Cidade

Augusta 24 horas

As baladas, o comércio, os personagens e as curiosidades que se revelam durante o dia todo

Por: Pedro Henrique Araújo - Atualizado em

Augusta 24 horas - 2192a
Augusta: o universo da rua mais agitada do momento (Foto: Raul Zito)

A Rua Augusta amanhece sem dormir. São 6 da manhã de sexta-feira, mas o quarteirão entre as travessas Peixoto Gomide e Dona Antônia de Queirós ainda está com os bares lotados. Pessoas bebem, conversam nas calçadas e invadem o asfalto, onde já rodam os primeiros ônibus do dia. Embora alguns baladeiros resistam firme por mais umas três horas, aos poucos as calçadas são ocupadas por quem vai trabalhar. Antes das 7 horas, homens e mulheres com cara de sono surgem subindo e descendo a rua famosa por sua agitação noturna e a região começa a se tornar um lugar como outro qualquer, com lotérica, autoescola, farmácias, restaurantes, chaveiros. A Augusta é como a garota que sai de casa com roupa discreta e ao anoitecer, longe dos pais, se maquia, solta o cabelo e abre mais um botão da camisa. 

Rua Augusta - 2192a
Fim de tarde: comércio aberto, trânsito normal e expectativa para a chegada da noite (Foto: Raul Zito)

O trecho do cruzamento da Avenida Paulista à divisa com a Rua Martins Fontes, no centro, possui 1 700 metros e se transforma ao longo de 24 horas. Nesse perímetro há sete agências bancárias, dois postos de gasolina, quinze hotéis, onze casas de shows eróticos, duas agências dos Correios, uma sex shop, uma chapelaria, um cartório de imóveis, cinco salas de cinema, um circo, três teatros, três farmácias, sete cabeleireiros, três oficinas mecânicas, seis academias, uma pet shop, uma faculdade, uma loja de materiais de construção, 27 estacionamentos, nove baladas e 35 bares. Protagonista de algumas gerações, a Augusta já foi celebrada pela alta sociedade paulistana e pela turma da Jovem Guarda, recebeu o escritor Oswald de Andrade no imóvel de número 65 e recentemente se tornou palco de um ecletismo sem tamanho. Garotas de programa, patricinhas, manos, skatistas, punks, moradores de rua, rockers, playboys, emos e outras tribos ainda não descobertas andam em certa harmonia pela rua e por suas vias de acesso. Hoje chamado de Baixo Augusta, o pedaço vive sua mais nova transformação: saltou do ambiente de prostituição para o quilômetro e meio com a vida noturna mais movimentada de São Paulo. “Aqui era a Quinta Avenida brasileira, já foi ponto de encontro de jovens e artistas de televisão de renome”, diz Anatolie Soroko, de 62 anos. Frequentador da região desde jovem, há dezesseis anos ele comanda a Sorveteria Soroko (nº 305), ponto de encontro de outra tribo, os vegans (vegetarianos radicais), por causa de seu cardápio com sorvetes à base de soja. 

Augusta noite - 2192a
Muvuca à meia-noite: quase sempre o congestionamento afeta a Avenida Paulista (Foto: Raul Zito)

Por volta das 10 horas, fim do horário de pico da manhã, já passaram mais de 5 000 veículos nos sentidos bairro e centro, segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Os comerciantes levantam as portas, lavam as calçadas e se preparam para o dia de trabalho. A Chapelaria Plas (nº 724), uma pequena loja mantida pelo octogenário Maurice Plas e por seus filhos Robert e Maurice, está lá desde 1954. No início, era uma confecção de alta-costura feminina, nos anos 70 surgiram os acessórios e, tempos depois, Maurice, o pai, resolveu fazer chapéus. “O Tarcísio Meira me viu com um boné que eu trouxe da França e se interessou. Disse a ele que faria um igual e assim iniciamos nossa produção”, conta. Mais ou menos no mesmo horário, a tradicional Bologna (nº 379) dá o ar da graça. Adolfo Aranda dos Santos, um dos três sócios, recorda com lágrimas nos olhos alguns momentos que marcaram a rotisseria, localizada na esquina da Rua Marquês de Paranaguá desde 1957. “Lembro de um homem e uma mulher que tropeçaram um no outro no nosso salão, começaram a conversar e depois de um tempo se casaram”, diz. Sempre que pode, Santos também gosta de repassar o lema de seu estabelecimento: “Coma bem em casa, sem trabalho”. Para ele, o melhor lugar para fazer uma refeição é em casa, com a família. 

Z Carneceria - 2192a - Augusta
Z Carniceria, no número 934: a todo o vapor (Foto: Raul Zito)

Mas nem todos podem. Chega a hora do almoço e os operários que trabalham nas obras ali perto, os funcionários de escritórios e moradores das redondezas dividem as filas dos restaurantes de prato feito e por quilo. Disfarçadas, as garotas de programa malham nas academias e vivem no anonimato, sem maquiagem, até o pôr do sol. Quase vazia no meio da tarde de sexta-feira, a Barbearia 9 de Julho (nº 1371, loja 105) parece um lugar perdido no tempo, com decoração meticulosamente inspirada nos salões dos anos 40 e 50 e voltada exclusivamente para homens. No quarteirão acima, o The Old Shoe Box (nº 1524, loja 49) tem a mesma proposta de resgate dos tempos de Elvis Presley e Johnny Cash, mas quem manda são elas. Comandado por Monique Fonseca (o salão de cabeleireiros) e Dani Avellar (o brechó), o espaço, aberto há cerca de um mês, é a versão de saia da barbearia.

