Comportamento

Restart: gritos e lágrimas e cores

Acompanhamos o show da banda ao lado da 'família' de fãs adolescentes

Por: Giovana Romani - Atualizado em

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Aos prantos: para garantir lugar na frente, meninas dormiram na calçada (Foto: Fernando Moraes)

Azul-piscina, verde-limão, amarelo-gema, vermelho-tomate, rosa-chiclete... Calças das mais variadas tonalidades extravagantes tomaram conta das redondezas do HSBC Brasil, na Chácara Santo Antônio, no fim da tarde do último domingo. Na porta da casa de espetáculos, ambulantes diversificavam seu negócio: além de faixas e camisetas, vendiam imitações coloridas do modelo de óculos Wayfarer, da Ray-Ban, modinha entre os teens. Para completar o figurino, tênis chamativos e camisetas oficiais. Vestidos a caráter, meninos e meninas caminhavam apressados — afinal, faltava pouco para as 6 da tarde, horário marcado para a quinta edição do Happy Rock Sunday, projeto da banda Restart. Pelu, 19 anos, Pe Lanza, Thomas e Koba, todos com 18, paulistanos de classe média, criaram o grupo há dois anos, quando ainda estudavam no Colégio João XXIII, na Vila Sônia. Com canções alegres de temática adolescente (estilo batizado por eles de “happy rock”), os garotos estouraram mesmo poucos meses atrás. Tempo suficiente para formarem a família Restart, como se autodenominam os fanáticos. 

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As primas Bianca Fernandes, de 11 anos, e Maria Stela Leão, de 10: vestidas a caráter (Foto: Fernando Moraes)

“Amo o Pe Lanza”, contou Thamires Pereira, de 13 anos, sobre o vocalista e baixista. “Ele combina muito comigo.” Moradora de São Bernardo do Campo, a menina saiu cedo de casa e pegou quatro ônibus para chegar ao HSBC Brasil. Antes do início da apresentação, ela e outras seis vencedoras de uma promoção foram ao camarim. Beijaram e abraçaram os ídolos efusivamente. Algumas choraram e fizeram declarações de amor. “Qual pergunta ninguém fez e vocês gostariam de responder?”, questionou uma. “Se a gente é gay”, rebateu Pe Lanza. “E não, não somos!”. Nos bastidores, os músicos contam com uma equipe de oitenta pessoas. Um cabeleireiro fica de plantão para dar forma aos penteados meio lisos, meio arrepiados. Já têm até segurança brigão, capaz de soltar frases como esta: “Você sabe com quem está falando?”. 

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Thomas, Pelu, Pe Lanza e Koba: “Temos chance com alguma de vocêêêês?” (Foto: Fernando Moraes)

Por volta das 18h40, algumas garotas haviam perdido a voz de tanto gritar. Iam ao delírio quando o DJ tocava hits de outros ídolos, como ‘One Time’ do cantor canadense Justin Bieber. Para garantir o melhor lugar, muitos chegaram cedo. Muito cedo. A estudante Caroline Tie, de 14 anos, aportara ali às 13 horas do dia anterior. Dormiu na calçada, aquecida por vários cobertores — na madrugada de domingo, a mínima foi de 11 graus. “É muito bom participar do sucesso do Restart”, disse a jovem, ainda contida. “Fico alegre só de vê-los sorrir.” Pouco depois das 19 horas, as cortinas se abriram e Caroline caiu em prantos. Chorava copiosamente em uma espécie de competição velada com as vizinhas pelo título de mais desesperada. Elisa Padovan, de 15 anos, nem sequer ouviu ‘Recomeçar’, a música de abertura. Após virar a madrugada e o dia alimentando-se apenas de bolachas, sentiu-se mal e precisou ser socorrida pelos bombeiros. Pelo menos outras dez garotas passaram o show na enfermaria. 

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Garotas faziam fila na escada para encontrar a banda: 80 reais por um kit com camiseta, fotos e pulseira de acesso ao camarim (Foto: Fernando Moraes)

Cada um dos quatro integrantes tem fãs-clubes próprios. Quem gosta do moreno Pelu, por exemplo, usa um pingente de acrílico em formato de soco-inglês igual ao dele. As apaixonadas pelo sansei Koba colocam-se na lateral direita da plateia, posição ocupada pelo guitarrista no palco. Nos camarotes, mães e pais (a família de verdade) permanecem sentados. Chega a hora da balada romântica ‘Levo Comigo’ e mãos formando corações são levadas ao alto, equivalente ao acender dos isqueiros, comuns em shows de rock no passado. “Aqui no palco somos quatro solteiros”, provocou o vocalista. “Será que temos chance com alguma de vocêêêês? Vocês são lindaaaas.”

20h30. Fim do show. As 4 000 pessoas que lotaram o HSBC Brasil começam a ir embora. Ainda resta tempo para covers não oficiais posarem para fotos. “Fiz até escova progressiva para parecer o Thomas”, afirmou Leonardo Rames, de 15 anos. Duzentas pessoas formaram uma fila para entrar no camarim. As estudantes Carina Sena e Bárbara Molina, ambas de 17 anos, viajaram quatro horas e meia de Cuiabá (MT) a São Paulo. Pagaram 80 reais — além do preço do ingresso — por um kit com camiseta, CD e fotos que dava direito a ver todo o azul, o laranja, o verde e o amarelo do quarteto bem de perto. Afinal de contas, família, família, negócios à parte. 

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Vencedoras de uma promoção foram ao camarim, beijaram e abraçaram os ídolos efusivamente. (Foto: Fernando Moraes)

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO