Cidade

Tradicional bairro de Santa Cecília ganha novos espaços culturais

Endereços inaugurados no último ano ajudam a repaginar a região no centro da cidade

Por: Juliene Moretti

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Bergamin, em sua loja de design: fuga das áreas tradicionais (Foto: Fernando Rodrigues)

Há décadas relegado a segundo plano na vida cultural e boêmia paulistana, o bairro de Santa Cecília sempre sofreu com uma crise de identidade. Espremido entre o centro e Higienópolis, não tem o charme do primeiro, a sofisticação do segundo, muito menos a variedade de ambos. Exceto por uns poucos endereços tradicionais como as baladas da empresária Lilian Gonçalves, a “rainha da noite”, e o bar Esquina Grill do Fuad, que possuem clientela fiel há mais de quarenta anos, não oferecia atrativos a ponto de movimentar suas ruas escuras. Pela proximidade com a Cracolândia, ainda era comum deparar com moradores de rua e dependentes químicos pelas redondezas.

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Esse cenário começou a mudar no último ano com a abertura de pelo menos dez estabelecimentos, como o espaço cultural Elevado, a loja de design Pair, a livraria independente Banca Tatuí, a lanchonete Holy Burger e o restaurante Armazém Alvares Tibiriçá. Com essa remessa de novidades, a área não demorou a atrair artistas e jovens descolados.

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O fluxo de pessoas que passaram a explorar a região pode ser notado com clareza nas tardes de sábado na calçada em frente ao bar-restaurante Conceição Discos, na Rua Imaculada Conceição. Ao ser inaugurada, em junho de 2014, a casa tinha a pretensão de servir refeições rápidas para vinte clientes diários. Em pouco mais de um ano, no entanto, passou a receber 200, que gastam uma média de 50 reais entre prato, sobremesa e um copo de cerveja artesanal.“Meu plano era suprir só o público do entorno, então fiquei surpresa com esse movimento”, diz a chef Talitha Barros, dona do negócio. “Nos fins de semana, vêm fregueses até de Santo André.” O mesmo ocorreu com o Holy Burger, que desde novembro último atende 8 000 clientes por mês em um apertado espaço de 90 metros quadrados na Rua Doutor Cesário Mota Júnior.

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Talitha Barros, da Conceição Discos: público dez vezes maior que o esperado (Foto: Fernando Rodrigues)

O fenômeno chamou a atenção doempresário Maurício Schuartz, responsável pelo Butantan Food Park. Em agosto, ele ocupou uma área de 4 500 metros quadrados na Rua Dr. Albuquerque Lins com o novo Marechal Food Park. Situado ao lado da Estação Marechal Deodoro do metrô, o local, com cerca de trinta boxes de comida, chega a amontoar 6 000 pessoas em um único fim de semana. “Santa Cecília tornou-se para São Paulo o que o Brooklyn é para Nova York, um ponto de encontro para jovens, artistas e gente criativa”, exagera Schuartz.

Não é só na gastronomia que o bairrose reinventa. Há três anos, Alessandro Bergamin, sobrinho do conceituado arquiteto Sig Bergamin, reformou um casarão na Rua Barão de Tatuí para abrir uma lojade decoração. Acabou sendo o pioneiro de um movimento que colaborou para a inauguração de outros estabelecimentos ligados a design, como a vizinha Pair, em agosto, e o centro cultural Elevado, em maio. Esse último, instalado em um galpão de 150 metros quadrados na Rua Dr.Albuquerque Lins, oferece oficinas de artes manuais, como bordado, além de dança e fotografia. “Foi o melhor local que encontramos para abrigar a proposta”, diz um dos sócios, Derek Fernandes.

Com o preço do metro quadrado paraa luguel pouco menor que o de bairros bem mais baladados, como Pinheiros — diferença de 30 para 35 reais —, Santa Cecília tem seduzido empresários interessado sem fugir da saturação dos principais points da capital. “Se estivéssemos na Zona Oeste, seríamos apenas mais um no meio de muitos”, entende Rodolfo Herrera, sócio do café Beluga, inaugurado no ano passado na Rua DoutorCesário Mota Júnior. O negócio já recebeu 350 clientes em um dia, o que temsido suficiente para cobrir o investimentode 150 000 reais. “Nos Jardins, também não é possível estacionar o carro por 10 reais, como aqui”, completa a arquiteta Carla de Lima, dona da Pair.

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Banca Tatuí: shows de bandas no teto aos sábados (Foto: Troublemakers Phtography)

Os residentes do pedaço celebram a mudança. “Até pouco tempo atrás, as ruas Barão de Tatuí e Imaculada Conceição eram conhecidas como Ladrão de Tatuí e Emaconhada Conceição, por causa do fluxo de usuários de drogas e ocorrências de crimes”, lembra Fábio Fortes, presidente do Conselho de Segurança de Santa Cecília. “Isso acabou.” É nessa esquina que, desde dezembro, funciona a Banca Tatuí, livraria independente dos donos da editora Lote 42. Aos sábados, o teto do local costuma sediar shows de jazz e rock, o que movimenta a região e teria ajudado a espantar criminosos.

Mesmo os empresários antigos agradecem a concorrência. “As novidades estão atraindo clientes diferentes para cá”, diz Lilian Gonçalves, proprietária de cinco casas na Rua Canuto do Val. “Os moradores, que antes se referiam ao bairro como Baixa Higienópolis, hoje dizem com orgulho que vivem em Santa Cecília”, afirma LilianSallum, dona do Esquina Grill.

Carne Nova

As últimas inaugurações no pedaço:

› 2012

Beef Passion e Studio Bergamin (Rua Barão de Tatuí, 229)

› 2013

Tabuleiro do Acarajé (Rua Doutor Cesário Mota Jr, 611)

› 2014

Abril: Roncador Hamburgueria Artesanal (Rua Jaguaríbe, 504)

Junho: Conceição Discos

Agosto: Atelier dos Bolos

Novembro: Beluga e Holy Burger

Dezembro: Banca Tatuí (Rua Barão de Tatuí, 275) e Armazém Alvares Tibiriçá

› 2015

Maio: Elevado (Rua Doutor Albuquerque Lins, 489)

Agosto: Marechal Food Park, Jun Japanese Food (Jun: Rua Barão de Tatuí, 376) e Pair (Rua Barão de Tatuí, 195)

Fonte: VEJA SÃO PAULO