Trânsito

As roubadas enfrentadas por motoristas ao seguir atalhos de aparelhos de GPS

Após empresário parar na Cracolândia e passar por revista policial, Google Maps estuda retirar via de seu navegador

Por: Adriana Farias

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O empresário Marcos Piccini: o percurso acabou na Cracolândia (Foto: Fernando Moraes)

O empresário Marcos Piccini cumpre uma rotina rígida ao entrar em seu carro toda manhã na garagem de casa, em Alphaville. Sua primeira medida é conectar o aplicativo de navegação Waze e traçar o caminho até o escritório de clientes que precisa visitar na capital. No último dia 9, no entanto, o serviço lhe pregou uma peça. Por volta das 19 horas, ao fim de um dia de trabalho, ele circulava pela Alameda Barão de Piracicaba, no centro, quando o programa indicou um trajeto mais curto pela Alameda Dino Bueno. Ao virar a esquina, deu de cara com a Cracolândia.

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Com a rua à sua frente tomada por usuários de drogas, não teve outra saída a não ser fazer uma manobra brusca para retornar. “Embiquei o veículo no susto e acabei fechando outro motorista”, conta. “Na mesma hora, saiu um cara apontando uma arma para mim e pedindo para eu descer.” Tratava-se de um policial à paisana, que deduziu que Piccini estava no local para comprar crack. “Em segundos, migrei da sensação de estar sendo assaltado para a de acusado de um crime.” Após dez minutos de discussão, revistas e apresentação de documentos, acabou liberado.

O caso está longe de ser um episódio isolado. Ao confiarem nos percursos sugeridos por aparelhos e aplicativos de GPS para desviar-se de avenidas congestionadas ou blitze policiais, vários paulistanos têm colocado a vida em perigo. Isso porque as empresas do setor nem sempre conseguem bloquear as vias que representam risco à segurança.

“Hoje não há como marcar as ruas perigosas”, afirma Julie Mossler, diretora de comunicação do Waze, que funciona a partir de informações prestadas pelos 2,5 milhões de usuários na capital. “A única forma de alerta é utilizar a área de batepapo para trocar informações”, completa.

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O engenheiro Renato Passanante e sua família: cercado por motos em uma favela (Foto: Fernando Moraes)

O Google Maps, por outro lado, estuda tomar providências específicas em relação à Cracolândia. “Estamos avaliando a possibilidade de essa região não ser mais levada em conta no mapa, se constatarmos que ela se tornou intransitável”, afirma o chefe do serviço no Brasil, Marcus Leal.

O gigante da tecnologia já desabilitou pontos em outras ocasiões, mas nunca por questões de criminalidade. Um caso ocorreu neste ano, na estrada entre Paraty (RJ) e Cunha (SP), em que havia um trecho em estado precário. “Recebemos muitas reclamações e deixamos de indicar esse caminho”, afirma Leal.

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Estima-se que os sistemas chegam a receber 3 000 alertas por mês sobre algum tipo de problema em vias. Já entre os fabricantes de aparelhos de GPS portáteis, é possível encontrar algumas medidas para oferecer mais segurança ao cliente. A empresa americana Garmin, por exemplo, garante que seus dispositivos driblam as áreas de risco. “Só apontamos rotas para favelas se o endereço de destino for lá dentro”, diz o gerente geral da rede no país, Cláudio Ohashi.

Esse “serviço extra” teria sido valioso para o engenheiro Renato Passanante. No último dia 6, ele saía com a esposa e os filhos, de 4 anos e de 3 meses, do bairro da Saúde, na Zona Sul, em direção a uma festa infantil no Jabaquara, quando o Waze apontou um congestionamento na Avenida Santa Catarina. O problema é que o atalho sugerido pelo aplicativo acabou desviando a família para uma favela. “Motoqueiros começaram a rondar nosso carro com as luzes apagadas. Fiquei apavorado”, relembra.

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A estudante de direito Flávia Gaudio: rota a pé no centro resultou em agressões e tentativa de assalto (Foto: Fernando Moraes)

Nem quem circula a pé está livre do problema. Ao usar o Google Maps no centro, a estudante de direito Flávia Gaudio foi direcionada a um caminho por baixo do Viaduto do Chá, local que eventualmente concentra usuários de drogas. “Alguns vieram para cima de mim, agarraram minha bolsa e puxaram meu cabelo”, conta. “Tive a sorte de encontrar um policial, que pôs a turma para correr.”

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Especialistas recomendam que os usuários não confiem cegamente no GPS (veja abaixo algumas dicas) e que, em caso de dúvida, dispensem até mesmo o maior trunfo dos navegadores: a alternativa aos engarrafamentos. “É preferível encarar mais trânsito e trafegar por vias principais, com mais movimento e iluminação”, aconselha o professor Edvaldo Simões, do setor de Topografia e Geodésia da Escola Politécnica da USP.

Uma iniciativa possível para aumentar a eficiência dos aplicativos seria a criação de uma parceria com a Secretaria de Segurança Pública. Assim, as empresas do setor utilizariam os índices de criminalidade das diferentes regiões da cidade no momento de compor seus bancos de dados. “A polícia de Chicago, nos Estados Unidos, por exemplo, fornece aos cidadãos a lista de suas vias mais problemáticas”, afirma o coronel reformado da Polícia Militar José Vicente Filho, hoje especialista na área de segurança.

PARA NÃO FICAR REFÉM DOS DISPOSITIVOS

Pesquisar previamente o percurso na internet antes de ir a locais desconhecidosUsar ferramentas como o Google Street View para ver imagens da rua e ambientarse no cenário de destino

Se possível, deixar o GPS posicionado de forma a ficar acessível ao olhar do acompanhante, que pode ajudar a detectar problemas na rota

Na dúvida de estar sendo direcionado para uma área de risco, optar por trafegar apenas por vias principais, com movimento e iluminação

Parar em postos de gasolina ou da Polícia Rodoviária Estadual e obter mais informações sobre regiões suspeitas

Fontes: Creso de Franco Peixoto, mestre em engenharia de transportes da Unicamp, e Carlos Alberto Kamienski, especialista em ciências da computação da UFABC

Fonte: VEJA SÃO PAULO