Crônica

O sabor da língua

Por: Ivan Angelo

Crônica 2648
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Um dos encantos de Portugal para um brasileiro que tem a língua portuguesa como instrumento de trabalho é o uso que se faz dela no nome dos lugares, nos cardápios, nas conversas, nas ruas. Não pensem que me refiro a sotaques, prosódias, vocabulário diferente para itens comuns de cá e de lá. O encanto de que falo é o modo conceitual de nomear, de pôr nos nomes ideias e maneiras de ser, combinando humor e informação, e conservá-los ao longo dos anos. É uma qualidade que perdemos quando abandonamos a sensibilidade de chamar uma via de Estrada das Lágrimas, uma praça de Largo da Batata, um largo de Praça da Árvore, uma rua de Alegria, ou Sinceridade, uma comida de vaca atolada.

Denominações de sabor antigo vão desaparecendo, com o que se perde um pouco de história. Enquanto isso, em Portugal... Lisboa. Passo por uma Rua da Achada. Sigo por um Caminho das Necessidades, que vai dar no Largo das Necessidades, que fica em frente ao Palácio das Necessidades. E olhe que isso não está muito longe da Rua do Alívio. No bairro do Chiado há a Rua Fresca; perto, na Travessa da Espera, fica o concorrido restaurante Farta Brutos, a desafiar os glutões que transpõem o dístico “Aqui, mastiga-se”.

Do outro lado da cidade, distraio-me em suposições diante de uma placa: quem terá originado este nome, Rua da Bempostinha? Bem-posta, sabe-se bem o que é: elegante, alinhada, bem-vestida; mas assim, com esse diminutivo, essa intimidade? Alguma queridinha do bairro, uma lindinha, uma menina? Há uma Rua do Cotovelo, em forma mesmo de cotovelo, que cruza com a Rua Arco das Águas Livres. A Rua Dois cruza com a Três. Perto do aeroporto fica a Rua Junto aos Eucaliptos.

No Porto, descendo a ladeira da Sé para a Ribeira, chego à Travessa das Verdades e almoço no Postigo do Carvão. Por aqui, o bilhete recarregável do metrô chama-se Andante, pois sem ele não se anda: a multa é de 800 euros. Na belíssima Livraria Lello, do século XIX, encontro o livro didático Sebenta de Matemáticas Gerais. Sebenta tem a mesma raiz de sebo, denominação que usamos para casa de livros usados, e carrega o sentido de anotações de classe, matéria passada e repassada, “sebenta”.

Nas comidas, esbalda-se. Tanto pela qualidade e quantidade quanto — eis o assunto desta crônica — pelos nomes. Arroz malandrinho é um com mais caldo ou molho, não vem seco e soltinho como aqui. Arroz de afogado é para aproveitar os miúdos do cabrito, com caldo, claro. Súplicas são umas bolachas de farinha e ovos, 500 gramas para oito ovos. Batatas bêbadas são cozidas no vinho, junto com carne previamente frita.

Batatas ao murro levam um soco mesmo, e voltam ao forno para ser finalizadas. Esquecidos são biscoitos cuja massa se coloca em pelotas no tabuleiro e, depois, deixa-se a fôrma cair sobre a mesa para achatar a massa. Gargantas de freira são uns canudos de massa fina, chamada hóstia, recheados com fios de ovos. Barriga de freira é um tipo de pudim de pão e ovos, lisinho.

Comer e chorar por mais é um doce de amêndoas e ovos, muitos ovos, como é o costume. Percebes são um tipo de marisco. Há bons nomes para todo lado, como o de um vinho do Alentejo, o Inevitável, ou o de uma cozinheira da televisão, Filipa Vacondeus, que morreu em janeiro, ou o de uma cidade do norte, Freixo de Espada à Cinta (freixo é uma árvore poderosa), batizada bem antes dos descobrimentos. Pouco depois, polêmicas à parte, por causa de um pau de tinta vermelha como brasa, inventaram o Brasil. Não está mal.

E-mail: ivan@abril.com.br.

Fonte: VEJA SÃO PAULO