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Medo do mosquito Aedes aegypti provoca correria por repelentes

Produto mais disputado, o Exposis some das prateleiras das farmácias da capital, que fazem lista de espera

Por: Sérgio Quintella

Falta de repelente em São Paulo
A professora Tatiana Manaf, com a filha Marina: só restou um frasco de reserva (Foto: Antonio Milena)

Grávida de quase cinco meses, a psicóloga Léssel Della Manna tem se preocupado com duas contagens regressivas em que o número 20 se destaca. Uma é a da quantidade de semanas de gestação que restam até o nascimento do segundo filho. A outra é a da lista de espera de clientes da unidade de Pinheiros da Drogasil, onde Léssel (a vigésima da fila) tenta comprar o repelente Exposis.

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Desde que os casos de microcefalia (condição em que o feto tem problemas no desenvolvimento do cérebro) relacionados ao vírus zika, transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, eclodiram na Região Nordeste, disparou a procura pelos produtos anti-inseto na capital.Isso se deu apesar de não haver nenhuma vítima que tenha sido contaminada aqui.As doze ocorrências notificadas pela Secretaria Municipal da Saúde são de pessoas provenientes de outras cidades.

Desde 11 de novembro, data em que o Ministério da Saúde decretou situação de emergência no país devido à relação zika-microcefalia, as drogarias paulistanas são alvo de uma corrida em busca do frasco azul ou amarelo de 100 mililitros do Exposis, tido como um dos melhores produtos do gênero. Ele carrega o princípio ativo icaridina e é vendido por cerca de 50 reais. 

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Nem as lojas de equipamentos de pesca, que também comercializam o repelente, escaparam do assédio. Na semana passada, a reportagem de VEJA SÃO PAULO procurou o Exposis em mais de trinta farmácias e estabelecimentos náuticos da cidade, mas não o encontrou em nenhum deles. 

Há casos em que a lista de espera contém mais de 100 nomes, como na Drogaria São Paulo da Avenida Brigadeiro Luís Antônio.A professora Tatiana Manaf é uma das consumidoras que ficaram na mão. Após peregrinar por drogarias da Mooca e do Belém, na Zona Leste, começou a pesquisar o item nos sites das principais redes. Em vão: Tatiana não consegue encontrar o repelente mais cobiçado do pedaço. Ela ainda tem um frasco de reserva, mas não sabe o que fará quando o pequeno estoque terminar. “Melhor nem pensar nisso”, diz.

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A demanda é tanta que o laboratório Osler, fabricante do Exposis, precisou mudar sua estratégia para dar conta de abastecer o público. Assim, teve de incrementar a produção deste mês em 1 100% — a meta era 200% a mais até o fim do verão de 2016. Para acelerar o processo, a icaridina passou a ser enviada de avião da Alemanha, em vez de navio. “Houve aumento de custos, mas vamos absorver isso e não será necessário elevar os preços”, afirma o dono da empresa, Paulo Guerra, que prevê a normalização do atendimento ao longo das próximas duas semanas.

Falta de repelente em São Paulo
A professora Tatiana Manaf, com a filha Marina: só restou um frasco de reserva (Foto: Antonio Milena)

A icaridina é só uma das substânciasindicadas para afastar o mosquito. Os princípios ativos DEET e IR3535, presentes em repelentes que não estão emfalta, como Repelex e Off, entre outros, também são eficazes. “A característica diferente do Exposis é o maior tempo de repelência, mas isso não significa que haja melhores resultados”, explica a coordenadora científica da Sociedade Brasileira de Dermatologia, Denise Steiner.

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Profissionais de saúde advertem apenas para os cuidados com a aplicação em gestantes e crianças.“Todos esses produtos funcionam bem; em caso de dúvida, basta ler a bula”, diz o médico Érico Arruda, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia. Há poucos dias, a associação de defesa do consumidor Proteste avaliou o tempo de repelência dos principais produtos no mercado e constatou que muitos atuam por um período menor que o anunciado na embalagem. É o caso do próprio Exposis, que promete dez horas de proteção mas desapareceu da pele em três.

Mesmo assim, ele foi o campeão da pesquisa. O Repelex, da Reckitt Benckiser, que sugere quatro horas de tranquilidade, sumiu na metade do tempo. Em 2015, o setor de repelentes faturou 5,7 milhões de reais na cidade, um crescimento de 69% em relação ao ano passado, segundo dados da auditoria Close-Up International.

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Enquanto a população se arma, a prefeitura promete utilizar drones para mapear áreas de difícil acesso e identificar focos do mosquito.  Além disso, afirma que instalará bandeiras em um raio de nove quarteirões a cada notificação de dengue a partir de janeiro. A preocupação tem motivo. Dados epidemiológicos preveem a ocorrência de 250 000 casos da doença em 2016, mais que o dobro deste ano. Segundo a administração municipal, o crescimento deve se dar, entre outros motivos, devido ao aumento da temperatura média.

 

Tira dúvidas. Os principais cuidados para prevenir os problemas: 

O Exposis é o único produto do mercado com eficácia comprovada?

Não, mas ele dura mais tempo sobre a pele do que os concorrentes, segundo estudo da Proteste.

Como se deve utilizar o repelente?

Aplicando-o três vezes ao dia e evitando o uso logo antes de ir para a cama.

É preciso fazer estoque para o verão?

Não, a entrega às farmácias deve ser regularizada até janeiro.

Quem viaja para o litoral ou interior precisa tomar cuidados adicionais?

Sim, evitar regiões com alta incidência de doenças transmitidas pelo Aedes aegypti, como o Nordeste.

Moradores da capital correm risco de ser infectados com o vírus zika?

Até agora não há caso de habitante da cidade que tenha contraído a doença.

Fonte: VEJA SÃO PAULO