Calamidade

São Luiz do Paraitinga sofre com as chuvas do início de ano

Enchente sem precedentes devasta o centro histórico da encantadora cidade e deixa 700 pessoas desalojadas

Por: Giuliana Bergamo - Atualizado em

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Vista aérea de São Luiz do Paraitinga, no dia 2: metade dos imóveis foi atingida pela cheia (Foto: Lucas Lacaz Ruiz/A13)

Era uma vez uma cidade chamada São Luiz do Paraitinga, berço do sanitarista Oswaldo Cruz (1872-1917). Encravada no Vale do Paraíba, a 187 quilômetros de São Paulo, ela ficou famosa por abrigar um casario de 437 imóveis dos séculos XVIII e XIX tombados pelo Condephaat, além de um dos carnavais de rua mais concorridos do estado. Como há apenas duas dezenas de hotéis e pousadas, parte dos 11 000 habitantes costuma alugar, desde 1980, suas residências para receber foliões. Na mais recente edição do festejo, estima-se que 140 000 pessoas tenham pulado pelas vielas de paralelepípedos emolduradas por casinhas de fachada colorida. Neste ano, porém, não vai ter festa. No último dia 1º, o cenário foi destruído pela maior enchente já registrada ali. O nível do Rio Paraitinga, que atravessa a cidade, subiu 10 metros acima do normal. A água cobriu o telhado dos imóveis. Como muitos deles eram construídos com taipa de pilão e pau a pique, estruturas que levam principalmente barro em sua composição, as paredes amoleceram e vieram abaixo. A igreja matriz foi aniquilada. Estima-se que 300 edificações — residências, padarias, supermercados, farmácias, consultórios odontológicos e até o prédio da prefeitura — tenham sido total ou parcialmente destruídas.

Na quarta-feira, a água baixou e deixou para trás lodo e um forte cheiro azedo. Desde então, voluntários e funcionários dos governos municipal e estadual têm se mobilizado para limpar o que restou e avaliar como será possível reerguer a cidade. O governo do estado anunciou que deve investir 10 milhões de reais em ações emergenciais para to do o Vale do Paraíba, além da reconstrução e reforma de unidades de saúde e liberação de crédito para a população. A diretoria da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP criou uma comissão para ajudar na reconstrução do patrimônio arquitetônico. “Com base na planta dos imóveis destruídos, podemos refazer algumas edificações com as mesmas características das originais e estrutura mais resistente, como o concreto”, diz a presidente do Condephaat, Rovena Negreiros.

Embora a chuva que vem caindo na região tenha proporções nunca registradas, especialistas acreditam que um dano tão grande poderia ter sido evitado. “O que mais nos indigna é que já temos conhecimento e condições técnicas suficientes para evitar catástrofes assim”, afirma Márcia Hirota, diretora da SOS Mata Atlântica. “Mas as autoridades continuam ignorando as orientações de identificar e isolar zonas de risco, além de impedir a ocupação de áreas de preservação permanente.” Para ela, nenhum município do estado está 100% de acordo com as normas ambientais e, portanto, livre de um desastre. “As cidades do Litoral Norte são as mais vulneráveis.”

ENTENDA O DESASTRE

O que aconteceu

No dia 1º, o Rio Paraitinga, que atravessa a cidade, transbordou e ficou cerca de 10 me - tros acima de seu nível normal. A cheia invadiu metade dos imóveis. Pelo menos seis dos 24 edifícios integralmente tombados pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) foram destruídos, incluindo a igreja matriz, que tinha cerca de 200 anos. A população ficou sem água e sem luz até a última quarta. Cerca de 700 pessoas estavam fora de suas casas, os telefones ainda não haviam voltado a funcionar e uma pessoa continuava desaparecida na quinta-feira.

Os motivos da catástrofe

O que aconteceu ali é resultado de um somatório de fatores. Um deles é a ocupação desordenada da região, que teve início na segunda metade do século XVIII. Desde então, a mata ciliar do Rio Paraitinga foi completamente destruída em seu trecho urbano. Esse tipo de vegetação tem a função de conter enchentes e proteger o leito contra dejetos que deixam sua calha mais rasa. Desde a década de 90, as cheias têm se tornado frequentes. No ano passado, o rio transbordou seis vezes. A situação ficou pior na enchente do dia 1º porque choveu muito acima do normal. Para se ter uma ideia, em dezembro foram registrados 602 milímetros de chuva na região, 322 acima do esperado para o período. A água destruiu os imóveis históricos porque eles são feitos principalmente de taipa de pilão e de pau a pique, tipos de parede que levam barro em sua composição. Ao contrário das de concreto, quando encharcadas essas estruturas amolecem e se desfazem. Além disso, muitos imóveis estavam carentes de reforma. Moradores estimam que quinze deles aguardavam aprovação de sua reforma pelo Condephaat, cuja última vistoria na cidade foi realizada em setembro de 2008.

O que se deve fazer

É preciso limpar a calha dos rios da Bacia do Paraíba do Sul, da qual o Paraitinga faz parte, recuperar as matas ciliares e construir novas represas de contenção. Além disso, as áreas de risco têm de ser identificadas e isoladas. Os planos diretores dos municípios da região também devem ser revistos com o objetivo de impedir a ocupação de áreas de preservação permanente, como a margem dos rios, e garantir a proteção de edifícios históricos.

Fontes: Defesa Civil, SOS Mata Atlântica e Departamento de Águas e Energia Elétrica

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Fonte: VEJA SÃO PAULO