Especial

São Paulo é, atualmente, cenário de cinco novelas e cinco filmes

Por mês, a CET recebe 240 solicitações para acompanhar produções audiovisuais

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Já é quase lugar-comum referir-se a São Paulo como uma cidade de trânsito infernal apesar das avenidas amplas, emolduradas por edifícios que, não obstante, dificultam a visão do céu. Este, por sua vez, freqüentemente parece cinzento devido à poluição. Interessante, no entanto, é constatar que esse caos também inspira e tem se transformado cada vez mais em cenário de programas de televisão e filmes. Guardadas as devidas proporções, viramos neste ano uma espécie de Hollywood à brasileira, numa reviravolta que deixa para trás as belas e ensolaradas praias do Rio de Janeiro e do Nordeste – costumeiramente escolhidas como locação. As novelas Sete Pecados e Duas Caras, exibidas pela Globo, Amigas e Rivais, do SBT, Caminhos do Coração, da Record, e Dance Dance Dance, da Band, transmitem cartões-postais tipicamente paulistanos para milhões de telespectadores de todo o país. Entre os representantes da sétima arte constam Não por Acaso, A Via Láctea e os inéditos Blindness, Linha de Passe e O Signo da Cidade, com ações que se passam total ou parcialmente na metrópole.

Claro que toda essa visibilidade tem seu ônus. Vias bloqueadas, movimentação de celebridades e equipes de produção agitadas entre holofotes e megafones se tornaram cena comum. A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) recebe 240 solicitações por mês para acompanhar produções audiovisuais. Sua missão: evitar que entre um "corta!" e um "ação!" haja dezenas de transeuntes furiosos com uma rua fechada, entre outros contratempos. Autorizações para rodar cenas de filmes são centralizadas pelas subprefeituras. E é com entusiasmo que o secretário executivo do Escritório de Cinema de São Paulo (Ecine), Julio Pessoa, encara a pilha de pedidos que ocupa sua mesa. "O paulistano está aprendendo a tolerar a rotina de filmagens, pois entende que, em pouco tempo, isso se reverterá em lucro para a própria cidade", afirma o homem que dá o sinal verde a produtores e diretores.

Desde Beto Rockfeller (1968), com tomadas nas ruas Augusta e Teodoro Sampaio, até as tramas escritas por Silvio de Abreu, como Rainha da Sucata (1990) e Belíssima (2006), ver a capital paulista na telinha sempre foi uma exceção em que a regra era o Rio de Janeiro. "A mistura de raças e culturas é a fonte para minha criação", diz Abreu. "Procuro mostrar que o povo daqui, mais que o Ibirapuera, a Paulista ou a bolsa de valores, é o grande show." Ele fala com conhecimento de causa. Desde 1981, já ambientou doze de suas tramas em lugares tão diversos quanto Santana e os Jardins. Comum no cinema, o visual urbano tem entre os mais belos exemplos os contrastantes preto-e-branco de São Paulo S/A (1965), de Luiz Sérgio Person, hoje ainda mais interessante para quem quiser conferir quanto a paisagem mudou nas últimas décadas, e Terra Estrangeira, dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas, em 1995. Por falar na dupla, ela está na área novamente. Eles adotaram pontos da Paulicéia para as tomadas do longa Linha de Passe, em fase de produção. "A história tem cinco personagens, e o sexto é São Paulo", adianta a carioca Daniela, paulistana por adoção há 21 anos e totalmente devota dos seus cenários. O polêmico Elevado Costa e Silva, o Minhocão, é seu preferido. Para o documentário Bem-Vindo a São Paulo, projeto de Leon Cakoff e Renata Almeida que reúne dezessete curtas sobre a cidade assinados por cineastas de vários países, ela focou sua lente durante seis minutos no mastodonte de concreto de 3,4 quilômetros de extensão. "Sempre fui muito mais fascinada por paisagens construídas pela beleza natural", conta. "Ela mostra as cicatrizes do lugar."

Humanizar as agruras foi o objetivo do ator e diretor Carlos Alberto Riccelli. Seu longa, O Signo da Cidade, usou mais de sessenta locações diurnas e noturnas para mostrar a relação de solidão e solidariedade entre São Paulo e seus habitantes. "Fotografei uma cidade dura, mas onde se vê beleza", diz. Quem também buscou poesia sem descaracterizar a vida real foi Lina Chamie, diretora de A Via Láctea, em que o protagonista, vivido pelo ator Marco Ricca, relembra momentos de um relacionamento recém-acabado quando passa por pontos da cidade. "O filme acontece num corpo-a-corpo com São Paulo e procurei filmar de maneira muitas vezes semidocumental, roubando cenas cotidianas e assim de alguma forma preservando ritmo e vigor", declara Lina.

