Crise hídrica

Os problemas ambientais da Represa de Guarapiranga

Cercado de assentamentos clandestinos e poluído pelo despejo de esgoto, o manancial assume o posto de principal fornecedor de água da capital

Por: Silas Colombo

represa de guarapiranga jardim são luiz
A represa na região do Jardim São Luiz: 1 milhão de moradores no entorno (Foto: Maurício Simonetti)

Considerada um oásis para velejadores e amantes de esportes aquáticos da capital, a Represa de Guarapiranga, na região de Santo Amaro, no extremo da Zona Sul, é cercada  por aproximadamente 1 milhão de habitantes, com perfis bem distintos. De um lado, serve de paisagem para mansões com iates. Do outro, banha as vilas formadas por assentamentos clandestinos. O manancial, no entanto, assume agora um papel ainda maior no abastecimento da cidade, ficando com o posto de principal fonte de fornecimento de água da região metropolitana de São Paulo. Ele desbancou recentemente o Sistema Cantareira, o líder absoluto até então.

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Com potencial para armazenar 171,2 bilhões de litros (quase um sexto da capacidade do Cantareira), a Guarapiranga é uma pequena notável. Criada em 1908 para mover a Usina Hidrelétrica Edgard de Souza, em Santana de Parnaíba, passou a encher caixas-d’água só vinte anos mais tarde. Com um estoque confortável (registrava 77,4% na semana passada), mesmo durante a pior crise hídrica da história do estado, acabou virando protagonista no plano de emergência da Sabesp. No começo de 2014, as águas da Guarapiranga atendiam 3,9 milhões de pessoas. Desde fevereiro, porém, chegam às torneiras de 5,8 milhões de paulistanos. Em contrapartida, nesse mesmo período, o Cantareira, que abastecia 8,8 milhões de moradores antes da crise, produz hoje água para 5,6 milhões de clientes. A mudança de posição se deu pela redução da vazão nos canos que vêm do norte do estado, com um corte de 56% em relação a fevereiro de 2014.

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Estação de Tratamento Alto da Boa Vista: reforma de 76 milhões de reais (Foto: Beatriz do Valle/Sabesp)

Nos últimos meses, a Sabesp gastou 76,5 milhões de reais em membranas ultrafiltrantes para aumentar a capacidade de tratamento do líquido altamente poluído da Guarapiranga. O ganho em produção permitiu que o sistema passasse a abastecer os bairros do Cambuci e Aclimação, as vilas Independência e Monumento, além de parte da Mooca, locais antes atendidos pelo Cantareira. Em paralelo, a adesão dos clientes ao bônus de economia deixou um excedente de água que pôde ser bombeado para o Brooklin, Jabaquara, Pinheiros, Sacomã e Vila Olímpia. Ainda neste ano, a retirada de água do Guarapiranga deve atingir a marca recorde de 16 000 litros por segundo, com novas adaptações nas bombas e na pressão da rede. Castigado por décadas de invasões e assentamentos ilegais nas áreas de manancial das margens, o reservatório recebe diariamente 300 toneladas de esgoto e lixo gerados pelos moradores do entorno.

A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) considera que os fluidos de lá são impróprios para banho e consumo, pois estão contaminados por coliformes fecais, mercúrio e outros produtos químicos. Não bastasse essa sujeira, parte da responsabilidade pelo estoque cheio é creditada à transposição de 4 000 litros por segundo de afluentes da Represa Billings — que é mais poluída ainda. “A qualidade dessa água, mesmo depois de tratada, é extremamente questionável”, afirma o gestor ambiental Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental. A Sabesp garante dispor de tecnologia para transformar o líquido da Guarapiranga em bebida potável. “Nossos processos são capazes de tratar fluidos muito mais degradados que esses”, explica o superintendente de produção de água da empresa, Marco Antonio Barros. A despoluição completa da área, que poderia levar até vinte anos, não está nos planos.

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A situação dos reservatórios que atendem à área metropolitana (Foto: Sabesp)

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Caso as chuvas continuem caindo por aqui com regularidade, crescem as chances de a capital enfrentar o próximo período de estiagem (de abril a outubro) sem precisar recorrer a um rodízio severo. Segundo cálculos da Sabesp, o estoque seria suficiente até a inauguração de obras emergenciais, como a construção do Sistema Produtor São Lourenço, que colocará mais 4 700 litros de água por segundo nos canos. A ideia desse e de outros projetos é diminuir ainda mais a dependência que se tem do Cantareira. Mesmo com a colaboração de São Pedro nos primeiros meses de 2015, o reservatório ainda se encontra longe da recuperação. E isso só pode ocorrer dentro de cinco anos, no caso de condições climáticas favoráveis. ■

Fonte: VEJA SÃO PAULO