Capa

Rua Augusta: movimentada por bares, baladas, restaurantes e lojas

A rua reafirmou sua vocação boêmia, passou a atrair jovens frequentadores e virou ponto de encontro de várias turmas

Por: Giovana Romani e João Batista Jr. - Atualizado em

Rua Augusta
Esquina com a Rua Fernando de Albuquerque, na sexta (6), às 22h30: vaivém intenso (Foto: Veja São Paulo)

Em uma sexta-feira de calor, por vol­ta das 21h30, a esquina das ruas Augusta e Fernando de Albuquerque, na Consolação, está apinhada de jovens universitários, moderninhos e neo-hippies. Lá perto, uma calçada é ponto de encontro da tribo emo. Alguns metros para baixo e algumas horas depois, uma fila de playboys forma-se na porta da casa noturna Vegas. No meio do caminho, um boteco pé-sujo, o Bar do Netão, reúne a turma da moda e das artes no esquenta pré-balada. Entre os clientes está a bela Bruna Prado, de 22 anos, acompanhada de dois amigos.

Produtora de TV e moradora de Alphaville, ela re­­presenta a nova cara da velha Rua Augusta. Um lugar onde baladeiros dos mais diferentes estilos dividem as calçadas com mulheres que rodam a bolsinha e vendedores ambulantes. Nos últimos quatro anos, o número de casas ligadas à cena noturna aumentou 40%. Atualmente, só no trecho central, são 52 bares, dezoito baladas e dezesseis restaurantes (confira os principais no mapa ao longo desta reportagem). E outros estabelecimentos não param de pipocar.

A Augusta viveu seu auge nos anos 50 e 60, época em que concentrava ao longo de seus 3 008 metros de extensão, divididos pela Avenida Paulista, algumas das lojas mais sofisticadas da cidade. Era o tempo em que os roqueiros cantavam Rua Augusta, de Hervé Cordovil (' Entrei na Rua Augusta a 120 por hora... '). Seu brilho passou a ser ofuscado na década de 70, com o surgimento dos shoppings. O público chique ficou escasso, o comércio perdeu vitalidade e prostitutas ocuparam várias esquinas. Um sopro de renovação ocorreu em 1993, quando foi inaugurado o complexo de cinema Espaço Unibanco. ' Com a nossa chegada, as garotas de programa desceram um pouco a rua ', diz Adhemar Oliveira, dono das salas. Doze anos após a chegada dos cinéfilos, os notívagos interromperam a história de decadência.

Sócios do clube Vegas, Facundo Guerra e José Tibiriçá foram dos primeiros a apostar na região. Com a abertura da casa, em 2005, a rua recebeu visitantes até então acostumados ao circuito Itaim-Vila Olímpia. Na esteira desse sucesso, outros empresários investiram na vocação boêmia da via. Surgiram então os bares The Pub, Club Noir e Z Carniceria - esse último, mais uma parceria de Guerra e Tibiriçá -, as baladas Studio SP, Inferno e Tapas Club e os restaurantes Athenas, Kebab Salonu e Yoi! Rolls & Temaki. Isso sem contar as casas das redondezas. O quadrilátero formado por Avenida Paulista, Rua Augusta, Praça Roosevelt e Rua da Consolação ganhou o apelido de Baixo Augusta. Dentro dele também estão o Sonique, na Rua Bela Cintra, o Astronete, na Rua Matias Aires, e o Boutique Bistrot, na Rua Fernando de Albuquerque. Todos em atividade há menos de dois anos. ' De forma espontânea, promovemos a revitalização do bairro ', afirma Alexandre Youssef, sócio do Studio SP, que em maio de 2008 mudou da Vila Madalena para a Augusta.

As novidades não se restringem aos negócios ligados à noite. Com investimento de 3 milhões de reais, a galeria Porto Paulista abriu as portas na altura do número 1 600 em setembro. O Retrô Hair, que funciona há um mês no número 1 140, faz contraponto aos salões de beleza mais simples da vizinhança: cobra 40 reais pelo corte masculino e 90 reais pela coloração. A mudança de perfil da Augusta é um exemplo bem-sucedido do processo de revitalização do centro - ainda que tenha recebido mais investimentos da iniciativa privada do que do poder público. Em 2006, a prefeitura destinou 2,2 milhões de reais à reforma de suas calçadas. Neste ano, a Sociedade dos Amigos e Moradores do Bairro de Cerqueira César plantou 200 árvores em toda a sua extensão. Em breve, palmeiras e quaresmeiras frondosas enfeitarão as calçadas.

