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São Paulo, a capital da velocidade

Dois eventos cheios de carros possantes, mulheres bonitas e ídolos do automobilismo reúnem mais de meio milhão de pessoas

Por: Edison Veiga e Rodrigo Brancatelli - Atualizado em

São Paulo, a capital da velocidade
São Paulo, a capital da velocidade (Foto: Veja São Paulo)

Os principais hotéis de luxo da cidade estão com os quartos reservados desde maio. Seguranças, copeiros e recepcionistas bilíngües foram contratados para reforçar o quadro de funcionários. Donos de restaurantes esfregam as mãos: a expectativa é que o movimento aumente a partir da semana que vem em 20%. As agências de modelo, que arrumam trabalho para cerca de 700 moças, também comemoram. Outubro, de fato, é um mês especial para São Paulo, principalmente para os paulistanos que têm gasolina correndo nas veias.

Cerca de 640 000 pessoas – o suficiente para encher oito estádios do Morumbi – devem acompanhar de perto as emoções do 35º Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1 e do 24º Salão Internacional do Automóvel. Dessas, 200.000 são turistas. "Isso significará um crescimento de 13% em relação ao ano passado", afirma Caio Luiz de Carvalho, presidente da São Paulo Turismo (SP Turis).

O GP Brasil, no próximo dia 22, terá um duplo atrativo: o campeonato será decidido aqui, na última corrida da temporada (a apenas 1 ponto da conquista, o espanhol Fernando Alonso, da Renault, está praticamente com as duas mãos na taça), e o alemão Michael Schumacher, com remotas chances de ganhar o título e maior detentor de recordes da Fórmula 1, deverá se despedir das pistas nessa tarde. Desde o mês passado, 10 000 profissionais trabalham em velocidade máxima para que tudo esteja tinindo no autódromo. Mesmo que a prefeitura tenha de pagar caro para ter o GP – neste ano foram gastos 22 milhões de reais –, trata-se de um ótimo negócio para São Paulo. De acordo com um levantamento da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), a cada 1 real investido na corrida, outros 3,20 entram na cidade.

O Salão do Automóvel, que acontece entre os dias 19 e 29, vai reunir nos 106 000 metros quadrados do Anhembi um total de 145 expositores. Calcula-se que os visitantes tenham de andar cerca de 2 quilômetros para ver todos os 500 carrões e um sem-número de acessórios, num passeio que pode se estender por mais de seis horas. O salão, que nasceu em 1960 com estrelas da época como o Rural e o Aero-Willys, é considerado atualmente o quinto maior do planeta. Neste ano, trará o que há de mais recente (e caro) entre os lançamentos mundiais, como a Ferrari 599 GTB, que mostrou sua cara pela primeira vez no Salão de Genebra em fevereiro, a nova geração do Audi TT e o cupê-conversível VW Eos, lançados lá fora, respectivamente, em maio e abril. Que ronquem os motores.

Uma operação de guerra, em que poucos detalhes são divulgados, é desfechada nos dias que antecedem um GP de Fórmula 1. Dizem que é por causa das preocupações de segurança que sempre cercam o evento. Tudo bem. Mas há também o medo de que uma equipe bisbilhote o trabalho da outra ou que segredos técnicos vazem para a imprensa. São Paulo voltará a ver tudo isso agora. Na última quarta, começaram a chegar os 22 carros oficiais e toda a parafernália das onze equipes que disputarão a corrida. Vieram 300 toneladas de equipamentos em contêineres transportados por aviões Jumbo. Mais de 120 carretas em comboios, escoltadas por carros de segurança, levaram tudo do Aeroporto de Viracopos, em Campinas, até o Autódromo de Interlagos. A partir de segunda (16), esses brinquedinhos para lá de caros – se estivesse à venda para o consumidor comum, um Fórmula 1 zero-quilômetro custaria, no mínimo, 3 milhões de dólares – serão montados e testados por um contingente de 800 mecânicos, engenheiros e outros profissionais das escuderias. Tudo isso para que os ajustes aerodinâmicos, motores e pneus rendam o máximo durante os 306 quilômetros do GP Brasil.

Paralelamente ao campeonato de pilotos, as equipes também disputam um título.– seus pontos são a soma do obtido pelos dois carros. Neste ano, a briga está acirrada entre Renault (195 pontos) e Ferrari (186). Mais uma decisão para o GP Brasil. A competição esquenta ainda o duelo entre as duas fornecedoras de pneus. Desde 2001, Bridgestone e Michelin travam um embate duro em busca dos melhores compostos. Como o desempenho dos dois carros favoritos é parecido, não raras vezes o resultado final depende dos pneus. Os Michelin têm rendido melhor em pista molhada, por exemplo, favorecendo a Renault de Fernando Alonso.

