Restaurantes

Restaurante Spot, a vitrine da Avenida Paulista

Lotado de artistas e modernos, o local é um dos mais duradouros templos da badalação paulistana

Por: Alvaro Leme - Atualizado em

Uma gargalhada escandalosa ecoa pelo salão cheio de sofazinhos vermelhos. É Preta Gil, animada por encontrar as colegas de cantoria Adriana Calcanhotto e Zélia Duncan. Perto delas, Adriane Galisteu come uma salada bowl diante de seu séquito de assistentes. Sabrina Sato, a caminho do banheiro, chama atenção com uma saia tamanho micro. Ninguém, no entanto, rouba mais olhares que Caetano Veloso, dividido entre seu penne limão e o papo com a coreógrafa alemã Pina Bausch. São cenas de uma noite de sábado no Spot. Mas poderiam ser de uma segunda ou quarta-feira, já que todo santo dia há turminhas de famosos espalhadas pelas 33 mesas do restaurante, um dos mais badalados de São Paulo. "Às vezes isto aqui parece tapete vermelho do Oscar", afirma Sérgio Kalil, um dos proprietários.

Kalil atua como uma espécie de embaixador: caminha pelos 140 metros quadrados da casa, de mesa em mesa, cumprimenta os clientes e pergunta se a comida está boa. "Essa atenção dele faz toda diferença", acredita a produtora de eventos Patrícia Casé, que bate cartão quase toda semana com amigos como o DJ Zé Pedro, a irmã Regina e outras estrelas. O comando do negócio é dividido com três sócios, cada um com funções bem definidas. Criadoras do cardápio, Maria Helena Guimarães e Lygia Lopes reinam na cozinha (veja crítica gastronômica), enquanto José Guilherme Meirelles fica de olho na estrutura física e administrativa. Reúnem-se para almoçar às segundas e quintas-feiras, ocasiões em que discutem também o andamento de outro restaurante de sucesso de parte do grupo, o Ritz. Juram que nunca brigam. "Temos liberdade total para dizer um ao outro que uma idéia é uma porcaria", afirma Kalil. "E ninguém se magoa."

Se desperdiçassem tempo com picuinhas, os sócios talvez não dessem conta da clientela. Pelo menos 400 pessoas passam por lá diariamente, seja para comer, seja para tomar caipirinha de tangerina ou de lima, hits do menu. O número quase dobra se há grandes eventos culturais na cidade. Em época de Casa Cor, por exemplo, o lugar fica cheio de arquitetos e decoradores. Durante a Fashion Week, chegam modeletes e estilistas. Nestes dias, gente ligada à Fórmula 1 e à Mostra de Cinema marca presença. Todos, porém, precisam ter paciência de Jó para descolar uma mesa – conseguir um lugar no salão pode demorar de quarenta minutos a duas horas. Bem, quase todos. Um ou outro amigo dos donos tem carta-branca para telefonar quando estiver saindo de casa e entrar na lista de espera antes mesmo de cruzar a porta giratória. Exceto para esse seletíssimo grupo, em geral a ordem de aguardar é democrática. "Um filho de deputado tentou me dar carteirada", lembra o gerente René Italo, encarregado de controlar quem senta, quando e onde. "Expliquei que até candidato à Presidência entra na fila", exagera.

Parte do sucesso deve-se à localização do restaurante: no coração da Avenida Paulista, atrás do prédio da Caixa Econômica Federal. Mas isso não explica tudo, pois o ponto já foi micado. Em janeiro de 1994, quando abriu as portas, a casa era considerada uma aposta arriscada. "As pessoas tinham medo de vir dos Jardins para o outro lado da Paulista", explica Maria Helena. O imóvel, antes ocupado pelo restaurante Praça Paulista, exibia deteriorações surgidas durante os dois anos em que ficara fechado. Já estavam lá, no entanto, as paredes de vidro, que acabaram por se tornar quase um personagem na história do espaço. Além de possibilitar a vista para o chafariz instalado logo em frente, elas aumentam a sensação de que ali é mesmo um lugar para ver e ser visto, o que ajuda a entender melhor a atração que o Spot exerce.

No auge da era das celebridades, as paredes de vidro facilitaram o trabalho dos paparazzi de roubar fotos – prática condenada pelos donos, claro. Do lado de dentro, os famosos vivem momentos que podem virar notícia. Em julho passado, Luana Piovani assumiu seu namoro com Dado Dolabella numa das mesas. Coincidência ou não, foi no mesmíssimo dia em que seu ex, Rico Mansur, estampava capas de revista ao lado de uma nova paixão. Também é conhecido o caso de uma loira, modelo e atriz, que chegou ao Spot vestida para matar, determinada a seduzir o astro mexicano Gael García Bernal, que lá estava com o diretor Walter Salles. E conseguiu.

