Crônica

Sábio precoce

Por: Ivan Angelo

cronica
(Foto: )

O garoto é um daqueles desligados modernos, ligadíssimo no que lhe interessa. Na próxima semana faz 13 anos, e sinto certa nostalgia do menino que ele foi e, por tabela, do menino que eu fui. Começam aí as cobranças mais objetivas, começam a envolver-nos em uma coisa insuportável chamada futuro, a cobrar comprometimento, menos brincadeiras, rumos, quando nós o que gostaríamos é de pular isso tudo e chegar logo aos 25, ou ficar nos 12.

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Ele foi sempre liso, escorregadio, mas gente fina, de pouca fala, sedutor no seu jeito de nem aí, observador, sábio precoce, no sentido milenar da palavra, de sagaz, engenhoso.

Quando, aos 6 anos, os pais tentavam controlar seu medo noturno obrigando-o a dormir no próprio quarto, uma noite ele chamou de lá:

— Mãe, eu posso ir para o seu quarto? Estou me sentindo um pouco sozinho.

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Reparem: sozinho, não com medo; a intenção era driblar a ordem, não se opor a ela. Sagaz. Na mesma época, o pai, advogado, ponderou que ele não podia fazer tal ou qual coisa, por isso mais aquilo, e ele:

­— Pai, isso não é uma questão retórica?

O surpreendente não é imaginar onde ele teria ouvido a expressão, é vê-la aplicada com exatidão.Talvez aos 5, a empregada gorda pediu a ele que saísse do quarto para ela se trocar, e ele:

­— Ah, Socorro, grande coisa...Com uns 8 anos, convencendo a irmã a parar de chorar:­

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— Bel, pode parar? Amanhã eu ajudo você a chorar de novo.Com uns 10, matreiro, popular no colégio, tentando persuadir a irmã a não estudar demais, segundo sua regrinha básica pessoal de convivência escolar:

­— Bel, a gente não pode tirar só A e B, senão ninguém fica amigo da gente.Na rua, um mendigo se aproxima do carro, pedindo um trocado, e ele, então com uns 10 anos:­— Se eu fosse pobre e precisasse pedir dinheiro na rua para comer, eu juntava bastante dinheiro e ia num bom restaurante comer muito bem.Aos 11, na Semana Santa, vendo na televisão um filme sobre o martírio de Cristo:

­— Por que ele tem de carregar a cruz? Pra morrer? Se fosse eu, não carregava, não. 

No bar Pirajá, depois de ter se queixado para nós, na mesa, do hambúrguer recheado com jiló frito e excesso de queijo, escreveu no formulário de satisfação do cliente: “Atendimento 10 e o melhor hambúrguer que eu já comi”. Ficou olhando de longe o efeito e sorriu quando viu o garçom confraternizando com os colegas, papel na mão.No capítulo da dispensada é um fino. Aos 5 anos, meio entediado com a conversa do pai na beira da cama para fa­zê-lo adormecer: “Tá bom, pai, eu já posso dormir sossegado”.

Ao telefone, com o tio que mora na Flórida: “Tio Fábio, não está na hora de você ir trabalhar?”. Para a avó, que alongava ao telefone a conversa conselheira: “Vó, não está na hora de você descansar um pouco?”.Minha filha me conta — pois é do meu neto que se trata — que estranhou o fato de ele não levar lição para casa a semana inteira, e cobrou uma explicação. Ele, sem vacilar: ­

— A escola está fazendo uma experiência. Uma semana sem lição para ver nosso aproveitamento na aula.Broma, claro, desfeita com um telefonema.Ele foi criado em um mundo de advogados, mãe, pai, amigos dos pais. Muitas vezes alguns deles trabalham em casa, facilidades da internet. Não escaparam do olhar do garoto:

— Não gosto muito de trabalhar, não. Acho que vou ser advogado.

Fonte: VEJA SÃO PAULO