto: Apu Gomes/Julia Chequer/FolhaPress)

Há pouco mais de três meses, o administrador de empresas Michel Goldfarb Costa, de 35 anos, saiu de sua casa no Colonial Village, condomínio de alto padrão em Caucaia do Alto, distrito de Cotia, para comprar numa loja de Osasco um colete à prova de bala. Queria a proteção de uso restrito — para adquiri-lo, é necessário uma licença da Divisão de Produtos Controlados, da Polícia Civil — porque estaria sendo ameaçado de morte por alguns vizinhos. As desavenças surgiram por causa dos latidos incessantes dos dez cachorros vira-latas, recolhidos na rua, que ele mantinha em seu quintal. Em 22 de agosto, Costa chegou a registrar um boletim de ocorrência contra um dos moradores, acusando-o de atirar pedras em sua residência. Desde então, passou a acordar em pânico no meio da noite, certo de que sua casa estava sendo invadida.

Nesses momentos, vestia o colete (pelo qual pagou 1.250 reais) e ficava espreitando as redondezas. Na madrugada da última segunda (9), o medo se instalou novamente, mas dessa vez a reação foi explosiva. Por volta das 4h30 da manhã, ele ligou para o porteiro Leonildo de Albuquerque e disse que algumas pessoas haviam entrado em seu terreno. Um vigia foi até lá, mas não constatou nada de anormal. Ainda assim, Costa abandonou a residência às pressas. Não levou a carteira nem o celular e não avisou a namorada, Luciane Rodrigues, que dormia em outro quarto. Às 4h50, Albuquerque o viu deixar o condomínio em alta velocidade com seu Toyota Corolla blindado, vestindo o tal colete e empunhando uma arma. Costa dirigiu por quarenta minutos e, quando chegou à Avenida dos Bandeirantes, a 60 quilômetros de distância, começou a protagonizar cenas dignas do game Grand Theft Auto (o popular GTA), em que o jogador precisa cometer diversos crimes em série para somar pontos.

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Por cerca de 20 quilômetros, entre a Avenida dos Bandeirantes e a Marginal Tietê, ele disparou pelo menos vinte tiros com uma pistola calibre 380, baleou duas pessoas, roubou quatro carros em sequência e provocou quatro acidentes de trânsito. Perseguido pela polícia, foi visto correndo em direção à calha do Rio Tietê, próximo à Ponte da Casa Verde. Permaneceu sumido até a manhã da última quarta, quando seu advogado, Nicolau Aun Jr., o encontrou perambulando pelo Alto de Pinheiros, próximo à casa do pai, que não estava na cidade. À noite, entregou-se no 26º DP, no Sacomã, aonde chegou com ferimentos no olho esquerdo, na cabeça, no pé e nas pernas.

Contou que se escondera em tubulações de esgoto — dormiu enrolado no cobertor de um mendigo — e que o desvario agressivo pelas ruas da cidade não passou de uma tentativa de fuga. “Eu só atirei na fechadura dos carros, não tinha a intenção de acertar ninguém. Estava com medo e queria fugir.” Ele também alega que passou dois dias escondido porque continuava ouvindo a voz de seus supostos perseguidores. “Quero pedir perdão a todas as pessoas que coloquei em perigo”, declarou. “Temos de lutar por uma sociedade melhor, onde não seja preciso andar de carro blindado e colete”, completou, em um discurso quase tão alucinado quanto sua sequência de delitos.

Sem antecedentes criminais, Costa será indiciado por quatro tentativas de latrocínio, porte ilegal de arma, lesões corporais e um número indefinido de tentativas de homicídio — a polícia acredita que novas vítimas podem se apresentar. “Parece que ele teve um surto”, diz o delegado Marcos Antônio Manfrin. Os especialistas concordam. “Em tese, tudo indica que esse rapaz sofre de esquizofrenia paranoide, com ideias delirantes e alucinações auditivas e visuais”, declara a psicóloga Denise Gimenez Ramos, professora da PUC-SP. Seu advogado já admite que tentará atenuar a pena com a alegação de desequilíbrio. “Ele sofre de mania de perseguição”, afirma Aun Jr.