No comentado Blindness, trabalho de Fernando Meirelles que movimentou o dia-a-dia dos paulistanos, São Paulo será o cenário fictício onde se desenrola a ação do filme, adaptado do livro Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago. As agitadas filmagens verificadas na Praça Vilaboim, em Higienópolis, ou na região central, principalmente perto do Viaduto do Chá e do Teatro Municipal, não reverenciarão a capital. Mesmo assim, a passagem de astros do cinema americano como Julianne Moore, Mark Ruffalo e Danny Glover por aqui mexeu com muita gente. Inclusive com o próprio Meirelles, que em seu blog fala, emocionado, sobre a rotina de produção. "Já eram 4h37 da madrugada, e os pardais começaram a piar. Ouvir passarinhos cantando antes de dormir, em geral, me deixa deprimido. Comecei a rir, de bobeira, arranquei o fone de ouvido e desliguei tudo depois de catorze horas de filmagens na rua", escreveu o paulistano, no site. Em breve, numa tela perto de você.

Oba! Não é de mentirinha!

Quem mora em São Paulo reconhece no ato os bairros de mentirinha montados em estúdio em algumas novelas. Nos primeiros capítulos de Sete Pecados, isso não rolou. "Ganhei uma cidade de verdade para gravar", brinca o diretor Jorge Fernando, referindo-se a locações como o Parque do Ibirapuera, o Mercado Municipal (no topo) e a Represa de Guarapiranga. Autor da trama, Walcyr Carrasco conta que fez questão de não incluir somente cartões-postais típicos, como o Museu do Ipiranga (acima). Assim, colocou na telinha prédios como o do Instituto Tomie Ohtake, em Pinheiros, e os ultramodernos edifícios da Avenida Luís Carlos Berrini. "Quis enfatizar as belezas construídas", conta. "Tudo para mostrar como nossa cidade é linda."

Rodrigo Santoro na Santa Ifigênia

Poucas produções recentes reproduzem São Paulo com tanto impacto e criatividade como Não por Acaso, filme de Philippe Barcinski protagonizado por Rodrigo Santoro (no topo), Letícia Sabatella e Leonardo Medeiros (na foto acima, com Rita Batata). Um Elevado Costa e Silva transformado em passarela de lazer e longe dos engarrafamentos é incomum de ser visto nas telas. São Paulo também oferece uma paradisíaca vista como a da Pedra Grande, no Parque da Cantareira, e, pelo menos na tela, a região central pode ficar imune à intensa movimentação dos pedestres. Os espectadores do longa de estréia de Barcinski se surpreenderam.

Passinhos de dança em cima do busão

Já pensou se você, esperando um ônibus na Praça Ramos de Azevedo, cruzar com um bando de adolescentes dançando como se não houvesse amanhã? Não se assuste, deve ser a tchurminha animada de Dance Dance Dance, novela infanto-juvenil da Band, que também teve tomadas na Estação Júlio Prestes e no Teatro Municipal. "Mas sempre temos o cuidado de não incomodar a população", garante o diretor, Del Rangel

Volta por cima em Sampa

Moça direita e inocente, Maria Paula cai num golpe e fica na rua da amargura. A personagem, vivida pela carinha de anjo Marjorie Estiano (na foto entre Totia Meirelles e Vanessa Giácomo), muda-se para a capital paulista determinada a se reerguer. É assim em Duas Caras, novela das 8 que se passa majoritariamente no Rio de Janeiro, mas tem cenas no Largo do Arouche, na Estação da Luz e no Hospital e Maternidade São Camilo

Mutantes no parque

Apesar de ter uma central de produção no Rio de Janeiro, a Record apostou em locações paulistanas na novela Caminhos do Coração. A trama, que gira em torno de uma clínica de genética criadora de mutantes, registrou cenas no Viaduto Santa Ifigênia e no Ibirapuera, como esta da atriz Karina Bacchi

Uma São Paulo real, outra cenográfica

Em várias cenas de A Via Láctea, de Lina Chamie, Heitor (personagem de Marco Ricca, na foto ao lado com Alice Braga) relembra momentos felizes ao lado da ex-namorada em paisagens como a Avenida Paulista e o Edifício Martinelli. Por outro lado, em Blindness, de Fernando Meirelles, o Viaduto do Cháe as ruas de Higienópolis ficam numa cidade fictícia.

Fonte: VEJA SÃO PAULO