Já são quase 19 horas, a noite começa a cair, o trânsito torna-se mais intenso. Segundo a CET passam pela via nesse horário em média 1 600 carros por hora — não há medições de tráfego após as 20 horas, mas perto da meia-noite quase sempre o congestionamento da rua afeta a Avenida Paulista. Surge, então, a Augusta que inspira canções, à qual Tom Zé se referia quando a comparou com uma mulher lasciva e cheia de vícios em “Augusta, Angélica e Consolação”, do disco “Todos os Olhos” (1973). Definida pelo jornalista Xico Sá como a “Divina Comédia paulistana” por ter inferno, purgatório e paraíso, a rua, na quadra próxima à Fernando de Albuquerque, exala malícia, cheira a urina, cerveja e eucalipto das saunas de quinta categoria. Igual a uma produção de teatro, os personagens vão tomando seus postos à noite para mais um espetáculo. Nessa atmosfera baladeira, a publicitária Ariane Aboissa, de 25 anos, se sente à vontade. “A Augusta mudou a minha vida. Depois que terminei meu namoro, conheci a região e não saio mais daqui”, afirma.  

Augusta - 2192a - rua Peixoto Gomide
Quarteirão da Peixoto Gomide e Dona Antônia de Queirós: baladeiros invadem a rua (Foto: Raul Zito)

Conforme passam as horas, o movimento vai ficando cada vez mais frenético. O Z Carniceria (nº 934), assim como os endereços vizinhos, está cheio. Caveiras na vitrine e tacos servidos quase na porta fazem parte de uma festa inspirada na noite mexicana dos mortos. O bar é um entre outros tantos pontos para uma happy hour — ou um “esquenta”, para os mais animados. Às 23 horas as casas noturnas já estão com filas nas portas. Entre os lugares mais movimentados estão o Studio SP (nº 591) e o Comitê Club (nº 609), ambos de Alê Youssef, uma espécie de candidato a prefeito do Baixo Augusta.

Para o empresário, o pedaço é um retrato da diversidade e da criatividade de São Paulo. “A região agora tem o grande desafio de preservar o espírito vanguardista e libertário que carregou até hoje”, diz. Youssef é também um dos responsáveis pelo bloco carnavalesco Acadêmicos do Baixo Augusta, que sairá em 2011 no dia 27 de fevereiro, uma semana antes do Carnaval. Neste ano, o bloco reuniu cerca de 5 000 foliões, número que pode, promete ele, ser quadruplicado no ano que vem.

Quem resolveu investir ali foi a dupla Rafinha Bastos e Danilo Gentili, do “CQC”: o Comedians (nº 1129), bar-teatro destinado a espetáculos de humor, foi inaugurado no dia 29 de outubro. Gentili explica que a escolha foi quase ocasional. “Tivemos bastante sorte. Procurávamos um imóvel com mínimo de 600 e máximo de 1 000 metros, pé-direito alto e vão livre amplo, e acabamos encontrando o lugar perfeito”, acredita. 

São 4 da madrugada. As baladas começam a se esvaziar. Carros sobem e descem com som alto, o ritmo ainda é de uma grande festa. Alguns bares vão concentrando os mais animados, e a folia parece não ter fim. Quem não gosta muito desse público é a garota de programa Paula (nome fictício). “O pessoal que vinha aqui parou de frequentar porque corre o risco de encontrar por aí filhos, netos, noras, sobrinhos”, diz. Mesmo assim, ela não abandona os arredores da Rua Dona Antônia de Queirós. Embora tenha o rosto cansado, a alta mulata se destaca entre os transeuntes e recebe elogios nada educados de homens que fazem questão de parar. Diz que, numa noite boa, fatura entre 700 e 1 000 reais.

O relógio marca 6 horas da manhã novamente. Bêbados que cantam em frente aos bares vão tornando a rua menos charmosa, e os néons dos prostíbulos que resistem por ali aos poucos se apagam para dar lugar a um sábado de pouco sol. Em alguns minutos, as pessoas do dia voltarão a ocupar esse quilômetro e meio de volta com sua rotina. O cheiro de comida dos restaurantes logo vai tomar o ar e as caixas — e mais caixas — de cerveja serão descarregadas lentamente, preparando a rua para o agito de sábado. Não tem jeito, mesmo depois de algumas horas de ressaca, a Rua Augusta já está lá se arrumando para outra noite promissora.

 

BAIXO AUGUSTA EM NÚMEROS

27 estacionamentos

9 baladas

7 cabeleireiros

11 casas de shows eróticos

15 hotéis

35 bares

2 postos de gasolina

3 oficinas mecânicas

3 farmácias

1 sex shop

 

FIGURAS DO PEDAÇO 

Ariane Aboissa - Augusta - 2192a
Ariane Aboissa: publicitária frequentadora do Baixo Augusta (Foto: Raul Zito)

“Eu não gostava de sair, ficava sempre em casa. Depois que terminei meu namoro, conheci o Baixo Augusta e não saio mais daqui”

Ariane Aboissa, publicitária de 25 anos 

Augusta - Alê Youssef - 2192a
Alê Youssef: dono das casas Studio SP e Comitê Club (Foto: Raul Zito)

“A região agora tem o grande desafio de preservar o espírito vanguardista e libertário que carregou até hoje” Alê Youssef, proprietário do Studio SP e do Comitê Club 

Augusta - 2192a - Soroko
Anatolie Soroko: sorveteria aclamada pelos vegans (Foto: Raul Zito)

“Aqui era a Quinta Avenida brasileira, já foi ponto de encontro de jovens e artistas de televisão de renome” Anatolie Soroko, dono da sorveteria Soroko

Fonte: VEJA SÃO PAULO