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A São Paulo que o turista não conhece

Feira boliviana, capela escondida, artistas na favela são algumas das opções de passeios que passam despercebidos até mesmo pelos paulistanos

Por: Redação VEJA SÃO PAULO - Atualizado em

Feira da Kantuta
Feira da Kantuta: pedaço da Bolívia em São Paulo (Foto: Veja São Paulo)

Para além da fama de centro de negócios e mar de concreto, São Paulo prova que é muito mais que apenas a capital gastronômica do país com programas curiosos, inusitados e divertidos que muitas vezes passam despercebidos até para os próprios paulistanos. Selecionamos algumas dicas para explorar cantos e conhecer pessoas que não estão nos guias turísticos. Confira.

Capela do Cristo Operário

Capela do Cristo Operário
Capela do Cristo Operário: local escondido na cidade (Foto: IVAN SHUPIKOV)

Uma estreita escada de pedras, escondida sob árvores, é um dos poucos sinais que indicam o caminho para uma pequena igreja na Rua Vergueiro, 7.290. Quem chega pela Rua São Daniel encontra apenas o muro alto e as grades da Escola Dominicana de Teologia. Escondida em um cantinho silencioso do Ipiranga, a Capela Cristo Operário só revela as suas relíquias a quem, com um tanto de perseverança, consegue ver bem de perto a construção. Lá dentro, ela ostenta dois painéis e quatro vitrais pintados por Alfredo Volpi.

As missas, aos sábados, às 19 horas, e aos domingos, às 8h30, são as únicas chances de entrar na igrejinha de ares modernistas, erguida pelo frei dominicano João Batista Pereira dos Santos no início da década de 50. Na época, o religioso coordenava um projeto social em uma comunidade operária do Alto do Ipiranga. Com ótimas relações, João Batista convidou Volpi e o paisagista Burle Marx para ministrar cursos. Além de Volpi, oito artistas criaram obras para a capela. A pia batismal de cerâmica, por exemplo, foi projetada por Elisabeth Nobiling. Elas ganharam novo colorido após uma demorada restauração, concluída em julho de 2009. Os jardins foram projetados pelo próprio Burle Marx.

Feira Kantuta

Feira da Kantuta
Feira da Kantuta: pedaço da Bolívia em São Paulo (Foto: Veja São Paulo)

Uma típica flor boliviana, que contém as cores da bandeira do país (vermelha, verde e amarela), não só deu nome a uma praça no bairro do Pari, como também a uma feira que acontece por lá todos os domingos, das 11h às 19h. De 2 a 15 mil pessoas (em dias de festa), em sua maioria bolivianos e peruanos, passeiam pelas barracas espalhadas em torno da praça, que oferecem desde comida típica dos Andes até cortes de cabelo à moda latina (na entrada das tendas, há diversas fotos com modelos de cortes).

O movimento é maior a partir das 14 horas, quando filas se formam em busca das melhores salteñas (empanadas bolivianas), preparadas nos mais diversos sabores, que custam R$ 3,50, e bebidas típicas, como a cerveja Paceña, a R$ 7,00 a lata. Há também a opção do doce refrigerante peruano Inca Kola, a R$ 7,00 a garrafinha. Peças do vestuário andino, como blusas de malha de lã de lhama, e artigos artesanais, como moringas e bolsas, também são vendidos por lá.

Mistérios da cidade 2229 - Feira Kantuta
Bolívia: feira foi batizada com o nome de uma flor do país (Foto: Marcelo Justo/Folhapress)

Há ainda partidas de futebol e, eventualmente, danças e cantorias com figurinos típicos. No próximo dia 24 de janeiro será celebrada a Festa de Alasitas, em que se homenageia Ekeko, o deus da abundância. Pequenos artesanatos simbolizam os sonhos dos fiéis para o ano que se inicia, como malas que simbolizam o desejo de retornar à terra natal.

