Era assim...

Santana é um dos bairros mais antigos da Zona Norte

Colonizada a partir de uma fazenda de jesuítas, região se desenvolveu no século XX aproveitando o Tietê para diversão e esporte

Por: Clayton Melo - Atualizado em

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Um caminho estratégico de comércio entre a então Vila de São Paulo e o interior do Brasil colonial. Assim nasce Santana, um dos bairros mais antigos da Zona Norte. A fazenda de Sant’ana, propriedade da Companhia de Jesus, se estendia do Mosteiro da Luz à Serra da Cantareira. O terreno começou a ser ocupado por volta de 1560, mas a sede só foi construída em 1734, onde hoje está localizado o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva do Exército (CPOR), na Rua Alfredo Pujol. No século XVIII, o Rio Tietê era passagem obrigatória para as monções, as frotas de canoas que utilizavam as vias fluviais para abastecer povoados. “Os jesuítas criaram um canal de acesso para escoar mercadorias para Atibaia e Minas Gerais”, explica Renato de Mattos, professor de história do Brasil nas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) e doutorando pela USP com um estudo sobre as relações mercantis no período colonial.

Com a expulsão dos religiosos pelo marquês de Pombal, a partir de 1758, as terras passaram para a coroa portuguesa e acabaram divididas em pequenas e médias propriedades. Uma delas, batizada de Solar dos Andradas, pertencia a José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência do Brasil. “A residência serviu de palco para várias articulações políticas do período. Ali, foi redigida a representação paulista ao governo imperial, que contribuiu para dom Pedro I declarar o Fico e, mais adiante, a Independência”, diz Mattos.

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Salto ornamental: prática comum em 1927 (Foto: Acervo Clube Esperia)

Os alagamentos provocados pelas cheias do Tietê mantiveram Santana pouco habitada no século XIX. “O governo imperial teve de incentivar os imigrantes a ocupar a área”, afirma o diretor do Departamento do Patrimônio Histórico de São Paulo, Walter Pires. Alguns procuraram a região pelo clima mais ameno, próximo à serra. Ainda é possível conferir algumas edificações da época, como o Palacete Baruel, construído em 1879 na Rua Voluntários da Pátria, e uma casa também em estilo nórdico, que hoje abriga a Biblioteca Municipal Narbal Fontes, na Rua Conselheiro Moreira de Barros. Ambos pertenciam ao comerciante Francisco Antonio Baruel.

A ocupação só se intensificou a partir do século XX. Em 1893, a Companhia Cantareira de Esgotos precisou captar água da serra para abastecer o reservatório da Consolação. A medida mais barata e rápida para a locomoção de material e funcionários foi a construção de uma linha férrea. “O chamado trenzinho da Cantareira permitiu maior povoação de Santana. Antes, o bairro se restringia às ruas Alfredo Pujol e Doutor César”, diz Mattos. O percurso, que seguia da Estação da Luz até a serra, com ramais que chegavam ao Jaçanã — imortalizado por Adoniran Barbosa em “Trem das Onze” —, serviu de inspiração para a Linha Azul do Metrô, inaugurada em 1974.

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Palacete Baruel na década de 40: estilo nórdico (Foto: Acervo Pessoal de Maria Isabel Romero)

Nas margens do Tietê surgiram clubes que usavam o rio para esportes e recreação. Um dos mais antigos, fundado em 1899 por italianos, o Esperia tinha o remo como carro-chefe. “O rio ainda proporcionou o desenvolvimento da natação”, conta André Fraccari Bertin, do arquivo histórico da agremiação. Um exemplo é a Travessia de São Paulo a Nado, considerada a São Silvestre das águas, realizada entre 1924 e 1944. Os atletas nadavam da Ponte da Vila Maria à sede do Esperia. Navegar por ali se manteve como opção de lazer até a década de 70. “Nossa última regata ocorreu em 1972, como um evento simbólico, não competitivo.” A poluição se tornou um perigo para a saúde dos atletas.

Morador da região há cinquenta anos, Vital da Costa defendeu o clube de 1958 a 1976. Disputou seis campeonatos paulistas e um brasileiro e sente saudade dos tempos de remo. “Participei de muitas competições, e o rio era relativamente limpo, com peixes pulando para dentro do barco”, lembra. Com a construção da Ponte das Bandeiras, em 1942, Santana passou a ser a principal ligação da Zona Norte com o centro, ampliando o crescimento do bairro. “O acesso se dava por meio de bondes, e as ruas tinham paralelepípedos, com poucos carros”, recorda o aposentado José Antonio Silveira Ribeiro.

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Antonio Roque Mazi, 84 anos, aposentado (Foto: Raul Zito)

65 anos morando em Santana

“Em 1945, saí sozinho de Descalvado, no interior do estado, onde morava com meus pais e mais sete irmãos, e vim para a cidade grande. Cheguei de trem, na Estação da Luz, e fui para a casa do meu tio, que morava na Rua da Coroa, ao lado da Avenida Cruzeiro do Sul. Na época, para atravessar o Rio Tietê era preciso usar uma balsa de madeira. Em 1947, trouxe minha família do interior; moravam todos no porão. Em 1950, comprei um terreno numa vila conhecida agora como Santa Luzia. De lá para o centro, só havia um meio de transporte: o bonde que saía do Pastorinho ( Rua Conselheiro Moreira de Barros). A caminhada durava quase uma hora, todos os dias. O desenvolvimento demorou muito. Onde hoje é o cruzamento da Rua Voluntários da Pátria com a Avenida Engenheiro Caetano Álvares, passava um rio. Pelo menos oito conhecidos meus morreram afogados em enchentes nessa área.”

Fonte: VEJA SÃO PAULO