Ao contrário de outras áreas, como Luz e República, há gente circulando pela rua 24 horas por dia. ' Foi uma melhoria de baixo para cima ', acredita Youssef. ' O movimento migratório de artistas colaborou com a transformação. ' A atriz Cléo De Páris, da companhia de teatro Os Satyros, e o humorista Evandro Santo, o Christian Pior do programa Pânico na TV, compraram imóveis ali em 2008. ' Estou em um ponto estratégico: ao lado do meu trabalho, na Praça Roosevelt, e de boas opções de transporte público ', analisa Cléo. Ela pagou 125 000 reais por um apartamento de 120 metros quadrados. Santo desembolsou o mesmo valor pelo seu, que tem 60 metros quadrados e uma vaga na garagem. ' Faço tudo por aqui ', diz ele. ' Vou a pé à academia, ao supermercado e ao cabeleireiro. '

Novos moradores, vida cultural intensa e facilidade de acesso a pontos de ônibus e estações de metrô aqueceram o mercado imobiliário. De acordo com a Associação das Administradoras de Bens Imóveis e Condomínios de São Paulo (Aabic) e o Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis (Se­­covi), o aluguel nas imediações subiu mais do que a média da cidade. Entre 2005 e 2009, o preço de locação em São Paulo aumentou 35%. Nesse mesmo período, na região do Baixo Augusta, o aluguel de uma quitinete saltou de 330 para 600 reais (alta de 82%) e o de uma unidade de um dormitório variou de 590 reais para 930 reais (alta de 58%). ' A ampliação da malha metroviária vai valorizar mais os imóveis ', avalia José Roberto Graiche Júnior, diretor jurídico da Aabic. As estações Paulista e Higienópolis, da Linha Amarela, previstas para entrar em operação em março de 2010 e em 2012, respectivamente, ficarão nas proximidades.

Com a chegada dos boêmios, porém, alguns problemas se tornaram evidentes. A começar pelo trânsito, que sempre foi ruim. Entre 17 e 20 horas, cerca de 2 760 veículos circulam pela parte baixa da Augusta. Eles dividem as faixas com a frota de 48 ônibus de nove linhas. Nos fins de semana, carros estacionados em ambos os lados agravam a situação. Alguns deles são de ambulantes, que vendem yakisoba, espetinhos e bebidas. Tanta movimentação causa uma perceptível poluição sonora. Por isso, Evandro Santo instalou janelas antirruído em seu quarto. ' Agora não acordo ao som de funk, música sertaneja nem tum-tum-tum. '

Além de encararem a fila para entrar nas ecléticas baladas da Augusta, os jovens enfrentam outro desconforto: desviar de sacos de lixo. É um horror, uma vergonha. Muitos ficam empilhados em frente às agências bancárias, aos edifícios e nos pontos de ônibus. ' Alguns comerciantes exportam sua sujeira para a porta do vizinho ', aponta Tibiriçá, do Vegas. Ele contrata uma empresa para retirar e encaminhar seu lixo à reciclagem - em um sábado, o clube produz 2 000 litros de resíduos. De acordo com a Secretaria Municipal de Serviços, o lixo pode ser colocado para fora às 18 horas, horário a partir do qual o caminhão deveria passar. Na sexta (6), a reportagem de VEJA SÃO PAULO observou dezenas de sacos na calçada desde as 16 horas. Os lixeiros só passaram por volta da meia-noite. Até aí, os transeuntes tinham de abrir espaço para poder andar. O que - além de incômodo e malcheiroso - representa um perigo, uma vez que os restos são revirados pelos catadores de recicláveis e cacos de vidro espalham-se pelo chão.

Há ainda a questão da segurança. A ação de trombadinhas de olho nos celulares e nas bolsas é constante. ' Eles vão aonde há maior lucro e menor risco ', afirma o delegado Aldo Galiano Junior, da 1ª Delegacia Seccional da Polícia Civil, que atua no centro. ' Quando notaram a presença das classes A e B, a região passou a ser visada. ' Segundo dados da Polícia Militar, só no mês de outubro foram registrados 157 furtos. O comércio de dro­­­­gas ocorre sem maiores problemas. De madrugada, a reportagem flagrou pessoas vendendo papelotes de cocaína por 10 reais e outras tantas fumando maconha. Solucionar tais problemas é fundamental para que a rua continue em ascensão. Mas o passo mais importante já foi dado: a região resgatou sua vocação festeira e vive lotada.

