Cosméticos

Santa Maria Novella é sinônimo de tradição e beleza

Fundada pelos frades dominicanos em 1612, a botica florentina atrai clientes como a atriz Catherine Deneuve e o estrelado chef Alain Ducasse

Por: Simone Esmanhotto, de Florença

Farmácia Santa Maria Novella - LUXO - 2229a
Farmácia aberta pelos frades para atender pacientes: mobiliário e afrescos do séc. XVII (Foto: Divulgação)

Vinte e um de junho. É o primeiro dia do verão em Florença. Com a brisa morna soprada do Rio Arno, a sensação térmica ultrapassa os 30 graus centígrados. Turistas se refestelam com sorvete de amêndoa, best-seller da Baroncini, uma das gelaterias favoritas da cidade italiana, berço do Renascimento. Caminhar pelas ruelas de pedras rústicas e entre construções de terracota, amareladas sob o sol da Toscana, é tropeçar em reproduções de David (a original, esculpida por Michelangelo, pronta em 1504, fica na Galleria dell’Accademia, também na cidade).

Luxo 2229 - Santa Maria Novella - fatias de laranja
Fatias de laranja e rosa mosqueta: colocadas uma a uma nos tabletes de cera (Foto: Divulgação)

Nada, no entanto, se aproxima tanto de uma viagem no tempo quanto provar um refresco 100% florentino, com um ingrediente de 400 anos: Acqua di Santa Maria Novella, bebida com teor alcoólico de 70%, à base de balsamita, menta e canela. Basta diluir duas colheres de chá num copo de água, e o calor vai mesmo embora. “Seguimos a fórmula original”, conta Gianluca Foà, diretor da Officina Profumo-Farmaceutica di Santa Maria Novella, a mais antiga perfumaria em funcionamento — a inglesa Floris é de 1730 e a francesa Houbigant, de 1775. Credita-se à botica de Florença a ideia de trocar o óleo por álcool na composição de colônias, abrindo caminho para as fragrâncias atuais.

Luxo 2229 - Santa Maria Novella - botões de rosa
Botões de minirrosas importados do Irã: um dos poucos ingredientes naturais que não vêm de Florença (Foto: Divulgação)

A água “batizada” resume, num frasco de 25 mililitros, a origem dessa perfumaria-farmácia, numa história que se confunde com a da Florença renascentista. Desde que se fixaram na cidade, em 1221, no monastério da basílica de Santa Maria Novella — daí o nome da marca —, os dominicanos se dedicaram ao plantio de ervas para fabricar medicamentos. O primeiro registro de uma fórmula preparada por eles data de 1381: uma água de rosas, considerada antisséptica no período da pandemia da peste bubônica, que matou quase um terço da população europeia. “Nossas receitas estão diretamente ligadas à descoberta da higiene pessoal, fruto de um interesse pelo corpo humano estabelecido na Renascença”, diz Foà. Até o início do século XVII, a alquimia se destinava ao tratamento de pacientes atendidos no mosteiro, dos pobres aos nobres da família Médici, poderosa dinastia da região, passando pelo poeta Dante Alighieri, aluno dos dominicanos.

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Em 1612, os freis decidiram vender as invenções — o ano é usado como data oficial de fundação. Criada com ervas de propriedades calmantes (e por isso conhecida como anti-histérica), a Acqua di Santa Maria Novella é o produto número 1 comercializado pela marca. Com ela, outras quatro soluções produzidas no século XVII sob a bênção do frei Angiolo Marchissi, um apaixonado por química e fundador da farmácia, seguem à venda: água de melissa (digestiva), aceto aromático (para ambientes), sais de lavanda (para reavivar os ânimos) e pastilhas (para o hálito).

Luxo 2229 - Santa Maria Novella - loja
Loja em estilo neogótico da Via della Scala, 16, em Florença: local da antiga capela de San Niccolò, de 1332 (Foto: Divulgação)

Da farmácia original resta, preservadíssima, a sala com mobiliário e afrescos do século XVII, que dá passagem para o jardim onde os freis cultivavam as ervas — o mesmo verde que Leonardo da Vinci avistava de seu apartamento no mosteiro. Os balcões oferecem hoje suplementos alimentares e vitaminas. As vedetes da marca — sabonetes e pot-pourri — ficam na sala de vendas principal, que funciona na antiga capela de San Niccolò, de 1332. Sob arcos neogóticos, os clientes escolhem seus pedidos, num curioso silêncio monástico, a partir de cardápios no tom amarelado dos prédios terracota de Florença. Desde 1848, a entrada da loja é a mesma: pela Via della Scala, 16.

Luxo 2229 - Santa Maria Novella - sabonete
O sabonete Vellutina (R$ 110,00), com 4% de creme hidratante: marca registrada da botica (Foto: Divulgação)

Da fábrica na Via Reginaldo Giuliani, a 3 quilômetros dali, saem hoje cerca de 600 produtos: de hidratantes a licores, de chás a desodorantes para cães e gatos. Embora a produção envolva maquinário moderno — os sabonetes são carimbados com o antigo logo não mais na força da manivela, mas pressionados a uma temperatura de 18 graus centígrados negativos —, não cabe aplicar a palavra “indústria”. Está mais para ateliê. Os 86 funcionários dedicam-se a dobrar as embalagens, colar rótulos, fechar perfumes, derramar cera na fôrma para velas à moda antiga: a mão e um a um.

Luxo 2229 - Santa Maria Novella - pot-pourri
Passo a passo do pot-pourri, um dos produtos mais vendidos (90 gramas saem por R$ 175,00): ervas e flores toscanas maceradas, armazenadas por três meses em potes de terracota e pesadas à moda para embalar (Foto: Divulgação)

Contrariando o padrão, os produtos aqui não vêm com data de validade. São mantidos o mais naturais possível e sem aditivos como antioxidantes. “É como queijo e vinho: quanto mais o tempo passa, melhor”, compara Eugenio Alphandery, dono, desde 2006, de um terço da Santa Maria Novella. O restante pertence à família Stefani, que assumiu o controle em meados do século XIX, depois de o governo italiano haver confiscado a farmácia dos dominicanos.

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É essa receita que garante fãs como Alain Ducasse. O estrelado chef francês é devoto do creme de barbear da marca. Amiga de Alphandery, Catherine Deneuve foi responsável pela introdução da marca em Paris — ela adora os sabonetes e cremes. Mesmo rezando pela cartilha dos freis, Alphandery planeja, para o aniversário de 400 anos da grife, em 2012, uma linha de maquiagem. “Somos guardiões de uma tradição, e não de uma múmia”, explica o empresário, à frente de cinquenta filiais da marca, uma delas na Rua da Consolação, em São Paulo, inaugurada em 2006. As belas da tarde agradecem.

Fonte: VEJA SÃO PAULO