Clã Goldfarb - 2252
Do clã Goldfarb: o acusado e sua mãe, a arquiteta Elizabeth, que até sua morte, em 2004, tentou convencer o filho a fazer terapia (Foto: Reprodução/Renata Ursaia)

Formado em administração de empresas pela PUC-SP, Costa não tem emprego e vive com o dinheiro deixado pela família. Fala quatro idiomas e raramente viaja. A herança teria se multiplicado nos últimos anos com investimentos que fazia na bolsa de valores. Desde 2005, após a morte da mãe, ele mora sozinho. Segundo uma amiga, não se relaciona com o único irmão e sempre se queixa da ausência paterna. Recebia a visita da namorada só nos fins de semana. “Ele sempre foi muito tranquilo”, diz Luciane. “Nós nos conhecemos há sete anos e namoramos há quatro.” Suas raras atividades sociais se resumem a idas eventuais a um clube de tiro na Lapa e aos ensaios mensais de dois corais do clube A Hebraica, o qual frequenta há oito anos. Vaidoso, gosta de fazer musculação e esteira ergométrica em casa, onde a polícia apreendeu uma pequena quantidade de maconha, mas não encontrou remédios de venda controlada. 

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Objetos de Michel Goldfarb: a carteira do clube de tiro, o registro do colete à prova de bala e o equipamento (Foto: Mauricio Xavier)

De origem judaica, ele pertence a uma conhecida família paulistana. É filho da arquiteta Elizabeth Goldfarb (ela assinou inúmeros projetos na capital nos anos 90) e do professor Carlos Roberto Zibel Costa, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. O avô materno, Szymon, e o tio Milton foram os fundadores da construtora Goldfarb, vendida em 2009. Outro tio, José Luiz, é curador do Prêmio Jabuti e um dos diretores do A Hebraica. “Ele sempre foi isolado, tinha dificuldade de se relacionar e se manter nos empregos”, afirma esse tio. Há anos a família tenta convencê-lo a procurar tratamento — o quadro piorou com a morte de Elizabeth, em 2004. “Minha irmã tentava negociar a ida dele à terapia em troca de presentes, mas Michel nunca a atendeu.”

CRIMES EM SÉRIE

A ação se estendeu por 20 quilômetros e durou trinta minutos 

A sequência começou na Avenida dos Bandeirantes, próximo ao número 3600, local em que Costa abandonou seu Toyota Corolla (provavelmente por causa de um pneu furado), deu três tiros na direção de um Chevrolet Meriva (um táxi) e o roubou.

Com o Meriva, bateu em um Fiat Brava e atingiu um Fiat Idea na Avenida Presidente Tancredo Neves, esquina com a Rua Nossa Senhora das Mercês. Saltou do carro e atirou em um Ford Ecosport e em um Renault Logan para levá-los.

Sem conseguir retirar os motoristas dos veículos que abordou, passou a atirar a esmo, acertando pelo menos um carro, um Chevrolet Corsa. Em seguida, roubou um Volkswagen Polo que estava alguns metros atrás do local do acidente.

Dirigiu o Polo por alguns quarteirões e atingiu a traseira de um ônibus da companhia Via Sul que trafegava próximo ao cruzamento com a Rua Vergueiro. Saltou do carro e, sem efetuar novos disparos, roubou um Ford Ka que estava por perto.

Foi visto novamente com o Ka já na Avenida do Estado, próximo ao entroncamento com a Radial Leste, onde colidiu com um Ford Ranger. Ali abandonou o veículo e o trocou por um Chevrolet Celta, que estava ao lado.

O delírio terminou na Marginal Tietê, na entrada da Ponte da Casa Verde, onde ele causou um acidente com um Chevrolet Kadett. Costa abandonou o Celta, pulou a mureta e correu em direção à calha do Rio Tietê. 

Fonte: VEJA SÃO PAULO