O restaurante tem estrelas também em sua equipe de 34 garçons. Só falta ficarem famosos, como aconteceu com dois antigos funcionários, a cantora Céu e o apresentador Marcos Mion. Este, aliás, protagonizava uma cena que ilustra bem o perfil do staff: ia trabalhar ao volante de uma Blazer novinha em folha, que deixava com o manobrista. "No Spot, o nível dos clientes e dos garçons é bastante parecido", diz outra ex-garçonete, a atriz Maria Manoella. Toda semana, vinte candidatos fazem teste para entrar na brigada – o salário é de até 2 000 reais, dependendo das gorjetas. Levam vantagem os mais bonitos. Opa! Bonitos, não. "Seleciono pessoas interessantes", afirma Kalil. "Gente que você sente vontade de conhecer melhor."

Lotado dia sim, dia também, o Spot contará a partir de janeiro com uma facilidade para os clientes que procuram somente a comida: um serviço de entrega em domicílio. Deve diminuir um tantinho a espera pelas mesas, mas nada que anime quem detesta ficar na fila. Afinal, sempre haverá muita gente interessada numa bela vitrine.

Das mesas para as colunas sociais

Em julho, no mesmo dia em que viu seu ex com outra na capa de uma revista de celebridades, Luana Piovani escolheu o Spot para circular com o novo namorado, Dado Dolabella.

Noite literária: de tempos em tempos, parte do restaurante é fechada para sessões de autógrafos como a promovida por Scarlet Moon, que lançou lá seu livro, no mês passado. Marisa Orth foi cumprimentar a autora

Através do vidro: semitransparentes, as paredes fazem a alegria de alguns paparazzi. Há dois anos, um deles, na cola da então recém-separada Danielle Winits, driblou a segurança da casa e roubou um clique da atriz, que batia papo com amigos

Menu basiquinho que agrada há mais de uma década

Arnaldo Lorençato

Lotado todos os dias, o Spot mantém um público cativo desde sua inauguração, em 1994. O restaurante oferece à ruidosa clientela receitas despretensiosas, feitas com ingredientes de qualidade e cheias de sabor. Quando conceberam o cardápio, as sócias Maria Helena Guimarães e Lygia Lopes escolheram pratos simples, que não cansassem o paladar e pudessem ser repetidos de tempos em tempos. A fórmula deu tão certo que, apesar de reduzido, o menu permanece quase imutável.

Das quatro sugestões de steak, a versão coberta por gorgonzola (R$ 27,30) é gratinada até o queijo se tornar cremoso. A carne casa bem com o aspargo salteado ao aroma de gengibre (R$ 12,40), cobrado separadamente como todas as guarnições. Outra pedida de sucesso, o penne ao melão e presunto cru (R$ 21,20, meia porção; R$ 30,70, inteira) vem com um toque de tomate e creme de leite fresco. Antes de passar aos pratos principais, prove o bazergan (R$ 14,40), de inspiração turca. Trata-se de uma combinação de coalhada seca e trigo ao tempero de nozes e melaço de romã na companhia de torradas de pão árabe.

Quem ainda não conhece o restaurante precisa munir-se de paciência. A longa espera, porém, faz parte do programa para os habitués no jantar. Outro detalhe importante: o serviço está longe de ser atencioso, embora seja gentil. Na noite da visita, transcorreram-se trinta minutos entre o momento em que a garçonete deixou o cardápio para a escolha da sobremesa e o instante em que foi tirado o pedido. O delicioso suflê de chocolate amargo (R$ 13,80) chegou à mesa quinze minutos depois.

Spot, Alameda Ministro Rocha Azevedo, 72, Cerqueira César, Tel. 3283-0946 e 3284-6131, Metrô Consolação (100 lugares). 12h/15h e 20h/1h (sáb., dom. e feriados almoço 13h/ 17h). Cc.: todos. Cd.: M, R e V. Cr.: todos (só no almoço). T.: todos (só no almoço). Estac. c/manobr. (R$ 8,00 no almoço de seg. a sex.; grátis nos demais horários). www.restaurantespot.com.br. Aberto em 1994. $$$

Fonte: VEJA SÃO PAULO