• GP Brasil de Fórmula 1. Autódromo de Interlagos. Sexta (20) e sábado (21), 11h às 12h e 14h às 15h; domingo (22), largada às 14h. Ingressos esgotados.

As máquinas...

Cada uma das trinta marcas presentes ao Salão do Automóvel gasta de 5 a 10 milhões de reais em seus estandes, onde serão apresentados 500 carros. Montadoras como Volkswagen, Renault e Porsche importam mão-de-obra especializada, vinda da Europa, e utilizam a mesmíssima estrutura em todos os grandes salões pelo mundo (dos móveis às roupas das modelos). Uma das principais atrações deste ano é a Ferrari 599 GTB Fiorano. No seu DNA esportivo está um motor de 12 cilindros capaz de ir de 0 a 100 quilômetros por hora em apenas 3,7 segundos e alcançar até 328 quilômetros por hora. É um carro quase inacessível, destinado a uns poucos aficionados cheios de dinheiro. Por aqui, o preço não foi definido. Na fábrica de Maranello, custa 311.000 dólares (670.000 reais). Entre os compactos, há o Toyota Fine-T Concept, um carro-conceito feito de material reciclável, com portas que parecem asas de gaivota e equipado com quatro câmeras de vídeo voltadas para fora. Elas transmitem tudo o que acontece ao redor do veículo para monitores localizados no painel. As quatro rodas do Fine-T chegam a ficar a 90 graus em relação ao carro, o que facilitaria a vida dos motoristas ao estacioná-lo em vagas apertadas.

• Salão do Automóvel. Pavilhão de Exposições do Anhembi. Avenida Olavo Fontoura, 1209, Santana, 3291-9156. Segunda a domingo, 13h às 22h. R$ 15,00 (crianças de 5 a 12 anos) e R$ 25,00. Até dia 29. A partir de quinta (19).

As beldades...

O primeiro Salão do Automóvel de São Paulo foi aberto em 26 de novembro de 1960, quando a indústria automobilística dava os primeiros passos no país. Participaram doze montadoras. Dois anos depois, a Volkswagen teve a idéia de convidar 22 jovens paulistanas para embelezar seu estande. Carros possantes e mulheres lindas. Estava montada a receita que atrairia mais de 6 milhões de pessoas nas quatro décadas seguintes. Neste ano, 700 modelos vão atuar como hostess nos estandes do salão. Na seleção, cada empresa entrevista de 100 a 200 candidatas para escolher cerca de vinte. Todas precisam ser altas (no mínimo 1,70 metro), ter desenvoltura para lidar com o público predominantemente masculino e não usar piercing. Os cachês variam de 120 a 190 reais por dia.

A estudante Danielle Bondarin, de 18 anos, que estréia no Salão do Automóvel, está mais nervosa com o assédio do que com o cansaço que oito horas em pé (de salto alto) podem lhe render. "Tem sempre alguém que fala: 'Se eu comprar esse carro, levo você junto para casa?'" Algumas modelos já dominam os macetes para driblar cantadas. "Faço um olhar assustado para os seguranças e eles vêm correndo me ajudar", diz Cristina Couto, 26 anos, que trabalhou em duas edições. Na Fórmula 1, a abundância de beldades que circulam pelo autódromo também é tempero para estimular o público. Neste ano, um site esportivo incumbiu-se da árdua tarefa de selecionar 22 modelos para embelezar o GP. Cada uma se posicionará ao lado de um carro até momentos antes da largada. No fundo, elas estarão lá para enfeitar o ambiente. "Nunca havia pisado no autódromo nem estou muito por dentro da Fórmula 1", conta Katia Dilago, de 22 anos, que, no grid, vai acompanhar o heptacampeão Michael Schumacher. Com macacão azul e amarelo, Talita Coluci, 18, ficará ao lado do atual campeão, Fernando Alonso. "É o mais bonito dos pilotos, mas não sei o que diria a ele se tivesse a chance de uma conversa", admite Talita, que não fala inglês nem espanhol.

Os fanáticos...

Paixão que virou negócio

O empresário Allan Cavallari não se esquece da primeira vez que visitou o Salão do Automóvel, em 1996, e viu uma Lamborghini Diablo preta, carro que ele só conhecia em miniaturas de ferro e pelas cartas do jogo Super Trunfo. "Foi uma das maiores emoções que já tive na vida", confessa. "Aquela carroceria me deixou apaixonado." Formado em direito, Cavallari abandonou a carreira e abriu uma loja de acessórios para veículos. Desde então, não perde uma edição do evento. "Preciso ir lá sentir o cheiro do couro dos bancos", diz ele, que afirma guardar álbuns com mais de 10 000 fotografias tiradas na feira. "Tenho uma queda especial por Porsches e por rodas cromadas. Esse é o meu vício."

