Joias

Relógios ganham novos materiais que incluem até meteorito

Para atrair uma nova geração de consumidores, a alta relojoaria substitui os tradicionais ouro, aço, platina, safira e madrepérola

Por: Rosane Queiroz

Relógio
IWC Aquatimer Chronograph Expedition Charles Darwin (R$ 28 000,00): caixa de bronze (Foto: Divulgação)

Nem tudo o que reluz é ouro, aço ou platina na relojoaria atual. O repertório das manufaturas agora conta até com pedaços de meteorito. “Materiais não convencionais atraem o público que não quer aquele relógio como o do avô”, diz Stephanie Aubry, gerente da IWC Schaffhausen no Brasil. Pioneira na utilização do titânio, material que revolucionou o mercado nos anos 80, a IWC apresenta o Aquatimer Chronograph Expedition Charles Darwin, o primeiro da marca com caixa de bronze — a receita leva uma porcentagem extra de alumínio para tornar o cobre menos avermelhado e mais resistente. A escolha da liga é inspirada no navio britânico HMS Beagle, que levou Darwin, em 1835, à expedição marítima de quatro anos até Galápagos.

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Fundada em Florença, em 1860, a Officine Panerai foi pioneira na aplicação do bronze, ligado aos esportes náuticos e ao DNA da manufatura, fornecedora de instrumentos de precisão para as operações subaquáticas da Marinha italiana. “As embarcações e os acessórios de mergulho antigos estão repletos de objetos de bronze”, diz Marcello Giusti, gerente da Officine Panerai em São Paulo. O Luminor Submersible 1950 3 Days Power Reserve Automatic Bronzo, lançado em 2011 e reeditado em 2013 — em edições limitadas a 1 000 unidades —, leva uma liga de cobre e estanho em estado puro, de nome químico CuSn8, resistente à corrosão. A característica particular do bronze, contudo, é que, com a passagem do tempo e as mudanças de clima, o material oxida. “A sensação é de um relógio customizado, que muda conforme as aventuras do proprietário”, diz Giusti. “Os colecionadores trocam ideias sobre o que aconteceu com o relógio, postando fotos e dizendo: ‘Fui mergulhar e meu relógio ficou ‘assim ou assado’.”

“A concorrência levou as relojoarias a inovar não apenas no que se passa dentro da caixa — as complicações —, mas também no exterior”, comenta Sestilio Paciotti, ex-diretor da Breguet e Jaeger-LeCoultre. Paciotti destaca alguns momentos importantes na evolução dos materiais tidos como menos nobres. Na história do titânio, que, além de leve, não causa alergia em peles sensíveis ao aço, ele abre um parêntese para a liga TIVANTM, de titânio evanadium, patenteada pela Jaeger-LeCoultre. “O material amplia o som do repetidor de minutos”, conta. Convém relembrar a estreia da Hublot no mercado, nos anos 80, com combinações inusitadas — a primeira delas de ouro e borracha. O gesto abriu caminho para materiais pouco usuais, como zircônio, tântalo e tungstênio. Atualmente, fibra de carbono e cerâmica surpreendem em novas misturas e versões. Associada ao universo da Fórmula 1, a fibra é fina como um fio de cabelo. “Trançada, torna-se um material quase indestrutível”, diz Paciotti. 

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Hublot Big Bang Unico Chrono Bi-Retrograde: fibra de carbono e cerâmica (Foto: Divulgação)

Na coleção Ingenieur, da IWC, o modelo Automatic Carbon Performance Ceramic (74 000 reais) possui a caixa de 100% fibra de carbono e um sistema de absorção de choque que resiste a impactos similares ao do cockpit, também feito desse material. A Richard Mille, por sua vez, criou o carbono NTPT®, composto de mais de 600 camadas de fibra, para o RM 011 Flyback Chronograph, modelo de 2014 que tem como garoto-propaganda o piloto da Lotus na Fórmula 1, Romain Grosjean. Para provar a resistência do relógio, ele vai usá-lo por fora da manga do macacão. A Jean Richard aposta na fibra de carbono ligada a dois tipos de titânio no cronógrafo triplo do Aeroscope 208 Seconds. O Big Bang Unico Chrono Bi-Retrograde Soccer Bang, da Hublot, em homenagem à Copa do Mundo 2014, da qual a marca é cronometrista e relógio oficial, segue firme com a fibra de carbono, desta vez no aro. No último ano, a Jaeger-LeCoultre lançou o Deep Sea Chronograph Cermet, que une cerâmica e metal. O Radiomir Composite 3 Days, da Panerai, possui a caixa de 47 milímetros com liga de cerâmica e alumínio. A Audemars Piguet ousou ao apresentar o Royal Oak Concept GMT Tourbillon, de cerâmica branca. A Omega surpreendeu com uma edição limitada a oito unidades do modelo Omega Seamaster Planet Ocean, conhecido como Orange, com cerâmica e alumínio laranja.

No relógio feminino Midnight Planétarium Poetic Complication, da Van Cleef & Arpels, o mostrador de aventurina é polvilhado com mica, pedra comum em Minas Gerais, que, esfarelada, mimetiza as estrelas. As pedras aplicadas sobre a aventurina representam os planetas: turquesa para a Terra, serpentina para Mercúrio, jade negro da Birmânia para Vênus, jaspe vermelho para Marte, ágata azul para Júpiter e luvulite para Saturno. Esculpidas a mão, as esferas são posicionadas a partir do Sol, de ouro rosa, e orbitam ao redor dele graças a um mecanismo de corda. Inspirada na viagem do homem à Lua, a coleção 1969 de Romain Jerome traz mostradores de condrito, um meteorito raro originário do cinturão dos asteroides entre Júpiter e Marte. Para outros campos do mostrador, entra em cena o silício, que protege o relógio do magnetismo de aparelhos como o celular. Nesse caso, o céu é de fato o limite na busca de materiais inéditos para a alta relojoaria.

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Fonte: VEJA SÃO PAULO