Turismo

São Paulo conta com excursões que tratam sobre espíritos e assombrações

VEJA SÃO PAULO embarcou em uma excursão por pontos "mal-assombrados" da cidade

Por: Giovana Romani - Atualizado em

Toc, toc, toc. Por via das dúvidas, antes de embarcar em uma excursão repleta de histórias de espíritos e assombrações, é melhor tentar proteger-se dos maus agouros. Às 14 horas do último domingo, debaixo de um calorão de fazer inveja ao Coisa-Ruim, dezessete bravos caça-fantasmas partiram do Largo do Arouche rumo a uma jornada macabra. Batizado de São Paulo Além dos Túmulos, o passeio turístico cobre pontos paulistanos com memórias de arrepiar. "Temos uma proposta cultural", diz Carlos Roberto Silvério, dono da Graffit Turismo, empresa que promove o tour. "Mas todos se divertem bastante."

Entre os passageiros, nada de góticos, fãs de vampiros e afins. Grande parte das pessoas está motivada pela simples curiosidade de saber mais sobre o outro mundo. "Temos a necessidade de materializar as lembranças dos que já morreram", afirma a estudante Jaqueline Monteiro, que finaliza uma monografia sobre turismo macabro e veio de Quissamã, no estado do Rio de Janeiro, só para participar da excursão. A primeira parada do ônibus, decorado com tule branco e insetos de borracha, é a casa onde viveu Sebastiana de Mello Freire, na Rua Major Diogo, na Bela Vista. Dona Yayá, como ficou conhecida, foi considerada louca e permaneceu confinada ali entre 1925 e 1961. Hoje, o local abriga um centro cultural. Reza a lenda que vizinhos costumam ver um vulto vestido de branco passeando nos jardins da mansão.

Impressionados com a história de dona Yayá, os passageiros passaram a atribuir todo e qualquer barulho do ônibus a seu espírito, que estaria acompanhando a viagem. O silêncio toma conta do veículo tão logo chegamos ao próximo destino. Estamos em frente ao Edifício Joelma, cenário do mais trágico incêndio de São Paulo. Em 1974, 188 pessoas morreram, algumas saltaram em pânico e 345 ficaram feridas. A descontração é restabelecida quando o grupo aporta no Cemitério da Consolação. Durante a visita, a guia Ângela Arena dá explicações sobre arte tumular. No túmulo da patronesse do movimento modernista Olívia Guedes Penteado, por exemplo, ela mostra a escultura Sepultamento, de Victor Brecheret, premiada no Salão de Outono de Paris de 1923. "Muitas vezes temos de parar a andança por causa de um cortejo fúnebre que passa por nós", conta o monitor Felipe Becker. Cinqüenta minutos depois, de volta ao ônibus, observamos o Teatro Municipal, cujos pianos tocariam sozinhos na calada da noite e o Viaduto do Chá. "Ele também é conhecido como o "suicidório" municipal", brinca a guia Ângela, com dose extra de humor negro.

São quase 17 horas. O Beco dos Aflitos, no bairro da Liberdade, é a penúltima parada. Próxima ao antigo Largo da Forca, a ruela abriga a Capela dos Aflitos. Ali ficava um cemitério onde, até 1858, eram enterrados indigentes, criminosos e escravos. O último destino é um castelinho em estilo medieval na esquina da Avenida São João com a Rua Apa, no centro. Em maio de 1937, os irmãos Álvaro e Armando Reis, além da mãe deles, Maria Cândida, foram encontrados mortos na residência da família. Álvaro foi acusado de se suicidar após assassinar os parentes. Desde então, o castelo permanece jogado às traças ou aos fantasmas que o rondariam.

Fim da viagem. As "almas penadas" podem descansar em paz, já que o próximo tour está marcado só para o dia 14 de dezembro. Silvério planeja uma nova versão do roteiro em 2009. "Há lugares fora do centro expandido cheios de casos sinistros", afirma. Toc, toc, toc.

São Paulo Além dos Túmulos. Graffit Turismo. Rua Carlos Petit, 391, Vila Mariana, 5549-9569. R$ 30,00. www.graffit.com.br.

Fonte: VEJA SÃO PAULO