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São Paulo recebe a Copa do Mundo dos Refugiados

Torneio com dezesseis seleções celebra a diversidade cultural e une povos diferentes por meio de um único idioma: o futebol

Por: Ricardo Rossetto - Atualizado em

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Neste fim de semana, São Paulo voltou a receber jogos de Copa do Mundo. Desta vez, as partidas ocorreram longe dos gramados oficiais e dos holofotes das emissoras de rádio e televisão. No campo de terra da Comunidade Esportiva Glicério, no Centro, dezesseis seleções com jogadores da América do Sul, África, Oriente Médio e Ásia disputaram o título da primeira Copa dos Refugiados.

Organizado desde o começo do ano pelos próprios estrangeiros que moram na capital, a peleja internacional contou com o apoio da ONG Cáritas, do ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados) e da Cruz Vermelha. O uniforme dos jogadores e os materiais para a estrutura do evento foram arrecadados durante esse período.

Em um campeonato onde a maioria dos países são africanos e quase todos os jogos são clássicos, não houve partida fácil. No terrão, o que vale é vontade dos jogadores de não perder uma disputa de bola. Mas com o equilíbrio dos confrontos, o trabalho tático em equipe foi fundamental para os times que saíram vencedores.

A exceção foi com o time do Paquistão, onde o esporte mais tradicional é o críquete, jogado com as mãos. Com os jogadores mais velhos da competição, que incorporaram o espírito da seleção brasileira no jogo contra a Alemanha, a seleção asiática não conseguiu acompanhar o ritmo dos velozes atletas da República Democrática do Congo (que comemoravam seus gols com um triplo twist carpado), e tomaram três frangos (quer dizer, gols) ainda no primeiro tempo. Pelo formato do campeonato, quem perdia já estava fora. 

Vista como a equipe mais forte da competição, a Costa do Marfim fez uma partida emocionante com a Guiné Conacri por volta do meio-dia. O sol forte não incomodou os elefantes, que abriram o placar logo no começo da partida com um gol de cabeça do atacante João Desirée, que já havia atuado como atleta profissional no futebol da segunda divisão do seu país.

O segundo gol marfinense saiu em seguida, mas, na etapa complementar, os conacrianos empataram e levaram a disputa da vaga para os pênaltis. Foi aí que brilhou Sauaré Kamolet, ajudante de pedreiro e goleiro da seleção da Guiné nas horas vagas. Ele pegou o chute decisivo e levou seu time para as quartas de final. "Já me considero campeão depois dessa defesa", disse, enquanto era carregado pelos companheiros.

No domingo, a torcida estava maior, com dezenas de amigos e familiares dos jogadores que foram prestigiar os jogos decisivos. Camarões e Nigéria fizeram a grande final por volta das 17h de domingo (3). Os jogadores desses dois países mostraram muita qualidade no toque de bola e na marcação do adversário. Tivesse um olheiro de algum clube brasileiro, esses refugiados certamente ganhariam uma oportunidade no plantel dos atletas profissionais. Depois de empatarem por três a três no tempo regulamentar, a Nigéria sagrou-se a grande campeã durante a disputa de pênaltis. 

Entre as (diversas) bolas isoladas pra fora do campo, e uma ou outra dividida mais dura, o clima era de grande confraternização entre povos de culturas diferentes. Durante a Copa, o futebol foi o idioma universal que uniu essas seleções. Um golaço de humanidade. Como diz a letra do hino oficial da competição (assista ao clipe abaixo), “eu e você, vamos viver em paz, brigas e guerra, vamos deixar para trás / refugiados, nós somos capaz, discriminação não pode acontecer mais!”.

Babel boleira

O objetivo principal da competição é dar mais visibilidade a essas pessoas, que decidiram vir ao Brasil para se protegerem de situações de guerra ou de outras violências sofridas no seu país de origem, e que encontram dificuldades para se adaptar à nova língua e assim conseguir um bom emprego e moradia adequada.

Participaram da competição as seleções de Angola, Nigéria, Paquistão, República Democrática do Congo, Costa do Marfim Guiné Conacri, Serra Leoa, Burkina Faso, Mali, Colômbia, Afeganistão, Togo, Bangladesh, Síria, Iraque e Camarões.

De acordo com o Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE), 5 200 pessoas de 82 nacionalidades vivem hoje no país como refugiadas reconhecidas. 90% são homens entre 18 e 30 anos, e apenas 3% são crianças. São Paulo concentra 3 197 desses estrangeiros, sendo os congoleses os mais numerosos (223). 

Assista ao vídeo oficial da Copa dos Refugiados

Fonte: VEJA SÃO PAULO