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Rota gastronômica improvável se forma perto da Cracolândia

Edgar Villar, do Rinconcito Peruano, prepara-se para abrir seu terceiro restaurante nos arredores

Por: Fábio Galib

Edgar Villar Rinconcito Peruano
Villar: de camelô de bijuterias a chef (Foto: RICARDO D’ANGELO)

O cenário temeroso está esculpido no imaginário paulistano: viciados em drogas andam a esmo por ruas imundas, com olhos vidrados e roupas em farrapos, prestes a irromper em atos de violência. A Cracolândia é algo tão desolador quanto real e tem uma geografia bem definida. Compreende a área formada pelas avenidas Duque de Caxias, Rio Branco, Ipiranga e Cásper Líbero mais a Rua Mauá. Na prática, contudo, o problema estende-se até a Avenida São João, em cujo perímetro proliferam botecos insalubres, lojas de motopeças e pequenos hotéis. Nos últimos anos, a cidade assistiu a uma série de iniciativas do governo do estado e da prefeitura para resolver a questão.

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Apesar disso, o problema persiste e poucos negócios conseguem ter sucesso em uma região tão degradada. O restaurateur Edgar Villar, de 37 anos, representa a exceção mais surpreendente. Descolados rapazes barbudos de camisa xadrez e moças de vestidinho, que até pouco tempo atrás jamais pensariam em trocar a Vila Madalena por aquele pedaço, hoje batem ponto na Rua Aurora com um destino certo — o Rinconcito Peruano.

Diferentemente de outros estabelecimentos com o mesmo sotaque em atividade na capital, a casa aberta há uma década por Villar no número 451 daquela via não tem decoração luxuosa nem menu contemporâneo. Apoia-se na comida cotidiana do Peru e vende lomo saltado, arroz chaufa e, claro, muito ceviche.

Os pratos típicos, bons e baratos, propalados no boca a boca, ganharam aura hipster e fizeram com que, nos últimos três anos, o endereço entrasse de vez no roteiro gastronômico. “Abri a casa para fazer marmitas. Nunca imaginei que faria esse sucesso todo”, diz Villar. Sem ter como acomodar o tanto de gente que atravessava a cidade para conhecer o espaço, ele ampliou pela primeira vez o salão em dezembro de 2013.

Em julho passado, investiu em um segundo ponto ali perto, na Rua Guaianases, e três meses atrás foi a vez de abrir um restaurante no Tatuapé. Sua última tacada envolveu a inauguração, no fim de 2015, de seu quarto Rinconcito, em um imóvel de proporções grandiosas, com 200 lugares, na esquina da Aurora com a Avenida Vieira de Carvalho. Desconfiado, Villar não fala em números, mas admite que gastou “muito dinheiro” na reforma. “Para mim, a crise não chegou”, sorri.

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A matriz do Rinconcito: salão ampliado (Foto: Ligia Skowronski)

O restaurateur da Cracolândia prosperou numa área que hoje pode ser considerada a meca dos restaurantes étnicos. A menos de uma quadra dali funciona o Rosa do Líbano, administrado por dois emigrantes do país. O Biyou’Z, da camaronesa Melanito Biyouha, também não fica muito longe. Há ainda uma série de lugares no pedaço onde “forasteiros” não são bem-vindos, sobretudo aqueles tocados por nigerianos.

“O temor de que uma fiscalização ponha tudo a perder é grande”, teoriza Villar. Ele se refere ao tempo em que funcionava de forma improvisada, à margem de quaisquer normas. Hoje, está plenamente regularizado pela vigilância sanitária. Pudera. Seu negócio envolve mais de setenta funcionários, atende até 1 500 clientes num único dia e só de peixe consome 3 toneladas por mês.

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Villar é dono de uma daquelas histórias que rendem livro. Nascido na região de Apurímac, próxima a Cuzco, mudou-se aos 12 anos para a capital do Peru, Lima, onde vendeu balas e frutas para bancar a vida na metrópole. Aos 21, sem conseguir custear a faculdade de educação física na qual havia ingressado, resolveu largar tudo e veio para São Paulo, numa viagem de ônibus que durou oito dias.

Desembarcou na Avenida Rio Branco sem um tostão no bolso. E foi ficando por aqui. Vendeu bijuterias em troca de teto, cansou de fugir da polícia e resolveu pôr em prática as receitas que fazia na juventude para matar a fome. Deu no que deu. Atualmente, na hora de contratar funcionários, Villar prioriza conterrâneos, muitos com história parecida com a dele.

Não raro, um ou outro acaba abrindo um endereço concorrente. Basta andar pela região para notar, sobretudo na Guaianases, a profusão de casas de cozinha peruana, algumas delas igualmente convidativas, como o Arequipa e o Sabor Peruano. Villar agora sonha em levar seu menu para áreas nobres, como o Itaim Bibi. Mas abrir mão do centro, jamais. “Este é o lugar que me proporcionou tudo o que tenho hoje. Não é tão bonito, mas está bem melhor.” Pelo menos em relação à comida, o restaurateur tem razão.

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Cozinha de imigrante

Os endereços étnicos da região

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Prato do Rinconcito Peruano (Foto: Ligia Skowronski)

Latinos: os peruanos predominam,como o próprio Rinconcito e o Sabor Peruano (Rua Guaianases,153). Mas há os especializadosem pratos da Colômbia, caso do Los Rolos (Rua Guaianases, 70).

BiyouZ
Melanito Biyouha, do Biyou’Z (Foto: Ligia Skowronski)

Africanos: o afamado Biyou’Z (Alameda Barão de Limeira, 19), da camaronesa Melanito Biyouha, serve uma comida saborosa. Coladinhos a ele, há restaurantes nigerianos não tão convidativos.

ROSA DO LIBANO
Refeição do Rosa do Líbano (Foto: Ligia Skowronski)

Árabes: o Habib Ali mudou de nome e de dono. Agora chama-se Rosa do Líbano (Avenida Rio Branco, 443) e continua servindo ótimos kebabs e esfihas.

Fonte: VEJA SÃO PAULO