UM PARQUE À VISTA

 

Depois de muita discussão e até da realização de uma passeata em frente à prefeitura, os moradores do Baixo Augusta devem ganhar um parque. Em agosto de 2008, o prefeito Gilberto Kassab assinou um decreto que declara uma área de 23 700 metros quadrados localizada entre a Marquês de Paranaguá e a Caio Prado como de utilidade pública. A prefeitura tem um prazo de cinco anos para entregá-lo à população. Precisa ainda negociar a indenização a seu proprietário, o empresário Armando Conde, ex-dono do banco BCN. Estima-se que o terreno valha em torno de 30 milhões de reais. ' O parque valorizará o bairro, hoje carente de áreas verdes ', diz Célia Marcondes, presidente da Sociedade dos Amigos e Moradores do Bairro Cerqueira César (Samorcc). Moradores refutaram tentativas de transformar o local, onde já funcionou o tradicional Colégio Des Oiseaux, desativado em 1967, em um hipermercado ou complexo de edifícios residenciais. Hoje, ali opera um estacionamento.

Rua Augusta - Lado par

Dex Bar (520)

Aberto no primeiro semestre, funciona como um esquenta pré-balada. No som ambiente, rolam os estilos pop e rock.

The Pub (576)

Na música ambiente, som dos Beatles. Na decoração, balcão de madeira e luz fraca.

Maurice Plas (724)

Há 54 anos, vende chapéus e boinas de fabricação própria. Alguns custam mais de 500 reais.

Bar do Netão (822-B)

A pista de dança fica em uma espécie de porão, onde rolam música pop e hits dos anos 80.

Z Carniceria (934)

É o bar mais concorrido do momento: nos fins de semana, há fila para entrar a partir das 21h. Tem um público moderno e na casa dos 30 anos.

Retrô Hair (1140)

O salão fica aberto até s 23h e serve - de graça! - uísque, cerveja e suco aos clientes.

Ibotirama (1236)

A carta de cervejas tem rótulos importados, como a argentina Quilmes (18 reais o litro).

Tapas Club (1246)

Com sofás e luz baixa, o ambiente do bar e balada é ideal para a paquera.

Yoi! Rolls & Temaki (1292)

Vale a pena degustar um dos mais de dez tipos de temaki nas mesas com vista para a rua.

Endossa (1360)

Loja coletiva em que novos estilistas e designers vendem suas criações. Por lá, é possível encontrar de camisetas com estampas descoladas a enfeites para casa.

Kebab Salonu (1416)

Aberto em 2007 e recém-ampliado, o restaurante de comida árabe é ideal para um jantar a dois depois do cinema.

Charm (1448)

O subsolo do bar, recém-reformado, é uma boa opção para quem não encontra uma mesa na calçada.

Tollocos (1524)

O fast-food de comida mexicana funciona até as 6 horas às sextas e aos sábados.

Porto Paulista (1600)

Com 2 200 metros quadrados, a galeria tem noventa lojas.

Rua Augusta - Lado Impar

Club Noir (331)

Sede de uma companhia teatral homônima, o espaço conta com livraria, café, bistrô e sushi-bar.

Inferno (501)

Inaugurada em 2006, a casa tem proposta roqueira. Seu público está na faixa dos 20 anos.

Studio SP (591)

Mudou da Vila Madalena para a Augusta, em 2008. Promove shows de novos nomes da MPB, como as cantoras Tiê e Céu.

Vegas (765)

Inaugurada em 2005, a casa noturna fez fama ao levar o público do circuito Itaim-Vila Olímpia para o centro.

Teatro Augusta (943)

Reinaugurado em 1999 com o nome atual, tem plateia com capacidade para 302 pessoas.

Sarajevo (1397)

Pela porta estreita do sobrado-balada passam alternativos que curtem jazz, soul e funk.

Athenas (1449)

Mix de bar e restaurante aberto em 2007, tem como hit do cardápio o prato grego mussaka (17,90 reais).

O Pedaço da Pizza (1463)

Nas madrugadas de sexta e sábado, quando funciona até as 5h, fica lotado de jovens que forram o estômago depois da balada.

Espaço Unibanco (1475)

Desde 1993, o complexo de cinemas é ícone da rua. Nos fins de semana, há filas na calçada.

Bovinu’s (1513)

Fica com o salão cheio na hora do almoço (41 reais o quilo). Às sextas, promove uma happy hour-balada entre 18h e 23h.

Frevo (1563)

Lanchonete inaugurada em 1956. O beirute (18,20 reais) é o item mais pedido do cardápio.

Fonte: VEJA SÃO PAULO