Carros

São Bernardo do Campo: surpresas na linha

Indústria automotiva concentra profissões específicas, curiosas e inusitadas

Por: Tomás Chiaverini

Linha de montagem da Mercedes-Benz, em SÃO BERNARDO - 2232a
Douglas Santos Brito: o operário é responsável por alimentar a produção de motores de caminhões da Mercedes-Benz (Foto: Cida Souza)

Em São Bernardo do Campo, um dos maiores polos produtores de veículos do Brasil, há quatro grandes montadoras: Ford, Mercedes-Benz, Scania e Volkswagen. Elas se instalaram entre as décadas de 50 e 60. Além de impulsionar a economia do município, a pujança dessa indústria sempre foi um orgulho de seus moradores. Atualmente, as empresas do setor automobilístico da cidade têm uma capacidade de produção anual de 900.000 veículos e empregam mais de 35.000 pessoas.

+ Conheça restaurantes, bares e comidinhas no ABC

+ Avenida Europa reúne os carros mais cobiçados do mundo

Entre os operários, a maioria cumpre funções típicas de uma linha de produção, como apertar parafusos, montar o motor ou cuidar do acabamento da pintura. Um time deles, porém, cuida de processos bem mais específicos. É o caso do motorista de carrinho elétrico, que passa o dia abastecendo a linha com peças, da profissional encarregada de cheirar pedaços de carro, entre outros.

Conheça como é a rotina curiosa de alguns funcionários nos quadros a seguir.

O dono das peças

Se o operador de logística Douglas Santos Brito esquecer um único parafuso, pode parar toda a linha de montagem. Seu trabalho, apesar de simples, é um dos mais importantes da fábrica. Ele é o responsável por alimentar a produção. Para isso, dirige um pequeno veículo elétrico, atrelado a uma série de carrinhos que transportam itens diversos. O operário trabalha numa linha de montagem de motores de caminhões da Mercedes-Benz e tem o desafio de manter o estoque sempre em níveis ideais. Se for muito rápido, peças se acumulam e falta espaço. Se for muito lento, a produção corre o risco de parar por falta de material. Faz cerca de dez viagens por turno, cada uma com aproximadamente quarenta peças. Passa o dia avançando e dando ré com seu “bólido”, que tem só duas marchas (primeira e ré), acionadas por uma chave no painel. “Depois do trabalho, na hora em que volto para casa, estou tão acostumado com isso que me atrapalho com o meu próprio carro”, diz.

Funcionário da Mercedes-Benz, em São Bernardo - ESPECIAL BAIRROS 2232a
Mercedes-Benz: a principal atividade de Luís Antonio da Silva é guiar os ônibus para testá-los (Foto: Cida Souza)

O motorista exigente

A principal atividade de Luís Antonio da Silva é guiar ônibus da Mercedes-Benz. Mas tem a vantagem de que seus passageiros nunca reclamam, não ficam com pressa nem o distraem para falar de futebol. São bonecos de plástico cheios de água. Dirigindo sozinho, Silva faz o mesmo percurso que os veículos de linha. Para nos pontos, abre e fecha as portas. Os veículos que comanda são protótipos, e seu objetivo é avaliar como eles se comportam em condições reais. “Se noto algum defeito, faço um relatório recomendando os ajustes”, afirma. Por dia, roda aproximadamente 140 quilômetros. O trabalho é solitário, mas divertido. Uma ou duas vezes por semana algum passageiro desavisado embarca no coletivo. E não são poucas as vezes em que o motorista tem de se levantar para ajudar velhinhas perdidas a descer em segurança.

Funcionária da Volkswagen, em São Bernardo - ESPECIAL BAIRROS
Osmóloga veicular da Volkswagen: Maria de Lourdes é capaz de perceber o odor de diversos componentes dos automóveis (Foto: Mario Rodrigues)

Olfato apurado

Quando entra num veículo recém-saído da linha de montagem, Maria de Lourdes Feitosa de Franco sente muito mais do que cheiro de carro novo. É capaz de perceber, separadamente, o odor de praticamente todos os componentes internos: tapetes, bancos, volante e revestimentos diversos. A habilidade foi desenvolvida ao longo de dezesseis anos na função de osmóloga veicular da Volkswagen. Além de testar automóveis prontos, ela cheira também amostras das peças da cabine. Para serem submetidas ao nariz da profissional, as partes vão para aquecimento numa estufa, a 80 graus, simulando a temperatura de um carro estacionado ao sol. “Em geral, os componentes são aprovados”, diz ela. Mas já aconteceu de toda a linha de montagem ter de parar para trocar uma peça que, literalmente, não cheirava bem.

Carros - São Bernardo - ESPECIAL BAIRROS 2232a
André Rucci: seu trabalho é colocar o conjunto de pneu e roda nos carros (Foto: Mario Rodrigues)

O rei dos pit stops

Filho de um operário da indústria automotiva, André Rucci sempre quis seguir os passos do pai, que se aposentou com algum conforto financeiro. O sonho se realizou há pouco mais de um ano, quando ele foi contratado pela Ford. Seu trabalho é colocar o conjunto de pneu e roda nos carros que, à velocidade de um por minuto, passam suspensos na linha de montagem. Depois, com uma máquina que parece uma arma de filme de ficção científica, parafusa as quatro porcas ao mesmo tempo. Junto com outro operário, monta, por dia, 640 rodas. Apesar de não ter intenção de passar a vida toda nessa rotina, tem orgulho da profissão. “Fico acabado no fim do expediente, com muito cansaço, mas não acho ruim o trabalho”, conta. Certa vez, após um dia especialmente estressante, foi tirar dinheiro no caixa eletrônico e teve a impressão de que a máquina estava se mexendo, como se desfilasse pendurada na linha de montagem.

Fonte: VEJA SÃO PAULO