Crônica

Sábado no Bom Retiro

Por: Matthew Shirts

Crônica - Bom Retiro
(Foto: Attilio)

Comprei há dois meses o livro São Paulo — 10 Walking Tours sem sequer abri-lo. Não titubeei. “Dez passeios a pé na cidade é comigo mesmo”, pensei. Quando fui dar uma olhada, semanas mais tarde, surpreendeu-me o fato de ser em inglês. Eu devia ter desconfiado, você poderia argumentar, já que o título é escrito na língua de Shakespeare. E,convenhamos, você teria um bocado de razão. Acho que pensei na hora da compra que Walking Tour fosse uma daquelas expressões, tipo Drive-thru, já incorporadas ao português no Brasil. Mas é um guia em inglês mesmo, coisa de gringo. “Existe mercado para isso?”, pensei. Há tanto estrangeiro assim querendo passear a pé por aqui?

O livro traz informações ricas da história de cada bairro mescladas com mapas simpáticos, roteiros e dicas de onde comer. É uma mistura feliz de geografia com histórias de séculos passados e o boteco da esquina. Escolho o passeio número 5, Bom Retiro. Dos dez sugeridos, é o que menos conheço. Promete, ainda, um bom sanduíche de faláfel no andar de cima de uma galeria comercial típica da região como recompensa. Sou chegado no prato, que, para quem não sabe, é grão-de- bico temperado e frito.

O tour começa na Estação da Luz, onde o século XIX, o da Revolução Industrial na Europa, é preservado com mais clareza em São Paulo. O local foi construído de acordo com plantas arquitetônicas importadas da Inglaterra, com ferro e tijolos, e inaugurado em 1901, explica o historiador Roney Cytrynowicz, autor desse capítulo do livro. O bairro acabou sendo urbanizado nessa época por imigrantes judeus, gregos, italianos e espanhóis, entre outros. Alguns deles fundariam ali o Corinthians, nada menos.

Da estação atravesso o Parque da Luz com o guia na mão. Passo por duplas sertanejas e figuras exóticas, aproveitando o sol de uma manhã de sábado. Do outro lado da área verde, começo a encontrar placas em coreano nos estabelecimentos, sem tradução. Observo um senhor distinto de postura perfeita curvar-se, ao modo oriental, diante de outro em frente a uma loja. São dois chapas do bairro cumprimentando-se, penso. Tenho grande curiosidade por essa comunidade, da qual sei tão pouco. O livro conta o básico. Os primeiros imigrantes vieram da Coreia do Sul na década de 60 atraídos por projetos agrários no interior de São Paulo, mas muitos preferiram trabalhar no comércio de roupas da capital.

Cruzo no quarteirão seguinte com a muvuca da Rua José Paulino, onde fregueses aproveitam as últimas horas de comércio da semana para comprar roupas. O Bom Retiro é uma região diferente de qualquer outra da metrópole, mais objetiva e determinada, um pouco mais organizada, me ocorre, mesmo em meio à multidão. Há algo de Nova York no ar.

Navego pela calçada lotada até o número 345 e, seguindo as instruções do guia, entro na galeria e subo até o mezanino. Lojas e restaurantes se misturam. Garotas entram no banheiro público para provar roupas e saem sorridentes para mostrar às mães como ficaram. É uma cena feliz que eu não conhecia. Acho o Falafel Malka, onde a El Al, “que nem a linha aérea”, me serve um faláfel dos bons, coberto com molho tahine. É uma ótima dica de um livro bacana.

Fonte: VEJA SÃO PAULO