Grudado na pista

Para ele, o GP Brasil começa beeeem mais cedo. Hiram Guidorizzi, engenheiro de 53 anos, é um dos setenta voluntários que fazem a sinalização da pista – os populares "bandeirinhas". Isso significa que, no próximo domingo (22), ele estará às 5 horas no autódromo. "Nosso trabalho não é só durante a corrida", explica. "Antes, precisamos ver se não há algo na pista, checar a visibilidade..." Este será o 14º GP de Guidorizzi. Seu coração de torcedor, que vibra com o automobilismo desde os anos 70, só não gosta do estilo polêmico de Michael Schumacher. "É o Dick Vigarista do automobilismo", diz ele, referindo-se ao vilão do desenho animado Corrida Maluca.

Primeiro a entrar, último a sair

Alessandro Molina, de 34 anos, ainda guarda pôsteres, chaveirinhos e outros brindes que ganhou nas sete edições do salão a que compareceu. Ele é daqueles que chegam antes de os portões se abrirem, sabe de cor todos os lançamentos e faz questão de apalpar o carro. Nem leva os filhos, para não atrapalhar sua tietagem diante das máquinas. "Só saio de lá quando os seguranças me expulsam", diz. "Também carrego minha câmera, para registrar tudo e rever depois."

Ferrarista número 1

A ansiedade era tanta que, tão logo as vendas começaram, o economista e ferrarista apaixonado José Faria Júnior desembolsou 1 485 reais para garantir lugar no setor D de Interlagos para o GP deste ano. Resultado: foi o primeiro a comprar ingresso. Sua paixão pela escuderia italiana não se resume às quarenta miniaturas de carrinhos e dezenas de buttons, chaveiros e pôsteres. "Em minha garagem, só entra carro Fiat, que é a proprietária da Ferrari", garante ele, dono de um Palio 2005. "Minha mulher reclama, mas eu não admito outra marca."

Os ídolos...

Praticamente bicampeão

O atual campeão Fernando Alonso deve chegar à cidade na quarta-feira, com a noiva, Raquel del Rosario, cantora de uma banda espanhola. Eles ficarão na suíte presidencial de 360 metros quadrados no 27º andar do hotel Hilton, no Brooklin. Alonso não fez pedidos especiais (no ano passado, ele mal saiu do hotel e tomou café-da-manhã com os outros hóspedes). Se de fato o piloto conquistar o título novamente, a celebração será por aqui mesmo: com uma comemoração privê da Renault no hotel, uma grande festa poderá rolar na boate Lotus, no Brooklin Novo.

Sossego em casa

Nascido no bairro de Interlagos, em 1972, ano do primeiro Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1, Rubens Barrichello acompanhava as corridas da casa onde sua avó mora até hoje, vizinha ao autódromo. Atualmente na Honda, uma escuderia média, ele não alimenta mais o sonho da primeira vitória em casa. "Seria bom estar no pódio, o que ainda não consegui neste ano", diz. Além de ficar com a família, ele pretende jogar golfe no São Paulo Golf Club, em Santo Amaro.

O novo queridinho

Aos 25 anos, o paulistano Felipe Massa, piloto da Ferrari, é a grande esperança dos torcedores brasileiros. Em São Paulo desde a última terça, está hospedado na casa da namorada, a estilista Raffaela Bassi, e planejava passar o sábado e o domingo no Guarujá. Durante a semana, cumpre diversos compromissos com a equipe e patrocinadores. Ele não é de badalar, mas costuma ser visto nos restaurantes da Rua Amauri e no Gero, nos Jardins.

Quase aposentado

Nas catorze vezes em que correu em São Paulo, o heptacampeão Michael Schumacher praticamente só abriu brechas em sua agenda para jogar uma bolinha com os amigos e almoçar na churrascaria Fogo de Chão. Neste ano, no entanto, deve ser diferente. No domingo, haverá duas comemorações para celebrar sua anunciada aposentadoria: uma festa oferecida pela Ferrari e pela Fiat no hotel Hyatt, onde ele deve se hospedar, e uma boca-livre para 3 000 pessoas no Estádio do Morumbi. Nesta última, nem o ferrarista mais otimista aposta na presença de Schumi.

Fonte: VEJA SÃO PAULO