Comportamento

Jovens fazem "rolezinho da paquera" no Parque do Ibirapuera

Centenas de adolescentes se reúnem aos domingos em uma área para promover uma espécie de feira livre do beijo na boca

Por: João Batista Jr.

Aos domingos, o Parque do Ibirapuera recebe mais de 100 000 pesssoas. No fim da tarde, quando boa parte dos frequentadores já foi embora, começa outro tipo de movimento. Por volta das 18 horas, centenas de adolescentes chegam em revoada a um espaço fechado por árvores nas proximidades do Viveiro Manequinho Lopes, em uma região apelidada de “bananal”. 

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Eles ficam por lá até as 23 horas promovendo o rolezinho do beijo. A dinâmica se dá de forma bastante objetiva. Grupos pequenos vão se formando de acordo com as orientações, anunciadas aos gritos aos que se aproximam, como ofertas de uma feira livre: héteros, lésbicas e gays. O local onde o encontro dos adolescentes ocorre é um breu, não há se quer um poste de luz. A alternativa é acender isqueiros ou ativar a lanterna dos smartphones para ver melhor os possíveis parceiros. Se houver alguma afinidade na troca de olhares, eles ficam imediatamente, sem nenhum tipo deconversa ou preâmbulo romântico.

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O negócio vem funcionando por ali há cerca de dois anos, mas registrou aumento de adesão nos últimos seis meses, depois que os rolezinhos em shoppings ganharam popularidade na capital. Na maior parte das vezes, a reunião ocorre de forma espontânea. Algumas são convocadas por Facebook, como a da semana passada, batizada na rede social de Rolezinho Gatuzos M1il Gr4u.

Juntos, os jovens compõem uma babel de estilos: há skatistas, gente de cabelo moicano, os que vestem camisetas justas da Abercrombie & Fitch e aqueles que usam acessórios enormes e reluzentes como fazem as estrelas do funk ostentação. Há quem apareça por lá deslizando em prancha ou andando em sua bicicleta. A proporção entre héteros e gays é meio a meio. Apesar do clima liberal entre os jovens, somente uma minoria se aventura a ir adiante. Nesses casos, os mais saidinhos vão transar em uma trilha nas proximidades do Manequinho Lopes. Nos eventos, são consumidos cervejas e cigarros, incluindo os não convencionais.

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Adolescentes vendem por lá maconha por 5 reais. Os seguranças do parque (182 no total) não costumam incomodar e raramente ocorrem brigas e confusões. O comerciante Abimael Santos, de 37 anos, mais conhecido como Bill, presenciou uma delas. Em fevereiro, registrou um boletim de ocorrência no 14º Distrito Policial como testemunha de uma agressão.“Um vigia deu pauladas em dois gays que estavam de mãos dadas”, acusa.

Procurados pela reportagem de VEJA SÃO PAULO, os responsáveis pelo parque não quiseram comentar o assunto, alegando que as reuniões não são promovidas pela administração do local. Para os frequentadores, a diversão rola solta sem nenhum tipo de culpa ou encanação.“Venho todos os domingos, sem falta”, diz a operadora de telemarketing Glória Stefany da Silva, de 20 anos, moradora do Jardim Marabá, na Zona Sul. “Já fiquei com muitos meninos e, além disso, acompanho minha irmã”, conta a garota, referindo-se a Rosana, 23, lésbica assumida. “Nossa mãe é evangélica e não aceita, então acabo vindo para curtirmos juntas e para dar meu apoio a Rosana”, explica Glória, que faz o estilo despachada. Diz gostar de rapazes que curtem funk e andam de skate.

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Há três semanas, no entanto, começou um namoro. “Agora, minhas idas aos rolezinhos vão ser mais para ver o povo se divertir. Minha farra acabou”, jura. Seus amigos do Ibirapuera vão seguir a toada da paquera. “Tem domingo que chego a ficar com mais de vinte meninos”, conta Roberto Igor de Oliveira, de 18 anos, vendedor de uma loja de cosméticos com dez piercings no rosto.“Até encontro uns caras feios, mas na maioria os que aparecem aqui são bem gatinhos.”

Beto, como é chamado pelos colegas, leva uma hora, de ônibus,de sua casa, em Interlagos, até o Parque do Ibirapuera. Ele conheceu nos rolezinhos seus dois últimos namorados, com quem ficou dois e nove meses, respectivamente. “Vir aqui me ajudou a arrumar amigos gays, coisa que eu quase não tinha”, afirma. Antes das reuniões atuais, os encontros ocorriam no Autorama, um terreno do parque onde o Detran realiza durante o dia testes de habilitação com motociclistas. À noite, o local virava point gay. A partir de 2013, passou a ser fechado da meia-noite às 5 horas. O rolezinho da paquera surgiu quase em seguida.

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Para a sexóloga Laura Muller, o encontro harmonioso entre jovens gays e héteros em um mesmo espaço é positivo.“Mas o beijo na boca não é a mesma coisa que apertar a mão ou dar tapinha nas costas”, diz. “Eles deveriam ter mais respeito com essa prática, que não deixa de ter conotação sexual.”

Bagunça organizada

› Centenas de jovens chegam ao local a partir das 18 horas.

› Eles formam pequenos grupos e gritam suas orientações sexuais e estilos: “héteros”, “gays”, lésbicas”,“lésbicas femininas” e “bofinhos”.

› Os interessados vão até esses grupos, trocam olhares e, se aprovados, começam a beijar.

› Alguns ficam com maisde vinte parceiros por dia.

› A cerveja é consumida por vários, e poucos fumam narguilé. Traficantes (também adolescentes) vendem maconha por 5 reais.

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Fonte: VEJA SÃO PAULO