Casa Guilherme de Almeida

Casa Guilherme de Almeida ambiente externo
Espaço externo da Casa Guilherme de Almeida: cursos de cinema, tradução e poesia (Foto: Lua Nucci)

Quando o poeta, jornalista, ensaísta e tradutor Guilherme de Almeida (1890-1969)  decidiu se mudar para um sobrado no número 187 da Rua Macapá, ponto mais alto do pacato bairro do Pacaembu,  em 1946, os amigos o desencorajaram. “A região era muito remota, distante do centro. Nem caminhão de lixo passava por aqui”, explica Marcelo Tapia, diretor da Casa Guilherme de Almeida, museu criado em 1979, na antiga residência do intelectual.

A “Casa da Colina”, como Guilherme a chamava, hoje é o único lugar na cidade a abrigar o acervo completo de um escritor. Lá estão disponíveis ao público, em exposição permanente, telas de Anita Malfatti, Lasar Segall, Di Cavalcanti, Wagner de Castro, gravuras de Rugendas e Poty Lazzarotto, entre as 520 obras de arte e objetos decorativos. Entre documentos, periódicos, cartas e fotografias, a casa  possui mais de cinco mil itens. No acervo de livros, com cerca de seis mil volumes, destacam-se algumas raridades,  como as primeiras edições autografadas de Oswald de Andrade e Manuel Bandeira. As publicações mais antigas – algumas datam dos séculos XVII e XVIII – podem ser consultadas mediante agendamento.

Além de visitas guiadas, o espaço sedia um centro de estudos em tradução e oferece ao público cursos sobre literatura, tradução e cinema, recitais e saraus de poesia. Todo ano sedia o  Encontro Internacional de Tradutores e, eventualmente,  exposições.

Casa Guilherme de Almeida saleta de leitura
Saleta de leitura da Casa Guilherme de Almeida: cerca de 6 mil volumes (Foto: Lua Nucci)

Apesar de pouco conhecido do grande público, Guilherme de Almeida foi um importante nome da cultura paulistana no começo do século passado. Participou da Semana de Arte Moderna de 1922, ao lado dos amigos Mário e Oswald de Andrade, Anita Malfatti e Victor Brecheret. O intelectual também desenhou, ao lado de José Wasth Rodrigues, o brasão da cidade de São Paulo e lutou na Revolução Constitucionalista de 1932 – fato que o levou a ser enterrado no Obelisco do Ibirapuera.

Tour por Paraisópolis

Paraisópolis - vista
Paraisópolis: favela com mais de 80 mil habitantes (Foto: Divulgação)

Caminhar pelas ruas de Paraisópolis, maior favela de São Paulo, pode ser uma experiência artística. O passeio é voltado principalmente para estrangeiros, embora alguns brasileiros também procuram conhecer o enorme centro urbano na zona sul. O percurso é feito por alguns quarteirões, todos asfaltados, e recomenda-se pequenos grupos. "O ideal são quatro pessoas para um passeio confortável", conta Luis Paulo Simardi, da agência Around SP, que organiza o passeio. Mas eles também recebem grupos bem maiores. "Já fizemos com trinta turistas. A única diferença é que as regras ficam mais rígidas, como não tirar fotos das casas das pessoas".

Berbela - ateliê - Paraisópolis
Oficina de Berbela: objetos infantis espalhados pelos cômodos da casa (Foto: Divulgação)

A caminhada começa pela apresentação do restaurante Bom Prato, do governo do Estado, onde o almoço é servido a R$ 1,00 para pessoas carentes. Depois, a parada é na casa do mecânico Berbela. Em seu "ateliê", os quatro cômodos - inclusive o banheiro - estão repletos de pequenos objetos que fazem a alegria da criaçada. São bichinhos de brinquedos, como borboletas, formigas e aranhas, feitos de sucata. Tem também tanques de guerra e  helicópteros em miniatura, todos produzidos por ele. No pequeno terreno de frente para a casa, um amontoado de sucatas abre espaço para outras criações de porte maior como a bicicleta iluminada (enfeitada com mini-lâmpadas, rádio e televisão, a qual ele anda durante eventos da cidade) e o carrinho Kubanacan, uma espécie de kombi minúscula para a criançada andar.

Estevão Silva da Conceição - Paraisópolis
Casa de Estevão: entrada da Casa de Pedra (Foto: Divulgação)

O passeio continua por alguns quarteirões abaixo. Entre as casas, uma fachada de pedras chama atenção: a entrada é cheia de curvas, como uma caverna habitada, e revestida de pedras. Lá, na Casa de Pedra, mora o jardineiro Estevão, apelidado de Gaudí brasileiro. Ao entrar no pequeno hall, objetos antigos completam a decoração nas paredes e teto: utensílios domésticos, despertadores, telefones e até uma máquina de escrever estão pendurados por todos os cantos.

A diversão da garotada é escalar até o telhado por dentro da casa. Lá em cima, é possível apreciar o jardim, cuidado por Estevão. O artista já teve sua obra reconhecida. O Centro de Estudos Gaudinista o ajudou a conhecer as obras do arquiteto espanhol em Barcelona e participou do documentário "Gaudí en La Favela", do diretor Sergio Oksman, em 2002.

Favela Tour - Around SP

1 Passageiro: R$ 360,00

2 Passageiros: R$ 235,00

3 Passageiros: R$ 195,00

4 Passageiros: R$ 170,00

Informações: tel.: 2361-6821

 

Museu da Anatomia Veterinária
Um dos exemplares que fazem parte do acervo do Museu da Anatomia Veterinária (Foto: Divulgação)

Museus curiosos

Além dos acervos tradicionais do Masp, Pinacoteca, MAM e outros endereços, dez endereços na cidade se destacam por fugir do comum. São coleções que reúnem invenções malucas, frascos de perfume e fragâncias, relógios com formatos inusitados, dentre outras. Na Cidade Universitária, por exemplo, fica o Museu da Polícia Civil. Mais conhecido como Museu do Crime, o local conta com um acervo de aproximadamente 3.000 itens, entre fotografias, maquetes e objetos policiais e de crimes. Menos assustador, o Espaço Perfume Arte + História apresenta a história das fragâncias e aromas mais famosos do mundo por meio de um acervo de 500 peças. Além de conferir a exposição, os visitantes têm oportunidade de passar por uma experiência olfativa. Veja o roteiro completo.

 

Casarões mal-assombrados

Edifício Martinelli
Edifício Martinelli: loira ainda ronda os corredores do prédio (Foto: Elaine Cristina Mendes)

Lendas urbanas ou não, alguns edifícios e casas na capital paulista causam calafrios e guardam histórias fantásticas. No Edifício Joelma, onde aconteceu um grande incêndio em 1974, muitos frequentadores afirmam que espiritos vagam pelos corredores do prédio. Já no Edifícil Martinelli, uma garota loira que tirou a própria vida em meados dos anos 1930, diz a lenda, ainda continua andando por lá. Confira outros locais de arrepiar aqui.

 

Casarões Tombados

Casarão tombado - Casa Mário de Andrade
Casa Mário de Andrade: está entre os casarões que contam a história da cidade (Foto: Divulgação / Condephaat)

A casa na Rua Lopes Chaves, na Barra Funda, que hoje abriga a Oficina da Palavra Casa Mário de Andrade, foi realmente a residência do artista. Apesar de grande, para a época, a construção era típica de uma família de poucas posses. Outra preciosidade da cidade é a Casa das Rosas. Última construção de Ramos de Azevedo, a residência foi um presente de casamento dele para a filha, Lúcia. Estes são alguns dos exemplos de espaços que sobreviveram os tempos e ainda contam a história da cidade. A maioria deles está aberta ao público, seja como museu ou centros culturais. Veja onde voltar no tempo em São Paulo.

Fonte: VEJA SÃO PAULO